O passado

Às vezes me procuro e já não me encontro mais.Tento recorrer ao passado, mas sou bloqueado pelo agora.Busco me reconectar ao que também foi belo.Então, percebo que não existe mais. Não guardei!Não arquivei!Não memorizei!Não zelei! Porém, sei que foi vivido.Pois, ainda sinto o cheiro da nossa parede de barro.O pote secava, mas logo era cheio de novo.Nossa mesa era grande: chão da cozinha. Aonde vim … Continuar lendo O passado

Não-oração

Sobra tudo aquilo que ainda falta  Temperado pela lágrima contida  Num estado de timidez Enfrentei O final que eu não quis Mercúrio não adiantou Vênus e Marte colidiram Aos astros Peço para que não retornes Porque mudei de caminho Eu não oro por uma direção Esperei Como se o momento certo existisse Tentei nomear  Quando outrora não era classificável Fui avisada Uma caixa de pandora … Continuar lendo Não-oração

Pode beijar

Beije – me,Pode beijar…Não um daqueles beijos fúnebresde lábios tremidos, boca seca,sem entrega… Não quero um desses beijos nervosos,roubados, sem emoção oucontidos. Não desejo beijos vagos,sem volúpia ou êxtases.Se queres me beijar?Beije-me,Pode beijar-me… Mas preciso de um beijo daqueles novelescoscom mordidelas, paixão e afagos.Um beijo ardente,escandalizador, sem moralidades,libidinoso por si só…cheio de décimas terceiras intenções. Quero um beijo molhado,de despedida,mas não como se fosse o … Continuar lendo Pode beijar

DIALÉTICA DO PÉ E O SOLO

Mesmo que eu escolhaBotar o pé no chão descalçoAs pedras machucam o péMais que o pé machuca o asfaltoNão deixo nenhuma pegada eSobre o chão não direi nadaSe sigo assim incauto… Uns dizem que falta força,Mostram marcas na estóriacomo se fossem de agora,Mas ocultam à reveliaQue quem fez esse legadoFoi quem criou esse asfaltoQue à meus pés machucaria. Contesto tais narrativas,Que são um tanto enganosasEles … Continuar lendo DIALÉTICA DO PÉ E O SOLO

Conviver com a ausência

No silêncio das noites, o coração grita e os olhos desabafam.Aquilo que está preso. Que não é superficial.A dor, a solidão, a ausência, a perca…tudo junto.Rede que consola, lençol que abraça. Saudades dela. Coração vazio. Dia que se inicia.Tudo de novo: trabalhos, estudos, rotina.A ausência percorre quilômetros, mas volta.O esperançar, é a saída.Oração que aproxima. Que fortifica. Que indica.Os olhos abrem-se, a boa nova é … Continuar lendo Conviver com a ausência

Strigiformes

À João Lucas de Andrade Inerte,Camuflado e altivo,Paíra como um vulto num troco de uma árvore morta,Produzindo horripilante vocalização fúnebre,Fazendo empalidecer os mais corajosos aventureirosnoturnos.No que ouço dizer:– Se sobrevoar o telhado da casa é certeza alguém morrer! Corpo falcanóide,Cabeça redonda,Guardião dos cemitérios.Alerta do mundo das almas?É preparação para mudanças futuras.Transformação.– Anuncia a chegada de má sorte, agouro! Sobrancelhas brancas,Olhos amarelados,Sua astúcia revela o que … Continuar lendo Strigiformes

Imobilizada

Por Jéssica Bezerra Corpo indolente.Padece inconcebível.Jaz distante do coro celestial da inocência.PeleMúsculoGorduraNão necessariamente nessa ordem que promovem a fissuraO olhar que enclausura.Enfeitiça. Espelho, espelho meuAmigo/inimigo.Dia sim. Dia não. Queimem a bruxa.Deixa queimar.O olhar não é o meu.Mas a culpa que também não é minha, será sempre o meu pesar. Avião.Sinal de trânsitoObjeto (des)animado Outro dia a moto quase bateu no carro mas eu, parada na … Continuar lendo Imobilizada

Prelúdio Feminino

Por Jéssica Bezerra Eu gosto de me esconder nos cantos. Me fazer pequena para que ninguém me veja.A carne flamejante, em tiras ensanguentadas de violência preambular. Introdutória. Foi exatamente o que aconteceu. Nós todas sabemos bem a história. Eu me lembroAnsiedadeViolênciaIlusão Tríplice da resistência. Eu nunca disse que era saudável.Você estava prestando atenção? ExpectanteMas não atenta Implorando pelo sono profundo, pacífico, ligeiro.No entanto, a célere … Continuar lendo Prelúdio Feminino