Livros, cupcakes e sorvete de tangerina: Parte III

Leia o capítulo anterior: “Livros, cupcakes e sorvete de tangerina: Parte II

Cedo da manhã, Jéssica levanta arrastando-se como se tivesse carregado pedras no dia anterior. Andando pelo apartamento ela esbarrava nos móveis e se espreguiçava, constatando que precisava de um banho e um bom café. Já pronta para ir para a editora, sente um frio na barriga, três dias se passaram e ela precisava de uma outra ideia para sua história, o tempo não estava a seu favor. Ao longo do trajeto até a empresa, a colunista cogita abandonar o projeto e tentar outro emprego, algo inviável pois levaria tempo até ser contratada, também pensou em desafiar o presidente, o que a faria ser demitida por justa causa, a questão era que de uma forma ou de outra, ela ficaria desempregada.

No escritório, conversou com Geovana, a mulher disse que ela poderia seguir adiante com a história que viveu, e que se ela precisasse mesmo de algo que fizesse seu romance se diferenciar dos que estavam em alta, tudo bem enfeitar um pouco. Em conflito sobre descrever Álvaro de uma forma totalmente distorcida e ir contra seus princípios, a garota entrava em pânico toda vida que recebia uma mensagem em seu celular, com medo de que fosse o rapaz. O peso em sua consciência a perseguiu pelo resto do dia, fazendo com que o prazo para entrega do trabalho ficasse cada vez mais curto. Em casa, com Lilo aninhada em seus braços, andava de um lado para o outro preocupada com a carreira que mal começara.

Cansada de ficar de mãos atadas, sentou em sua mesa de trabalho ao lado da janela do quarto e pôs-se a escrever, deixando-se levar por seus instintos. Decidiu escrever sobre duas moças que se conheceram em um show de MPB, encantadas uma pela outra entregaram-se ao momento que fora prolongado pelos meses seguintes, resultando num singelo amor de verão. Ao concluir seu trabalho, parecia satisfeita por não precisar ir contra seus ideais difamando alguém, e por conseguir colocar bastante de si na história, lembrando-se de uma experiência antiga. Ainda naquela noite, enviou seu escrito diretamente para Sérgio analisar, ele exigiu que ela o fizesse para que fosse verificado se o teor da história condizia com o perfil da empresa. Duas horas depois, Jéssica recebe um e-mail em resposta ao trabalho finalizado, o presidente não gostou da abordagem feita pela colunista sobre um romance entre duas mulheres, disse que Jéssica deveria encontrar algo que se encaixasse nas visões da Editora Lobos e reavaliasse sua postura. Com raiva, mas não surpresa pelo que recebera, a garota suspirou e tentou controlar-se para não insultá-lo. Numa tentativa de se distrair ficou vagando pelas redes sociais até o sono chegar, quando viu que Álvaro não tinha dado nenhum sinal de vida desde o beijo dos dois, Jéssica agradeceu mentalmente por aquilo e sequer estranhou sentindo um certo alívio. Alívio esse que seria substituído por dores de cabeça logo às sete da manhã, quando recebe uma ligação de Geovana.

Ligação on:

Geovana: Você está indo para a editora?

Jéssica: Terminando de preparar para sair. Aconteceu algo?

Geovana: Abre o site da Luminus. Olha a publicação deles de ontem.

Jéssica: Não é a editora rival? Só um minuto.

Jéssica navega pelo site que Geovana mencionou, ela congela ao ver a última postagem: “A Bela e a Fera da vida real” por Álvaro de Azevedo. Sem ter o que dizer, a moça permanece calada, seus olhos estavam vermelhos, mas não por lágrimas de tristeza e sim de raiva. Raiva por estar certa desde o início e ter duvidado de si mesma. Raiva por um idiota com título de escritor achar que poderia associá-la a uma fera da maneira mais machista e superficial possível. 

Percebendo que a garota estava em choque, Geovana prosseguiu:

– Tire o dia de folga para organizar sua história. Já falei com o editor chefe. Você tem um dia para publicar a verdade.

Ligação off.

Determinada a mostrar para Álvaro que sua protagonista não era nada mais que uma fera que também sabia escrever e responder a altura, a colunista debruçou-se na mesa de sua cozinha, abriu seu computador e dedicou as 24 horas que tinha ao massacre do homem branco machista metido a escritor. Parando apenas para comer e acariciar Lilo. A mulher escrevia disparada sobre o “romance” vivido em três dias, enfatizando que suas expectativas iniciais quanto ao gentleman estavam corretas. Utilizando-se não só da raiva que sentia pelo rapaz, mas aproveitando-se para expor e denunciar o presidente da empresa, a colunista deu luz a uma história que a indicaria nos próximos dias ao prêmio de escritor revelação, competindo justamente com Álvaro e a história que ele forjou dos dois.

Além de ser a candidata mais nova a ser indicada ao prêmio, Jéssica autora de “Antes Fera do que homem” assumiu o cargo de co-editora chefe em uma empresa administrada somente por mulheres, que estava em ascensão no mercado. Dias depois, aprontando-se para a cerimônia de premiação, a moça despede-se de sua gata e segue para a entrada do prédio, onde Geovana e Nanda a esperam, as duas, que agora trabalhavam com ela na nova editora, iriam acompanhá-la ao evento.

-Você está simplesmente incrível. Pronta para colocar esse Álvaro no lugar dele? – A melhor amiga da moça sorria.

-São vinte minutos até lá e faltam exatos vinte minutos para a cerimônia começar. – Declarou a mulher mais velha.

-Certo. Vamos nos apressar. – Disse por fim.

As três partiram juntas no carro de Geovana, Nanda estava animada e tinha bastante expectativas quanto ao reencontro de Jéssica e Álvaro. A escritora por sua vez, sentia certo desconforto com a ideia, não falara com o rapaz depois do último encontro, mesmo quando seus escritos se tornaram públicos. Percebendo a tensão na amiga, as duas outras mulheres procuram distraí-la colocando o som alto e cantando. A tática pareceu funcionar, quando chegaram ao evento Jéssica sorria, junto às companheiras adentrou no local e sentou-se em uma mesa perto do palco.

O apresentador da cerimônia começa a discursar, um pouco entediada Jéssica concentra-se na bebida que serviram para ela e as meninas. Pessoas iam cumprimentá-las, algumas pareciam incomodadas com sua presença. O tempo passa até que chega o momento de premiar os indicados à categoria da moça, nisso ela notou que ainda não vira Álvaro, o que estranhou e a fez olhar para cada grupo espalhado no recinto. Ansiosa e deslocada, ela pediu para as amigas que assim que a premiação acabasse deixassem tudo pronto para ela ir embora. Escutando seu nome sendo chamado para subir ao palco, a autora dirige-se para uma escadinha que a levaria até onde os outros escritores estavam. Com isso, sentiu dificuldades em subir a estreita escada em consequência do tamanho de seu salto e da barra de seu vestido, recebendo ajuda de um homem que estendeu a mão para que ela se apoiasse.

-Obrigada, eu… – A moça para de falar ao perceber de quem se tratava. – Você. – Ela começou a gaguejar.

-Parece que o gato comeu a língua da fera mais famosa. – Álvaro provocou com um sorriso.

Ignorando o comentário do homem, a escritora seguiu para o lugar indicado, respirou fundo e torceu para que aquilo terminasse logo. Aquela altura ela nem esperava ganhar algo, até que escuta seu nome “Jéssica Trindade” ao final da fala do apresentador. Nervosa e confusa, ela recebe o prêmio e quase recusa-se a discursar. Mas, prometeu a Geovana que falaria bonito, pouco e bonito para mostrar que não está para brincadeiras. Sendo a premiação dada como encerrada, começa a festa de comemoração. Sem paciência para aquilo e pensando apenas no conforto de seu lar. Jéssica despede-se de alguns conhecidos e de suas amigas, que pediu para que aproveitassem em seu nome. Saindo de fininho para que não percebessem, a garota caminha em direção a rua, logo recorda que fora até ali de carona e precisaria chamar um uber. Com calor, pela quantidade de tecido em seu vestido, ela resolve comprar um sorvete na barraquinha a sua direita, perguntando ao senhor que vendia se tinha sabor tangerina. O homenzinho bem simpático respondeu que sim sorrindo, e logo atendeu o pedido da moça.

Ali, concentrada em seu sorvete de tangerina, Jéssica viu pela primeira vez em anos seu último amor de verão, ao notar que ela a olhava a escritora sorriu sem graça e caminhou em sua direção, sendo puxada para trás por um cara, Álvaro. Sem reservar qualquer delicadeza, a moça deposita seu sorvete na cabeça do rapaz.

-Não tenho nada contra você, apesar de ser um idiota. Confesso que fiquei receosa ao imaginar vê-lo hoje, mas percebi que não fazia sentido porque como você mesmo me descreveu sou “suave como um coice” então não preciso ser educada desnecessariamente.

Jéssica deixou Álvaro boquiaberto na entrada do evento e correu para abraçar Leila, que não via há um bom tempo.

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