NITIA-ABÁ: PARTE III

Leia o capítulo anterior: “NITIA-ABÁ: PARTE II

Subindo na frágil embarcação ela adentra o mar e tenta ultrapassar as ondas que puxam o barco de volta para o litoral. Ela sabe que o melhor momento para que a embarcação possa entrar em alto mar é na maré alta. Observou diariamente as partidas e voltas dos mais velhos e sabia como manobrar a embarcação. Ninguém precisou ensinar. Nitia-Abá era muito esperta e aprendia com facilidade. Era atenta, precisava ser. Necessitava provar que era digna. Pra isso não desperdiçava o seu tempo em bobagens. Não podia falhar essa não era uma opção para ela. Tinha um objetivo claro desde que compreendera sua situação de exclusão. Sempre á sombra dos outros, desprezada. Mal compreendida. Nunca escutada. Em alto mar, agora não havia mais ondas, tudo era calmaria. Observou que na direção da yby só conseguia ver uma serra muito alta. Seria a serra de Tururu? Talvez. Era onde nasce o rio Trairi. Ela sabia que naquela direção deveria voltar antes do fim do dia.

Chegando ao ponto que os antigos haviam marcado para a pesca do Camurupim, Nitia-Abá joga a ancora, feita de paus amarrados em uma pesada ita para que o barco pudesse ficar parado e ela começasse a grande empreitada de pegar o Pirapema que é outro nome dado ao bicho. Não seria fácil. Começou a preparar o anzol e a isca para isso. Todas essas coisas estavam devidamente acomodadas num samburá firmemente amarrado na embarcação. O modo de capturar o peixe é uma técnica desenvolvida através de muitas tentativas e erros ao longo de várias gerações de Pitiguaras. Nitia-Abá escutara inúmeras vezes essas estórias contadas em torno da fogueira em noite de iaé minguante. Para a pesca do Camurupim primeiro era necessário encontrar uma árvore de sisal ou agave. Esta planta tem muitas finalidades, é uma planta com propriedades anti-inflamatórias e analgésicas servindo também para a produção de cordas. 

Para fazer a corda de sisal, primeiro precisavam-se arrancar as folhas da planta que são pontiagudas. Depois bater com uma pedra sem pontas até que o líquido das folhas fosse retirado. Só assim, iria se obter a fibra do sisal, uma das mais duras da natureza. As fibras são trançadas e se transformam em corda anama que precisa ser muito grande e forte para aguentar o peso do peixe quando capturado. Na extremidade da corda então é amarrado um anzol com a ponta em formato de gancho que deve se prender á boca do peixe e lá ficar preso para que o mesmo não fuja. A isca, por sua vez, é feita de pequenos peixes, de preferência sardinhas e crustáceos que deve ser preso ao anzol. Nitia-Abá conhecia a técnica, havia treinado exaustivamente, mas nunca havia aplicado o que sabia teoricamente. Agora era a vez de fazê-lo. Jogou ao mar a isca e o anzol e na outra extremidade da corda segurava firmemente com as mãos para sentir se o peixe fisgava a isca. 

O calor do sol doía em sua pele e por sua altura ela sabia que a metade do dia se aproximava. Nessa posição passara toda a manhã e já estava ao ponto de desistir, quando sentiu uma fisgada forte. Estava faminta e já sem força. Não era uma boa hora pra lutar com um Pirapema. O barco começa a ser arrastado para um lado e para outro e Nitia-Abá só não é levada porque estava presa na jangada também com cordas. Suas mãos começam a ser apertadas pelas cordas e ela sente uma dor que só se comparava do que uma ferroada de uma cacira. Sentia como seus braços pudessem ser arrancados tamanha era a força com que eram socados para todos os lados. Estava demasiadamente exausta e nessa hora passava em suas memórias todo o sofrimento a que foi submetida em sua breve vida. Nessas quinze primaveras havia experimentado todo o tipo de sentimento ruim e decidira que era a hora de recomeçar. E a oportunidade estava agora muito próxima de escapar de seus dedos. Suas mãos de tão avermelhadas passavam a uma cor roxa, indicando que seu limite estava findando. Algo precisava ser feito naquele instante: ou largaria a corda e veria ir embora sua oportunidade de redenção, ou iria comemorar sua vitória junto aos demais na sua aldeia.

Pensando assim e vindo em seu pensamento Irany sua mãe, que nem chegara a conhecer. Seu pai, Jurandi e por fim, a velha Juraci, Nitia-Abá solta um grito que reverbera por todo o vazio da imensidão do mar e reúne uma força nunca antes descoberta pela menina. Seus olhos avermelhados parecem ser de uma Jaguatirica e sua força a de dez homens adultos. Nitia-Abá começa a puxar a corda e dar puxões na direção contrária daquelas do Camurupim esperando que o mesmo cansasse. Numa dessas oportunidades que o peixe cedeu um pouco a corda, a menina consegue passar, com muito esforço a mesma em volta do mastro da embarcação. Dai em diante a captura do animal se tornava mais provável. Até que a agitação da luta entre os dois dá uma trégua. Será que Nitia-Abá havia conseguido vencer? Ainda não estava confiante. Com a corda enrolada no mastro ia puxando aos poucos para que a caça pudesse se aproximar do barco. Parecia que sim, ela vencera. Estava esgotada e ainda assim usando as pernas e braços, puxava a corda freneticamente para concluir aquela árdua tarefa. Sentia que o peixe estava cada vez mais próximo e isso lhe dava esperanças.

De repente ela avista nuvens escuras, vindo ao longe. Sem nenhum sinal de tempestade ela estranha aquela mudança no clima. Mas agora era tarde pra voltar atrás. O vento muda de posição repentinamente e ela precisa baixar a vela da embarcação para que o vento que agora esta muito mais forte não rasgue ela ao meio. Uma grande tempestade se aproximava rapidamente e por mais que Natia-Abá tentasse se desvencilhar dela, de nada adiantava seus esforços. O peixe ainda lutava e agora ela teria que fazer duas tarefas: puxá-lo para cima da embarcação e amarrá-lo e tentar chegar ao litoral e salvar sua vida. Estava sozinha como em sua vida toda? Nitia-Abá não podia duvidar do que era. Era uma guerreira. Só naquele dia havia realizado feitos que muitos guerreiros nem sonhariam em faze-los e não podia contar como seus. Respirou forte, pediu força a Tupã e fez a única coisa que sempre fazia: não desistir jamais. Afinal era seu destino ser a primeira índia kaluanã em sua aldeia. Disso ela não iria abrir mão. Afinal ela era aiyra de seu pai. Era seu destino, estava na sua sina. Então num grito ensurdecedor dispara:

_  Eu sou Nitia-Abá, filha de Irani, Jurandi e Juraci! Eu sou alguém!

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