Livros, cupcakes e sorvete de tangerina – Parte II

Leia o capítulo anterior “Livros, cupcakes e sorvete de tangerina – Parte I“.

No dia seguinte, Jéssica acordara decidida a chamar a atenção de Álvaro durante o encontro no almoço. Mal sabia ela que Álvaro trabalhava para a editora rival, e que assim como ela precisava de uma história para escrever. Ao longo do expediente da manhã, a editora recriava situações em sua mente para ensaiar as melhores formas de deixar seu alvo interessado. Do outro lado da rua, no prédio paralelo à livraria, o jovem escritor pedia indicações de restaurantes aos amigos do escritório para levar Jéssica, ele queria impressioná-la. Na cabeça dos dois o que ocorria era a chance perfeita para uma bela história de amor, conheceram-se na livraria, ela era pavio curto e ele um verdadeiro gentleman, era um começo promissor.

Jéssica olhava a cada cinco minutos para o relógio, queria atrasar-se de propósito para ver a intenção do rapaz. De qualquer forma ela atrasaria-se, visto que o editor chefe a destinou uma demanda absurda de textos para correção. Tendo concluído boa parte das atividades, a jovem apressou-se para seu compromisso, chegando no local marcado apenas com vinte minutos de atraso. Ao entrar no sofisticado recinto, ela passa seus olhos por todo o salão em busca de Álvaro, “ele quer me impressionar?”, perguntou-se ao notar que o restaurante tratava-se de um dos mais famosos da cidade. Encontrando sua presa, ela sorri e segue em direção à mesa onde o rapaz a espera. Cumprimentando-o, ela percebe o esforço do homem ao puxar sua cadeira.

– Desculpa o atraso, tive alguns imprevistos no trabalho. – Logo ela viu que não poderia comentar que trabalhava para uma editora e era uma escritora novata, talvez ele fosse esperto e descobrisse seu objetivo.

– Tudo bem. Acabei chegando um pouco depois do horário. Dei sorte de chegar antes. – O rapaz parecia aliviado.

– Então, você trouxe minha agenda? – A garota foi direta.

– Nossa! (risos) Você é sempre assim? – Ele perguntou franzindo a testa.

– Determinada? Digamos que sim. – Ela sorriu.

– Eu estou com sua agenda sim. Mas antes, queria poder conhecê-la melhor. Sei que pareço precipitado, mas você realmente me pareceu alguém que eu precisava conhecer. – O rapaz começou a investir.

– Bom, primeiro que talvez você se decepcione. Segundo, você não é aqueles caras desesperados por afeto, certo? Eu preciso checar isso antes de deixar você se aproximar. – A moça parecia saber jogar.

– (Gargalhadas) Não! Definitivamente não. Eu sou mais do tipo que se isola e afasta os outros. – Ele declarou.

– Então eu estou lidando com alguém suscetível à hábitos sombrios? – A garota brincou provando do vinho que acabaram de servir.

– Você não perde uma. Tudo bem, eu começo. Sou Álvaro, tenho 26 anos, não sou suscetível a psicopatia, e trabalho como fotógrafo. Sua vez. – Álvaro mentiu sobre sua profissão, afinal ele estava ali para conseguir uma história mesmo considerando Jéssica atraente o suficiente.

– Fotógrafo? Interessante. Meu nome você já sabe. Tenho 23 anos e acabei de me formar em Letras. – A mulher percebeu que quase deixou a verdade escapar.

– Letras? Você é professora? – Ele pareceu interessado.

– Sim, sou professora. – Jéssica repetiu aquilo para parecer convincente.

A conversa parecia fluir. Um tentava mostrar o melhor de si no intuito de cativar o outro. Em alguns momentos parecia natural, algo verdadeiro. Álvaro achava Jéssica interessante, mas um pouco distante ainda, enquanto ela sentia que ele fazia muito esforço para agradá-la e quando tentava relaxar acabava falando apenas sobre ele mesmo. Terminada a refeição, um pouco refinada demais para o gosto da garota, era a vez de escolher uma sobremesa, ela torcia para que dentre as opções tivesse algo que ela gostava de verdade.

– O que você vai querer? – O rapaz perguntou.

Não aguentando mais fingir tanta delicadeza, ela disparou:

– Tudo bem se eu pedir um cupcake? É que eu preciso mesmo de um agora.

– Cupcake? Aqui? (risos) Acho mais fácil conseguirmos numa loja de doces. Topa? – O cara não sabia se sorria ou simplesmente achava fofo.

– Você não se incomoda? – Ela parecia insegura.

– Claro que não. Estou um pouco atrasado para um compromisso. Te pago um cupcake para compensar minha ausência. – Ele tentou ser gentil.

– É muita gentileza sua. – Falou a mulher revirando os olhos disfarçadamente ao pensar “ele acha que se paga por ausência? é rico de berço pelo visto.”

Na loja de doces a colunista selecionava com atenção alguns cupcakes para a viagem. Um pouco ansioso e impaciente, o redator esperava por Jéssica tentando esconder sua irritação, a garota era adorável e o deixava curioso, mas naquele momento ele precisava voltar para seu escritório. Em seguida, ao concluírem a compra, os dois despedem-se em frente à loja, a moça entrega um cupcake ao rapaz e eles combinam um novo encontro no dia seguinte, dessa vez era ela quem escolheria o local. 

No fim do dia, a colunista parece ter idealizado o início de seu romance, no entanto, ela não parecia satisfeita, a história acabaria sendo sobre dois estranhos que se flertaram em uma livraria assim que se conheceram. Aquele não era o estilo dela, faltava algo, autenticidade quem sabe, ela queria um ponto-chave que fizesse sua história se destacar. Com isso, decidiu que escreveria sobre a verdade que conhecia: uma escritora em busca de uma história romântica que teve o caminho cruzado por um homem branco que fingia ser diferente dos outros. Jéssica nem cogitava que esse homem viria escrever sobre “um clássico e jovem amor moderno” em que o gentleman fora o único capaz de domar a fera interior de uma mulher.

Focada em fazer do segundo encontro tão perfeito quanto o anterior, Jéssica aproveita que o dia seguinte é feriado na cidade e convida Álvaro para o parque de diversões. Ele aceita na hora, e parece animado já que aparentemente não será um tédio. Ele a busca em sua casa, sempre esforçando-se para ser o mais atencioso possível, Jéssica iria ceder em algum momento. Ela parecia querer que ele cometesse algum deslize para não sentir-se mal escrevendo sobre um cara superficial. Sua intuição dizia que ele era perfeito demais para ser real. O encontro foi repleto de cenas dignas de filmes, ele conseguiu um urso para ela no jogo de tiro ao alvo, foram juntos na montanha russa, comeram muita porcaria e agora era a roda gigante que os aguardava. Jéssica parecia ansiosa, achava que como Álvaro fazia tudo parecer clichê, ele tentaria beijá-la quando estivessem no topo. Aquilo era demais para os dois, um cenário romântico sem fim, ninguém aguentava mais.

– Não se preocupa, não vou tentar nada sem o seu consentimento. – O rapaz parecia ler os pensamentos da garota.

– O que? – Ela não sabia o que responder.

– Está na cara que você julga qualquer gesto legal meu. É como se torcesse para que eu fosse um babaca. – Ele disparou

Surpresa pela sinceridade de Álvaro, Jéssica fica calada enquanto eles entram na roda gigante. 

– Eu sei que forcei um pouco exagerando com cavalheirismos como se você não fosse capaz de sei lá… Conseguir um urso sozinha no tiro ao alvo. É só que eu queria te impressionar de verdade. Você passa essa imagem intimidadora mas achei que fosse uma máscara. – O cara continuou sendo sincero.

– Sabe que isso não faz sentido? Digo, eu não costumo ser grossa de graça. Você é legal, a gente tem bastante coisa em comum, mas é como se nós dois estivéssemos forçando a barra para algo sair daqui. – Jéssica parecia querer desistir do seu plano.

Álvaro escutara aquilo com atenção, de fato a mulher ao seu lado era incrível e ele era mesmo um idiota por usá-la para uma nova história, então ele teria que mudar de estratégia, desistir daquilo estava fora de opção, o cargo de editor chefe teria que ser seu. Após as palavras de Jéssica, os dois permaneceram quietos durante o restante em que ficaram no brinquedo, e assim seguiram até ele deixá-la em frente ao prédio onde morava. Jéssica naquele momento achava que Álvaro estava sendo ele mesmo, Álvaro achava que a fera era mesmo uma fera.

– Vamos fazer o seguinte, podemos continuar saindo mas sem pressa. Se você quiser é claro. – Ela disse depois de sair do carro e subir na calçada de seu prédio. 

– É claro que eu quero! Eu já disse, você é alguém que vale a pena conhecer.- Ao dizer isto Álvaro é interrompido pela garota que o beija rapidamente. Apesar da surpresa ele a corresponde, Jéssica tinha um gosto doce na boca, ele gostou daquilo.

Tomando consciência do que acabara de fazer, Jéssica afasta o rapaz e pede desculpas. Talvez tenha deixado-se levar pelo momento. 

– Você tinha dito que preferia ir com calma. Não que isso seja ruim. Foi ótimo aliás. – O garoto parecia ter perdido os sentidos. – Você não vai me dispensar, vai? – Ele estava com medo de o final de sua história ser aquele. Como homem ele queria mais, como autor parece que conseguira o que tanto queria.

– Eu preciso entrar. Converso com você depois. – Jéssica corre para a entrada do prédio. Sem fôlego, entra no elevador e liga para Nanda.

Ligação on: 

Jéssica: Eu fiz uma besteira!

Nanda: De que tipo?

Jéssica: Talvez eu tenha acabado de beijar o Álvaro depois de desistir do meu plano.

Nanda: Você se apaixonou?

Jéssica: Não! É só que eu esperava que ele fosse um idiota e que eu pudesse escrever sobre isso.

Nanda: Você está achando ruim ele ser bonito e legal? Você está indo para a terapia?

Jéssica: Eu sei que parece loucura. Mas eu só me sinto culpada. Me aproximei dele para usá-lo e acabei beijando ele. O elevador abriu, um instante.

Nanda: Amiga, e se você for sincera com ele? Talvez ele entenda e talvez ainda queira te conhecer.

Jéssica: Tem razão, eu preciso contar a verdade. Mas eu não quero vê-lo. Como eu disse, me aproximei apenas pela história. Ele é legal, mas não estou interessada.

Nanda: Você que sabe. Preciso desligar, o Rafa chegou com o jantar. Qualquer coisa me liga!

Ligação off.

Frustrada com a situação em que se encontrava, Jéssica deita na cama do jeito que chegou da rua e adormece, esperando que seus problemas estivessem resolvidos quando acordasse.

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