NITIA-ABÁ: PARTE II

Leia o capítulo anterior “NITIA-ABÁ: PARTE I“.

Num impulso de sobrevivência ela agarra ligeiramente seu arco e flecha com o intuito de atirar no animal sem pensar nenhuma vez. Agora queria correr, mas suas pernas já não lhe obedeciam e lembrou instintivamente que seria pior se o fizesse. Começou a suar novamente como nunca havia feito, nem nos dias mais quentes de coaraci. O animal, por sua vez, parado, a olhava fixamente, imóvel. Ela também o encarava. Naquele infinito-breve momento, viu passando toda a sua miserável vida em seus pensamentos: a culpa pela morte da mãe, a falta que sentia do pai, o desprezo que sofria cotidianamente da aldeia pela sina de se tornar o motivo da morte de todos. Coisa que nem sabia se iria realmente ou se concretizar. Nesse instante, num momento de fraqueza pensou que seria melhor para todos deixar-se ser devorada pela onça. Seria uma saída honrosa? Lembrou-se da velha Jurandi que a criou, após sua família tê-la rejeitado e abandonado a mesma à própria sorte. Pensou em dar um passo atrás e o fez, mas fazendo isso, pisou em um dos galhos secos que havia espalhado, criando um barulho que faz com que os olhos do animal se voltassem pros seus pés. Mas ligeiramente aqueles olhos redondos e avermelhados voltar a fitá-la.

Nesse momento suas mãos suadas deixavam o arco molhado e como já fazia um tempo que estirava a corda do arco, seus músculos avisavam que suas forças estavam no fim. E se errasse a primeira flecha? Não teria outra chance. Havia aproveitados as horas vagas sem amigos para brincar no rio para treinar em caçar araúnas para alimentar a velha Juraci que já sem dentes preferia comer um pirão cozido do pássaro feito com macaxeira. Sabia que tinha mira boa, aliás, era uma das melhores da aldeia. Sabia disso, pois sempre acertava os alvos mais de uma vez, apesar de não participar das competições da aldeia, pois até disso era excluída. 

E nesse momento que algo acontece e tudo muda. Dos olhos avermelhados da onça, começavam a sair rajadas de fogo. Sabia disso porque sua fogueira já estava apagada há algum tempo, só restando algumas cinzas e carvões ainda em brasa. De repente ao seu redor, a mata pegava fogo e o estalar do fogo consumindo as plantas tinia no seu ouvido. Bem como o cheiro de fumaça e o calor do fogo que se aproximava. Sua pele era avisada do fogo e a tensão subiu pra um limite inimaginável. Isso ajudou a aumentar o suor que agora consumia seu corpo por inteiro. A onça, imóvel continuava na mesma posição. A fumaça cobria toda aquela clareira. Foi aí que Nitia-Abá observou que a amerê, a fumaça dançava, criando formas e imagens que ela conhecia e ao mesmo tempo desconhecia. Seu braço pesava e não aguentaria mais esticar o arco. Optou por baixar o arco se apercebeu que a onça não a atacava. Seria esse o encantado que guiaria sua visão dos ancestrais? As imagens formadas pela fumaça traziam certa curiosidade. Nela via coisas muito estranhas: grandes aldeias iluminadas e amontoadas, enormes máquinas de ferro derrubando a mata, imensos pássaros rasgando os céus, animais morrendo, rios secando, um mar de sangue e guerras, muitas guerras. 

Seria esse o destino de sua aldeia? Seria sua culpa esse destino? Nitia-Abá estava demasiadamente confusa. Por um instante balançou a cabeça bruscamente como se aquelas visões pudessem sair de sua mente. Ela via coisas que iria acontecer daqui a muitas e muitas gerações. De súbito, um grande clarão espalha toda a fumaça e ela não consegue vê mais nada. Ficou temporariamente cega pelo clarão, pôs o antebraço no rosto, como se este pudesse proteger seus olhos. Nesse ínterim, um silêncio amedrontador toma conta da mata sempre barulhenta. Nem o som de um grilo, nem de uma cigarra, muito menos de uma aondê. Só o orvalho anunciando que a manhã era presente. A onça também não estava mais ali. Somente ela, Nitia-Abá. Suada e muda, assim como a mata. Depois disso, em duas yamís seguidas tentou falar com o espirito e nada foi o que obteve como resposta. Então não podia esperar mais, precisava continuar com a sua missão: enfrentar o mar, pegar o Camurupim e provar para a aldeia que não era uma pária, que tinha o seu valor, que merecia ser reconhecida e amada era a única forma de seguir em frente. Tinha que esquecer aquelas visões que não significavam nada diante do seu desafio naquele momento. Precisava reunir força e cumprir seu destino: restaurar sua honra. Tudo era somente pra isso!

Continua…

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