Cor, calor e amor

Interior da Bahia – 1940 

– José Maria, cheguei! 

Fui até a porta e recebi minha mãe que estava amontoada de sacos de compras feitas na cidade. Ofegante e suada, parecia muito cansada. Ela trabalhava muito, por dois na verdade, já que meu pai não pode vir pro Brasil conosco. Se dividia entre as tarefas da lavoura, a coleta de água no poço, os afazeres domésticos e os bichos. 

– Trouxe um presente para você! 

– Mamma, obrigado, o que é? 

– São lápis de cor, para você desenhar e pintar. Feliz Aniversário! 

– Custou muito, mamma? 

– Não muito, vendi uma galinha e encontrei umas promoções nas bancas da feira. Te ocupará antes de voltar para escola. 

Minha mãe sentia muito por ter me tirado da alfabetização, como não sabia falar o português, as outras crianças me isolavam e zombavam muito de mim, fiquei muito triste. Resolveu que me ensinaria português em casa, antes de me colocar de volta na escola. 

– Que tal você desenhar algo que está ao seu redor e colorir? 

– Boa ideia, mamma. 

– Ok, enquanto isso vou me deitar um pouco, estou muito cansada. 

Olhei para os lados e busquei algo interessante para desenhar. Avistei uma flor na janela, embora eu não achasse chamativa, minha mãe gostava muito dela, regava de manhã e de tarde, debruçava-se na janela, cheirava a flor e olhava pro horizonte. Dizia sentir saudades de meu pai. Pouco lembrava dele, minha mãe não dizia o porquê dele não ter vindo. 

Peguei um papel e me sentei no chão olhando para a flor. Rabiscos para cá e para lá, mesmo sem saber contar, a mesma quantidade de pétalas tentava desenhar. Peguei os lápis de cor e usei as cores que julgava serem as adequadas. 

– Pronto! Mamma, terminei, olha a flor que eu desenhei para você! 

Ela não respondeu e fui então até ela, cheguei no quarto, subi na cama e mexi no braço dela para acordá-la. Mas ela não acordou, coitada, trabalhava tanto que pegou no sono muito profundo para poder descansar. E nunca mais terminou de descansar… 

Tentaram localizar meu pai para que me levassem de volta para o meu país, cartas em vão, agora estava nessa prisão, neste país quente que só tem verão. Um menino, sem família, sem destino e que ninguém compreendia.

Me colocaram em um orfanato de freiras. Mesmo tendo aprendido o português, não consegui me aproximar das outras crianças, me achavam estranho e esquisito. Me isolava cada vez mais. Da janela do meu quarto, olhava para o céu, para a lua e para as estrelas, todas as noites, só elas me consolavam. 

Para disfarçar minhas emoções, tentei buscar novas distrações. Peguei meus lápis e comecei a colorir. E sorrir… Passava o dia desenhando e pintando, desenhando e pintando. Não prestava atenção nas aulas das irmãs, só queria ficar ali a colorir, meu pequeno mundo. 

Certa vez durante o recreio, eu estava desenhando no refeitório e uma menina chegou até mim e começou a me xingar: 

– Você parece muito idiota com esses desenhos, você não enxerga não é? Desde quando a grama é vermelha e o sol é azul? Você é muito estranho. 

Ela saiu e derramou o resto do suco que tinha em seu copo em meu desenho. Depois daquele dia passei a me questionar se meus desenhos eram realmente bons e tão realistas quanto eu achava. No ano seguinte passaram a dar aulas de artes no orfanato e a irmã responsável passou a me questionar o porquê eu usava aquelas cores em meus desenhos. Fala que meu traço era bonito, realista, mas que não tinha a cor do mundo real. Fizeram alguns testes em mim, mas constataram que eu enxergava bem até demais e que esse não era esse o problema. Resolveram fazer um legenda de cores para mim, eu não chamaria mais as cores de verde, amarelo ou azul. Nos lápis estariam escritos grama, sol e céu, por exemplo. Esses eram o nome das minhas cores. Começaram a espalhar pelo orfanato que eu enxergava como o demônio ou que eu enxergava em preto e branco. Me zombavam bastante. 

Me isolei mais ainda das pessoas e naquele momento também passei a isolar também meus desenhos, não fazia sentido para mim o céu ser azul, a cor do céu era o que eles chamavam de preto e a grama era o tal vermelho. Evitei desenhar em público, a partir desse momento passei a desenhar escondido, usando as minhas cores e os lápis que mamma havia me dado. Era o que ainda me restava dela, aqueles lápis e minhas lembranças.

E os tempos foram passando… 

Havia chegado uma comitiva de padres e religiosos no orfanato, vieram à cidade para realizar missões de evangelização. As crianças ficaram encantadas pelas roupas que vestiam, batas até os pés, grandes botas e cruzes enormes sobre o peito. As crianças foram chamadas e correram para o pátio para recepcionar a comitiva. 

A Madre Superiora começou a explicar que eles tinham vindo da Europa para missões no Brasil e que não deveriam estranhar se não entendessem o que eles falassem. Foram passando apertando nossas mãos, perguntando nossos nomes e nos abençoando. O sotaque deles parecia o de mãe. Quando me cumprimentou um dos padres perguntou para madre:

– sei davvero brasiliano? 

A Madre então respondeu que não, e começou a contar brevemente minha história a eles, fiquei constrangido e evitei olhar em seus olhos. 

Eles passaram o dia rezando, tomando chá e conversando no jardim com as freiras. Ao final da tarde a Madre Superiora me chama até sua sala. 

– José Maria, você ainda faz aqueles desenhos? Tem alguém que quer vê-los. Leve-os até minha sala. 

Peguei minha pasta de desenhos na gaveta e acompanhei ela. Chegando em sua sala tinha um padre lá. 

– José Maria, esse é Padre George. 

– Olá, Joseph. Fiquei sabendo de seus desenhos, posso vê-los? 

Entreguei a pasta em sua mão, mas com receio, falei para que não os rasgassem. – Ele não irá rasgar, José, ele é de seu país, ele quer saber mais de você. 

Padre George começou a folhear meus desenhos e entre uma folha e outra olhava pro meu rosto e pro rosto da Madre. 

– Eu acho que sei o que você tem, distorção das cores, não é algo comum, mas até já tem óculos para isso. E seus desenhos, eles são ótimos, mesmo com essas cores, muita gente na Itália pagaria um dinheirão para tê-los. 

Bem, eu acho que chegando até aqui, já dá para prever os próximos passos da minha história. Cheguei em Roma e comecei a enxergar cores que nunca tinha visto antes; não, não fiquei curado e nem passei a usar óculos para enxergar ‘normal’; apenas a primavera de Roma me revelou cores que agora eu posso ver e trouxe meu passado para que eu vivesse o futuro. 

Por obra do destino, reencontrei meu pai e o restante da minha família. Meu pai contou angustiado os percalços que teve que o impediu de vir ao Brasil comigo e minha mãe. A amava muito, muito mesmo. Reescrevia a história de amor entre eles em poemas, contos, e em telas, ele também desenhava, como eu. As cartas não havia recebido, morava agora em outro lugar. Agora pude saber que não tinha sido abandonado e tentaria o amar como eu amei minha mãe, e passaria a entender o amor que eles sentiam um pelo outro. 

Às vezes sinto falta do calor, não odeio o Brasil, percebo agora que os muros do orfanato me impediram de conhecer mais as pessoas e os lugares deste país. Quero voltar ao Brasil, bem na época do carnaval, tentarei pintar todas aquelas cores e sentir o calor daquela gente.

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