Livros, cupcakes e sorvete de tangerina – Parte I

Na sala de reuniões da Editora Lobos, comemorava-se a nomeação do novo presidente, Sérgio Lobos, ou “o guerreiro” como Jéssica costumava ironizar junto aos funcionários da empresa. Seu novo chefe nada mais era que o herdeiro da renomada família conhecida pela longa existência no mercado literário. Jéssica, uma das editoras contribuintes e colunista da revista Lobos, associada a editora, acompanhava a “cerimônia” apenas para substituir seu mentor, o editor chefe Carlos Magno. Cansada por ter virado a noite trabalhando em uma nova história para a coluna em que publica semanalmente, a mulher de 23 anos segura-se para não cochilar durante o discurso de Sérgio, que parecia nem se importar com o fato de quase todos os funcionários ali presentes não darem a mínima para as histórias do garoto que chegou ali por sua persistência e trabalho árduo. 

Com a reunião chegando ao fim, Jéssica e Geovana, chefe da equipe de marketing, começam a organizar seus materiais dando sinal de que iriam retirar-se da sala, quando o novo presidente chama a atenção das duas ao comentar sobre suas ideias para a nova história que Jéssica viria a publicar em sete dias, e de mudanças no quadro de funcionários da equipe de marketing. Ao escutar aquilo, as duas permaneceram sentadas na enorme mesa da sala, confusas pelo fato de que somente elas teriam que ficar ali. Tendo “conquistado” a atenção das duas, Sérgio afirma que a coluna semanal de Jéssica tem tido bons resultados e colocado a Editora Lobos entre os tópicos mais comentados na internet no último mês, e que para permanecerem naquela posição, o ideal seria Jéssica deixar um pouco de lado suas críticas sociais e contos de terror, e acompanhar a tendência literária do momento. Não acreditando no que estava ouvindo, a mulher apenas sorri e pergunta qual seria a sugestão do presidente, obtendo a resposta de que “uma escritora mulher e jovem, deveria investir em romance”. Incrédula e impaciente com “o guerreiro”, a colunista questiona se aquilo é mesmo apenas uma sugestão, percebendo que na verdade havia uma ordem por trás do gesto daquele homem “tão admirável”.

Finalizada de fato a reunião, Jéssica segue com Geovana rumo à cantina do prédio, a chefe de marketing notara a raiva da colega, compartilhando com a editora os desprazeres de se ter um homem babaca como chefe.

– Vai fazer mesmo o que ele disse? – Perguntou Geovana chegando à cantina.

– Não tenho alternativa. É isso ou com certeza vou perder o emprego. Acabei de me formar, não posso correr esse risco. – Respondeu Jéssica sentando em uma mesa.

– Se te serve de consolo, passei o mesmo no início da minha carreira. Trabalho aqui há 10 anos e agora recebo ordens de um cara que não tem um terço da experiência que eu tenho. – Desabafou.

– Não é justo. Isso definitivamente não é justo. Eu devia voltar lá e gritar com aquele idiota. – Com raiva, Jéssica ameaçou voltar ao escritório.

– Não, não, não! Pelo amor de Deus não faz isso! Você só vai piorar as coisas para você mesma. – Pedia Geovana desesperadamente.

– Tem razão. Preciso mesmo é descobrir como eu vou escrever um romance. Nunca fiz isso na vida. – Suspirou a jovem.

– Como assim nunca escreveu romance? Você não escreve há anos? – A mais velha perguntou descrente. 

– E escrevo. Histórias de terror, crônicas sobre a realidade social, sobre política. Agora, romance? Primeiro que eu sequer tenho experiência com isso, segundo que me falta paciência. Eu até leio, mas escrever sobre não é comigo. – Disse a colunista.

– Sequer tem experiência? Você nunca namorou? – Geovana parecia pasma.

– Namorar de verdade, não. Só tive envolvimentos casuais. Sempre me dediquei à minha vida profissional. Essa parte amorosa ficou meio de lado… – A outra dizia enquanto desbloqueava o celular.

– Garota, eu tenho 43 anos de idade e estou completamente chocada com você. É melhor dar um jeito nisso logo. E com “nisso” eu quero dizer “não perca mais o tempo só com trabalho”. – A chefe de marketing deu uma bronca em Jéssica.

– Olha, eu agradeço muito a dica. Mas fica para outra hora, preciso buscar uma encomenda aqui perto. – Disse saindo da mesa apressadamente.

Correndo em direção a uma livraria que ficava na rua da editora em que trabalhava, Jéssica alternava seus pensamentos entre o conselho de Geovana e o problema de ter que escrever um romance em sete dias, ou seis já que aquele parecia perdido. Olhando para o celular que sinaliza a chegada de uma mensagem, Jéssica sorri e segue rumo a entrada da livraria Deimos. A encomenda que tanto esperava parecia ter chegado e Jéssica estava ansiosa por aquilo. Distraída ao passar pela porta apertada, Jéssica esbarra em um homem e acaba por derrubar sua bolsa no chão, fazendo com que seu caderno de notas e algumas canetas ficassem espalhadas.

– Me desculpe, senhora. Não a vi. – Disse o homem que parecia ter um pouco mais do que a idade da mulher.

– Não se preocupe, eu entrei como um furacão e esbarrei no senhor. – Disse olhando no rosto do homem percebendo que ele sorria.

– Senhor? – O homem sorriu mais – Acho que não é para tanto. – Ele disse balançando a cabeça.

– O senhor me chamou de senhora primeiro. – Jéssica brincou.

– Tudo bem. Justo. Mas eu não tinha te olhado ainda, senhorita… – O rapaz parecia querer saber o nome dela.

– Jéssica. E você é? – A moça perguntou.

– Álvaro. – Ele respondeu encarando-a.

– Então, Álvaro. Eu meio que preciso passar, se você puder abrir espaço… – Ela buscou sair da mira de Álvaro.

– Ah! Me desculpa, eu me distraí. – Ele ficou sem jeito.

– Tudo bem, eu preciso ir. – Ao se afastar dele, Jéssica percebeu que havia algo errado. Seu caderno de anotações estava nas mãos do rapaz.

– Parece que a senhorita não precisa disso. – O moço balançou o caderno em suas mãos.

– Eu meio que estou com pressa. Se você puder me devolver, eu agradeço. – Disse impaciente.

– Claro que posso devolver, é só me dar seu número que marcamos uma data e local para a devolução. – Álvaro não disfarçou seu interesse.

– Olha, eu não tenho tempo para isso. – Ela tentou pegar o caderno em vão, já que Álvaro o colocou dentro de sua camisa.

– Já disse. É só me dar seu número. – O rapaz parecia se divertir com aquilo.

– Ok. Então anota. Não quero chamar mais atenção aqui. – A jovem percebeu que outras pessoas repararam na cena.

Convencido, Álvaro sai da livraria com um sorriso no rosto. O rapaz de 26 anos era editor rival da Editora Lobos, e logo que viu Jéssica sentiu-se atraído, mesmo sem fazer ideia de quem ela era ou do que fazia. Enquanto isso, Jéssica recebia no caixa da livraria sua encomenda, uma cópia de seu livro preferido que no último mês ganhou uma nova edição. Feliz por ter em mãos seu mais novo bem precioso, ela sai da livraria e segue em direção ao ponto de ônibus, precisava chegar em casa e trabalhar no “bendito romance”.

Já em casa, é recebida por sua gatinha Lilo que coloca nos braços e leva até o quarto. Jéssica morava sozinha há cerca de um ano, tinha encontrado Lilo ainda pequenininha abandonada pelo bairro, então resolveu adotar. No quarto, solta a gatinha e deita na cama, respira fundo e demora um pouco para tomar banho. Jéssica estava exausta, e logo lembra-se de que precisa ser rápida e ir iniciar a história. Durante o banho, Jéssica começa a criar cenas, mas todas parecem bobas demais. Nisso, recorda que sua melhor amiga pode ajudá-la já que diferentemente de Jéssica é completamente apaixonada por encontros e relacionamentos sérios, inclusive namora o mesmo cara desde o início da faculdade.

Após banhar e colocar comida no estômago, Jéssica abre o computador e liga por Skype para Nanda, sua melhor amiga, sendo recebida com gritinhos de “eu sabia que você ia ligar”.

– Nanda, o que é isso no seu rosto? – Jéssica repara em algo gosmento no rosto de Nanda.

– São máscaras faciais, minha pele está horrível, você também deveria usar. – Nanda repara no rosto cansado da amiga.

– Essa máscara resolve o fato de meu chefe ser um babaca que quer me obrigar a escrever um romance? – A colunista desabafa.

– O que aconteceu? Por que você tem que escrever um romance? Você não gosta disso. – A garota parecia curiosa.

– Pois é. Eu tenho sete dias para escrever um romance, algo que valha a pena ser lido. Você entende disso melhor que eu, pode me ajudar? – A dona da gata implorava.

– Você pode escrever minha história e do Rafa. Ou pode escrever sobre o Marcos. – A amiga com a gosma na cara lembrou do primeiro amor de Jéssica.

– Amiga, eu tinha 10 anos e o garoto fazia bullying comigo. Sobre você e o Marcos… Nada contra, mas eu não acho que as pessoas vão querer saber sobre duas pessoas que se apaixonaram à primeira vista e… – a moça é interrompida pelo toque de seu celular. – Só um minuto.

Ligação on:

Jéssica: Alô?

Pessoa: Achei que não fosse atender.

Jéssica: Desculpa, mas quem tá falando?

Pessoa: Você lembra de um cara super charmoso que ficou com sua agenda?

Jéssica: Ah é você. O que quer?

Álvaro: Nossa, pelo visto você não quer mesmo sua agenda.

Jéssica: Não é isso, é que… Quando você vai me devolver?

Álvaro: Podemos nos encontrar amanhã? No horário do almoço?

Jéssica: Tudo bem. A gente acerta o local depois? Eu estou meio ocupada agora.

Álvaro: Claro… Desculpa se atrapalhei, eu te mando mensagem… Posso?

Jéssica: (risos) Pode sim. Boa noite.

Álvaro: Ela sabe ser educada… Boa noite, senhorita Jéssica.

Ligação off

– Quem era?! – A moça do outro lado do computador perguntou intrigada.

– Ah é só um cara que eu esbarrei na livraria. – Tentou evitar o interesse da outra na história.

– E você deu seu número para “só um cara que esbarrou na livraria?” – A mulher sentiu que a amiga escondia algo.

– É um cara maluco que pegou minha agenda e disse que só me devolveria se eu desse meu número. Antes que você imagine algo, ele não faz meu tipo. – Ela foi clara.

– E por acaso você tem tipo? Amiga, está na hora de sair dessa hein. Por que não dar uma chance para esse cara? Ele parece interessado, ninguém faria isso se não tivesse interesse. – Nanda incentivou a melhor amiga.

– Nanda eu não tenho tempo para isso. Eu preciso de uma história… Espera aí. Tive uma ideia! E se eu tentasse algo com ele e escrevesse sobre? – A editora contribuinte parecia ter encontrado uma solução.

– Espera, você quer sair com o cara só para ter uma história para contar? Você ficou doida? – A moça não queria acreditar.

– Às vezes nós escritores precisamos tomar decisões extremas… Preciso desligar. Falo com você depois. – Jéssica desligou a chamada e começou a pensar em como poderia viver um romance em 6 dias.

Um comentário sobre “Livros, cupcakes e sorvete de tangerina – Parte I

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s