Travessia da morte – Parte III

Leia o capítulo anterior “Travessia da morte – Parte II“.

A entrada do túnel era muito longa e escura. Malú e Fiu foram acompanhando Evernelindro desconfiados, em passos lentos. Malú  mantinha as mãos elevadas no ar tentando sentir alguma coisa, e enquanto andava sentia teias de aranhas sobre suas mãos. 

Fiu andando esbarrou em um morcego e gritou:

– Aaah!

– Calma crianças. Vocês estão seguros aqui. – Falou Evernelindro dando uma gargalhada assustadora.

No final do túnel havia um pequeno portão. Evernelindro ordenou que as crianças fechassem seus olhos e então ele disse algumas palavras estranhas, pareciam mágicas e ordenou que os meninos entrassem.

Malú e Fiu ficaram encantados com o que seus olhos avistaram. Um lugar cheio de móveis antigos e elegantes.

– Crianças sejam bem vindos à cidade de Freedom! Aproveitem venham! – Dizia Evernelindro.

Fiu se distraía com os quadros que havia em uma sala, enquanto Malú ouvia um som de piano que vinha de outro cômodo. Malú então avistou uma moça tocando.

A moça tinha os olhos castanhos e cabelos pretos como o de Malú.

– Venha! aproxime-se, meu nome é Bárbara e o seu? – Disse a moça.

– Eu sou a Malú! – Respondeu a menina.

Bárbara encheu os olhos de lágrimas, sentiu um aperto no peito e disse: 

– Não pode ser!

– O que você disse? Você está bem? – Preocupou-se Malú.

– Sim! Não se preocupe, está tudo bem. – Falou sorrindo, voltando novamente a tocar.

Enquanto Malú ouvia bárbara tocar piano, Fiu caminhava pela casa, olhando tudo.

– Crianças  venham cá hoje teremos um banquete, mas primeiro quero que se vistam a caráter para esse banquete! – Falou Evernelindro.

Todos se dirigiram até a sala.

– Pode deixar eu acompanho eles. – Disse Bárbara.

Logo,  a mulher levou os meninos até uma sala enorme onde tinha uma quantidade infinita de roupas. Malú e Fiu ficaram encantados com as roupas e a quantidade, pois por passarem boa parte da vida morando na rua, viviam com suas roupas rasgadas e sujas que ganhavam de doação dos moradores.

– Crianças peguem o que quiserem. – Incentivou Bárbara.

Malú pegou então um vestido azul com botões e uma sapatilha preta.

Fiu um terno preto, um sapato e um chapéu.

– Olha Malú como estou! Sou o mágico Fiu ou melhor, bruxo. – Comentava o caçula.

Os dois riram e estavam radiantes.

Ao chegar na sala de jantar estava Evernelindro e uma criança de costas que imediatamente se virou para eles.

– Otávio?! – Gritou Malú surpresa. 

– Gente isso daqui tá tão bom! – Disse Otávio segurando uma coxa de frango. 

 Evernelindro notando o choque nos olhos de Malú e Fiu então falou:

– A cidade de Freedom é uma cidade onde vocês podem ser livres e felizes. Aqui vocês terão de tudo. Amanhã se vocês quiserem podem brincar no jardim.

 Fiu como sempre curioso perguntou:

– Ué, mas aqui não é só uma mansão?

– Existem muitos segredos escondidos por aqui. No final do jardim existe um portão que os leva para fora e vocês podem brincar com outras crianças.

– São crianças de rua? – Questionou Malú.

– Sim Malú. São crianças que um dia foram abandonadas e viviam pelas ruas e que morreram. – Esclareceu Bárbara.

– Nós estamos mortos?! –  Gritou Fiu.

– Não! Na noite de halloween, exatamente a meia noite, um portal se abre naquela avenida em que vocês estavam, as crianças também conseguem ver e passar por ele. – Bárbara explicou.

Evernelindro então sente suas pernas fracas e senta na poltrona.

– Crianças acho que estou muito cansado. É hora de tirar uma soneca, foi muita aventura por hoje. – Dizia o velho.

– Vou acompanhar vocês até o quarto. Se quiserem posso contar histórias pra vocês dormirem. – Falou Bárbara.

– Eu quero! Adoro ouvir histórias. Ouvia muitas histórias do seu Zé que sentava na calçada pra contar histórias pra gente, quando estava bêbado ou brigava com dona Lourdes. – Acrescentou Fiu.

Evernelindro ao escutar aquilo pensou:

“Acho que já ouvi esses nomes antes.” 

– Como Otávio veio parar aqui? – Indagou Malú ainda um pouco perdida.

– Você esqueceu garotinha? Sou um bruxo. A mosca havia engolido Otávio, mas na hora que eu recitei a palavra mágica o irmão de vocês veio parar aqui. Como a mosca estava encantada ele não morreu. – Evernelindro falou.

– Agora vamos crianças, vamos dormir. – Disse Bárbara.

Então as crianças foram dormir.

O dia amanheceu…

– Bom dia crianças! Vamos tomar café. – Falou Evernelindro alegremente.

Otávio encheu o prato com um pouco de cada coisa que tinha na mesa.

– Crianças, o que querem fazer hoje? – Perguntou o bruxo.

– Eu quero aprender a ser um bruxo. – Respondeu Fiu.

– Eu quero aprender a tocar piano igual a Bárbara. – Falou Malú. 

– Eu quero comer mais. – Falou Otávio e todos riram.

Fiu, foi para o jardim aprender mágica com Evernelindro. 

Malú, foi para sala do piano aprender a tocar.

Otávio, ficou no sofá descansando depois de ter comido bastante.

Bárbara de repente começa a passar mal e a tremer um pouco a mão.

– Você está bem? – Malú perguntou. 

– Sim estou! Não se preocupe querida! – Bárbara tentou tranquilizar a menina.

– Não entendo! porque isso só acontece quando estou com você. – Bárbara sussurrou mais para ela mesma do que para alguém ouvir.

– Do que está falando? – Perguntou Malú.

– Nada vamos tocar! – Disse Bárbara.

Anoiteceu…

Todos foram jantar.

Fiu e Otávio comiam, mas Malú não havia tocado na comida.

– Querida, não vai comer? – Perguntou Bárbara.

Malu fica irritada.

– Quem são vocês? Por que estamos aqui? E essas crianças? – Malú desabafou em um tom de voz alto.

– Tudo bem. Vou contar a história pra vocês. Evernelindro disse ao perceber a inquietação de Malú.

– Olhem crianças não confiem em ninguém…Tudo aconteceu em uma noite de 31 de outubro, exatamente no Halloween. Eu e Bárbara estávamos vivos, éramos vivos felizes, recém casados. Mas, na noite de Halloween aconteceu uma coisa horrível. Fomos convidados para um jantar na casa de Heitor. – Evernelindro começou a contar.

– Quem era Heitor ? – Perguntou Malú.

– Era quem eu considerava meu amigo, ele havia nos convidado para um jantar na sua casa, nós fomos. Heitor então nos serviu com uma taça de vinho, mas estava envenenada. E então morremos. 

– Por que ele fez isso? – Fiu perguntou assustado.

– Inveja! Ele sempre foi afim de Bárbara e queria ser como eu, achávamos que ele tinha superado. Bárbara e eu sempre nos amamos, Heitor era afim dela desde criança. – Evernelindro respondeu rapidamente.

 – Mas como vocês viraram bruxos? – Perguntou Otávio.

– Nem eu e Bárbara aceitamos a morte, éramos felizes, tínhamos filhos. Então eu supliquei ao anjo da morte que não nos levasse, para que pudéssemos cuidar dos nossos filhos. Então o anjo da morte lançou um feitiço. Ficaríamos presos na cidade de Freedom e todas as Crianças que morressem, ou na noite de Halloween passasse pelos portais a meia noite. Poderíamos estar com elas e cuidar delas como nossos filhos. – Falou Evernelindro.

 – Mas e seus filhos?  – Fiu perguntou.

– Na noite em que saímos deixamos com uma vizinha os nossos três filhos. – Evernelindro disse cabisbaixo.

– Fiu, deixe eles continuarem a história, para de ser mal educado. – Malú deu uma bronca no irmão.

– Mas o anjo da morte nos impôs uma condição. Se um dia nossos filhos morressem, ou atravessarem os portais a meia noite. Então nossas almas iriam finalmente descansar no além e nossos filhos assumiriam nosso lugar, mas nós nunca os  encontramos. – Bárbara continuou a história. 

– O anjo da morte disse que, esse era o destino deles, cuidar das crianças de rua que morressem ou atravessarem o portal na noite de Halloween.

– Não entendo. Por que crianças de rua? Dona Lourdes jamais deixaria nossos filhos na rua. – Refletiu Evernelindro.

– Dona Lourdes! – Falou Malu com o olhar arregalado.

– Então quando morrermos eles vão cuidar da gente? – Otávio falou. 

– Como? Não entendi. – Perguntou Evernelindro.

– Somos crianças de rua, nossos pais morreram na noite de Halloween e ficamos com dona Lourdes naquela noite, mas dona Lourdes não tinha condições de nos criar, ficou pobre, doente e seu marido alcoólatra. Essa é nossa história, algumas pessoas do bairro achavam que tínhamos sido abandonados por nosso pai depois que nossa mãe faleceu. – Esclareceu Otávio.

Bárbara começou a passar mal, sentou e disse:

– São vocês!

– Não pode ser! – Falou Evernelindro.

– Lembra o que o anjo falou? O anjo falou que nossos corações saberiam… – Bárbara dizia olhando para Evernelindro.

– O anjo falou que meu filho mais novo tem uma marca na perna e ele seria um grande bruxo por sua esperteza. – Evernelindro parecia querer verificar aquilo.

Fiu então levantou um pouco a perna de sua calça e então todos viram a marca.

Os três então se abraçaram e aproveitaram cada momento juntos. Fiu aprendeu a fazer mágica e diversos feitiços. Malú começou a tocar piano brilhantemente. Otávio cuidava do jardim e era muito atencioso com as crianças mais novas que moravam na cidade. Mas os dias foram se passando, Evernelindro e Bárbara estavam a cada dia mais fracos.

Numa manhã, Bárbara e Evernelindro estavam tão fracos que mal conseguiam se levantar.

– Crianças venham cá! – Chamou Evernelindro.

– Não conseguimos mais, estamos fracos demais. Lembram quando falamos que se encontrássemos nossos filhos, partiríamos para o além? – Everlindro perguntou e as crianças  balançaram a cabeça dizendo sim.

– Encontramos vocês e agora temos que ir, nossa missão foi cumprida, cuidamos de vocês, protegemos vocês, vocês sempre estiveram em nossos corações. Era a minha magia que protegia e cuidava de vocês até que vocês viessem a nós. – Declarou Evernelindro.

– Amo vocês, crianças. Fiquem e cuidem de Freedom! Cuidem uns dos outros. – Pediu Bárbara.

Naquela manhã eles partiram.

Então Fiu colocou o chapéu de palha de seu pai e disse:

– A cidade de Freedom estará sob o nosso comando! 

E ele abraçou seus irmãos aos prantos.

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