NITIA – ABÁ: PARTE I

Aquele dia era pra ser especial, já que nos dias seguintes Nitia-Abá passaria a fase adulta e a cerimônia dependia da sua tentativa de pegar uma caça específica. Era fim de tarde e do alto do ibiã de areia ligeiramente avermelhada a menina olhava fixamente para o horizonte. A barra do rio Mundaú chamada de “grande lagoa” era realmente de tirar o fôlego.  Esse rio nasce no alto da serra de Uruburetama, a “pátria dos urubus” e vem cortando as terras desta região até desaguar no mar exatamente nesse ponto. O rio se encontra com o mar e esse encontro, como todos os outros encontros, gerava novas possibilidades. Com tons de verde e azul as águas doces e salgadas se misturavam e assim, por toda sua extensão, o manguezal brotava insistentemente. Embora presenciasse todos os dias aquela vista deslumbrante, não se cansava de admirá-la. Apesar disso, não podia esquecer-se do que tinha ido fazer ali. E quando ouve o assobio fino de um anajé rasgando os céus, seria um mau presságio?

Olhou com olhos miúdos para a vastidão do céu, e com a ajuda de uma das mãos sobre a fronte para fazer sombra, verificou que o arami estava se retirando para seu descanso. Os rituais de iniciação da vida adulta eram bem rígidos na tribo dos Pitiguaras, também conhecidos como “comedores de camarão”. Para que o kurumí se tornasse adulto ele tinha que provar sua coragem e destreza na arte de pegar um dos maiores peixes daquele mar, o Camurupim. Este ia alimentar toda a tribo durante pelo menos o tempo que durasse o ritual. Para os mais idosos da tribo, aquele peixe era sagrado e tinha o significado de abundância e prosperidade. Talvez porque esse peixe adulto medisse, geralmente, pouco mais de dois metros de comprimento e tivesse o peso de uma capivara gorda, não sendo fácil a sua captura. Isso ela teria que fazer sozinha.

Em posse de uma pequena faca, a indiazinha afiava a ponta de uma lança feita de marmeleiro, seu pensamento, no entanto, não estava ali naquele momento no ofício. Nesse momento sua mente vagava e lembrara vagamente de sua mãe de criação, enquanto passeava pela sua trágica história. Sua mãe se chamava Irani que quer dizer “rio de mel”. Esta havia morrido logo após o seu nascimento, não sobreviveu ao parto. Ela sim. A partir daí, todos passaram a acreditar que seu nascimento havia trazido maus presságios à aldeia. Morte e desgraça. Coincidentemente a partir de seu nascimento, uma série de acontecimentos trágicos parecia confirmar uma antiga previsão do pajé da aldeia: com a vinda de uma criança com espírito de onça, uma desventura se abateria sobre aquela aldeia e a dizimaria. A palavra do pajé nunca é questionada. Os pajés são sábios de destaque nas tribos por terem conhecimentos espirituais e medicinais e eram os responsáveis por nomear a criança recém-nascida. Assim foi dado a ela o nome de Nitia-Abá que do tupi guarani quer dizer “ninguém”. Era exatamente assim que ela se sentia: um nada.

Logo após seu infortúnio nascimento, o pai de Nitia-Abá, Jurandir que na época era o cacique da tribo “aquele que só diz palavras doces” foi morto numa guerra com a tribo dos Anacés, que reivindicavam as terras onde estava assentada a tribo dos Pitiguaras. Ele era um grande kaluanã e os festejos de sua morte duraram vários dias. Os Anacés estavam logo depois do rio Trairi ou “rio de traíras” nas terras onde hoje são os municípios de São Gonçalo do Amarante, Paracuru e Paraipaba no litoral oeste do Ceará. Do outro lado do rio Mundaú já eram yby dos Tremembés, cujo acordo com os Pitiguaras era que estes não ultrapassassem o rio na tentativa de evitar confronto com esse povo que tinha uma grande tradição de guerra.

Esses pensamentos passavam por sua cabeça enquanto preparava o pequeno paquete, uma espécie de jangada de piúba que servia para pescar em águas mais profundas. Este havia sido construído por ela com a ajuda da velha Juraci, a “boca materna”. Esta embarcação teria que ser feita de ubiraci e seria essencial para cumprir sua missão com êxito. Se ela falhasse nessa tarefa e o barco afundasse, junto a ele afundaria a possibilidade de ser reconhecida como uma igual. Ora, já haviam se passado sete luas que Nitia-Abá havia se embrenhado na mata para encontrar seu animal interior, seu encantado. Ela deveria ficar isolada e em silêncio na mata para que o seu espírito ancestral surgisse de um sinal enviado pelos ancestrais que haviam falecidos. Para tanto, ela teria que entender seu propósito, com a ajuda de uma bebida feita do cipó de mariri, e cujo objetivo era elevar seu espírito aos deuses e lhe revelar sua missão. Conhecida como a “bebida das visões”, o sinal do encantado deveria guiá-la. Ela deveria desvendar esse sinal e completar sua sina para só assim ser considerada uma adulta e ganhar o respeito da aldeia. Era o que ela desejava desde sempre.

Mas foi na terceira yamí de seu isolamento, após fazer uma fogueira para assar uns aratus, caçados ali mesmo no mangue de Mundaú e ter tomado o chá para obter passagem para o mundo espiritual que Nitia-Abá foi visitada por uma jaguatirica pintada. Não podia ser verdade. Ela veio quando a aracê já se aproximava. Nitia-Abá havia feito uma fogueira pra se proteger dos animais noturnos da mata, além disso, o calor da fogueira espantava os biriguis que teimavam em picar seu corpo magrelo e amarelado. Enrolada com palhas de bananeiras que servia de cobertor, ela ouviu claramente o animal que se aproximava furtivamente. Em torno do acampamento ela havia espalhado galhos secos que quebravam facilmente ao toque mais macio, denunciando a chegada de alguém num raio de dez metros de distância da sua localização. O animal havia se aproximado o suficiente para que ela sentisse sua presença, o que lhe causou um calafrio na espinha. Um suor repentino cobriu seu corpo quente, enquanto uma sensação de frio subia em ondas vindas de seus pés. Essas sensações para a menina eram coisas que nunca havia sentido antes.

Continua…

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