Travessia da morte – Parte II

Leia o capítulo anterior “Travessia da morte – Parte I“.

Foi um horror!

A névoa havia coberto-lhes todo o corpo: tinha cheiro, tinha gosto, tinha um som como um sussurro que percorria e arrepiava cada pelo de seus corpos. Era palpável, como a escuridão carregada pela morte que dominou a casa do grande Faraó.

Após alguns segundos sem enxergarem as próprias palmas que estavam à frente de seus olhos, Fiu chamou Malú, Malú chamou Otávio e tentaram encontrar-se, esticando as mãos abertas, tateando o vazio. No mesmo instante, a névoa se dissipou um pouco com uma ventania que quase fazia os irmãos voarem, de tão magrinhos que eram. A ventania era proveniente do bater de asas de uma monstruosidade que aos poucos, enquanto aterrissava, identificaram como uma mosca gigante.

Por causa do rebuliço causado pelo bater de asas, Malú percebeu que já não estavam na rua de antes: os prédios, o semáforo, as janelas das casas… Tudo tinha sumido. O que ainda dava para ver era um céu avermelhado das brechas na névoa, a mosca gigante e seus irmãos. Isto causou-lhe um grande espanto, mas não maior que o susto de quando a mosca avançou numa velocidade absurda e parou em frente a ela, espelhando seu rosto em uma ruma de losangos vermelhos cor de sangue e soltando um barulho que parecia um sapato esmagando baratas aos montes.

Parou em frente a ela…

Fiu gritou. Gritou feito um condenado.

Malú percebeu que o barulho que a mosca fazia era o corpo de Octávio sendo esmagado na boca da mosca. Esmagado, triturado… Não que houvesse muita coisa para mastigar daqueles ossinhos tão frágeis. Mas parecia gostoso: a mosca comia que babava um líquido ácido, que ao encostar no chão gerava um som de ebulição.

Ela sabia, sabia que devia se levantar dali, puxar seu irmão e correr o mais rápido que pudesse. Sabia, mas não adiantava. Estava como que petrificada, como que os pés grudados no chão por cola maluca. A monstruosidade ainda gastou mais ou menos um minuto para engolir Octávio todinho e já se aprumava para abocanhar a próxima vítima.

Pulou, as patinhas eram tão fininhas, pareciam mais um pedaço de cana… A cana tão docinha… E por mais absurdo que fosse, ainda nessa hora o horror se misturava com a fome e se não ia comer, que acabasse aquele sofrimento e ela mesma virasse uma boa refeição. Vendo o bocarrão do monstro, Malú riu, pensando que tinha partes dela que eram salgadas, outras doces; e ficou feliz, se achando a bichona, se considerando um verdadeiro banquete de dar água na boca.

Porém, antes que a mosca a comesse, um homem do tamanho daqueles postes antigos, vestido da cabeça aos pés com roupa pesada como botas, casaco, além de um chapéu de palha redondo, repeliu a mosca com um golpe de pão d’água nas fuças enquanto proferia palavras de uma língua estranha.

Malú finalmente se levantou, puxou o irmão e pôs-se a correr… Correu, correu, andou sofregamente e finalmente parou, morta de cansada, com o peito arfando. O medo de ser devorada era grande, mas não tinha mais força nas perninhas que eram só osso e pele. Olhou ao redor, mas nem sinal da mosca gigante. A névoa continuava, porém estava muito menos densa comparado a antes.

De supetão, o homem que havia batido na mosca apareceu na frente dos irmãos e estes soltaram um gritinho. Ele tentou acalmá-los, com pouco sucesso no começo, mas com um certo êxito após se apresentar a si mesmo. Seu nome era Evernelindro, um bruxo dos mais antigos, porém não dos mais sábios nem habilidosos. Ele estava vestido todo de branco, com bota, calça, cinto, camisa e casaco, além de um chapéu de palha sobre a cabeça; ele brincou dizendo que usava o chapéu para esconder os chifres, pois havia sido traído muitas vezes. Malú e Fiu se desarmaram e riram. Ele continuou explicando que ele e seus amigos bruxos se formaram em uma escola de magia na Lua, mas foram expulsos por serem muito desleixados e travessos. Agora, ele vagava pelo mundo, vendendo seus serviços e ajudando quem pudesse, sempre lembrando da promessa que fizera com seus amigos de que um dia construiriam uma escola na qual houvesse mais liberdade e menos disciplina. Os irmãos acharam a ideia interessante, e se animaram ainda mais quando o bruxo disse que pretendia ser diretor.

Evernelindro parecia puro. Puro e lindo.

Ele disse que podia ajudá-los e os irmãos de pronto decidiram segui-lo. Ele falou que a casa onde eles moravam era velha demais e era cafona, e propôs que eles conhecessem seus amigos bruxos e caso gostassem deles, Evernelindro poderia ensinar-lhes magia. Com magia, quase tudo era possível, até mesmo ver pessoas que já se foram…

Com todos de acordo, o bruxo puxou seu pão d’água, recitou algumas frases das quais não entenderam nada e um buraco se abriu no chão, do tamanho de um túnel no qual cinco pessoas passariam lado a lado de mãos dadas.

O corpo de Evernelindro começou a brilhar, um brilho aconchegante aos olhos.

Ele disse: – “não se preocupem, eu serei a luz de vocês.”

De mãos dadas, Malú e Fiu adentraram o túnel, seguindo os passos de Evernelindro.

Um comentário sobre “Travessia da morte – Parte II

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s