Travessia da morte – Parte I

Em mais um desses dias que não há para onde correr, senão para o asfalto, Otávio, Malú e Fiu contavam  as balinhas que iriam vender. Empolgados com as novidades na mercadoria, os bombons de “baba de bruxa”, cantarolavam a caminho do sinal. Era véspera de Halloween e como todos pareciam importar-se com a data, os três resolveram inovar nas vendas. Naquele dia, 30 de outubro, iriam dar tudo de si e voltar para casa com os bolsos cheios, ou pelo menos com dinheiro suficiente para o jantar e almoço do dia seguinte.

Ao chegarem no ponto que os aguardava todos os dias de Sol a Sol, as crianças dividiram as guloseimas entre si e cada um seguiu em direções diferentes. O cruzamento da avenida principal, a travessia da morte como eles chamavam pela quantidade de acidentes que ali ocorria, ficava por conta de Otávio, Malú oferecia doces na frente do shopping a duas quadras de distância do cruzamento, enquanto Fiu fazia negócios pela estação de metrô.

Todo o bairro conhecia a história do trio: três irmãos que passaram a morar nas ruínas da velha igreja após perderem a mãe e serem abandonados pelo pai, que ainda vive sabe-se lá por onde. Apesar da pouca idade e da luta diária para conseguir manter-se vivos, os três depositavam simpatia por cada lugar que passavam. Vez ou outra, assustavam quem não estava acostumado com sua presença, a imagem das três crianças revelava a dor de quem precisava de amparo. Seus corpos magros, olhos fundos envoltos por uma roxidão e sorrisos amarelados, faziam deles figuras bastante semelhantes um ao outro, era a doçura de Fiu, a esperteza de Otávio e a determinação de Malú que os diferenciava.

Nessa época do ano, sentiam-se em posições de vantagem quanto às outras pessoas. Otávio com seu habitual humor ácido dizia aos irmãos que enquanto “a gente fina” se preocupava com fantasia assustadora, eles não precisariam esforçar-se tanto para parecem mortos vivos no dia das bruxas, “Somos mortos vivos todos os dias” ele comentava. Fiu o mais novo dos três, olhava torto para Otávio a cada comentário que ele soltava no caminho de volta para casa. O dia havia sido lucrativo, fazendo com que eles pudessem se despreocupar um pouco sobre a segunda e última refeição do dia.

Otávio, por ser o mais velho dos irmãos não conseguia manter a postura relaxada, ficou pensando no dia seguinte e em como iria repor as balas vendidas por eles, já que Malú o convenceu a gastar todo o dinheiro das vendas com uma refeição completa. Impaciente com a ansiedade de Otávio, a garota para tranquilizar o irmão disse que pensaria numa ideia de conseguir mais doces durante o jantar, e depois compartilharia seu plano. Fiu apenas observava a cena, “queria poder compensar todo esforço que vocês fazem por nós”, ele pensou. Confiando em Malú, Otávio fica calado. Os três entram na velha igreja que chamam de lar e organizam-se para comer.

Frustrada por não conseguir formular uma solução para o problema dos doces, Malú diz aos irmãos que poderiam ficar por pelo menos um dia sem precisar vender balas até encontrarem um meio de repor a mercadoria. Otávio, levado pelo estresse, joga os recipientes da refeição que acabara. Fiu, assustado com a atitude do irmão, abraça Malú e logo resolve contar aos irmãos sobre algo que andou pensando. As duas crianças mais velhas interessadas na ideia de Fiu, permanecem quietas e atentas à fala do caçula que normalmente não costuma se abrir tanto. Fiu logo comenta sobre eles passarem pelas casas do bairro fantasiados e pedir doces ou travessuras, assim não teriam que gastar dinheiro com novas balas para vender. Rindo do pensamento absurdo de Fiu, Otávio questiona como o menino pensou naquilo, fazendo o irmão responder que ouviu uma conversa de dois adolescentes na estação.

Malú que não se posicionara quanto a ideia até aquele momento, deu apoio a Fiu, mas disse que aquilo talvez não funcionasse, pois eles não tinham como arranjar fantasias. Otávio ainda falou que pelo sabia sobre Halloween o ideal seria eles fazerem aquilo na noite do dia 31, e eles precisavam dos doces para vender durante o dia seguinte. Fiu, insistiu em seu plano repetindo os comentários que Otávio fizera mais cedo “Somos mortos vivos todos os dias” e podemos pedir doces ou travessuras na meia noite de hoje, pois já será Halloween.

Assim, seguindo o plano do irmão mais novo, as três crianças saíram durante a meia noite prontas para conseguir os doces. Fiu, um pouco orgulhoso pela solução que encontrou sorria enquanto eles caminhavam pela travessia da morte; Malú feliz por Fiu demonstrar certa satisfação com aquilo ria alto e pedia para que Otávio colocasse um pouco de fé no caçula. Imersos no desenvolvimento daquele plano “mirabolante”, os três foram pegos de surpresa quando o sinal da avenida começou a piscar. Não havia nada e nem ninguém na rua naquele horário, tudo começou a ficar estranho, até que uma névoa cinzenta começou a subir e rodear os três irmãos que depois daquele instante não foram mais vistos.

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