Me declarei

– Tá me zoando né? – questionou Saulo, quebrando aquele gelo que mais parecia um iceberg.

– Não. Tô falando sério. Sou apaixonado por ti. – reafirmou Jefferson com a voz trêmula.

Depois disso, apenas o som da TV ecoava ao fundo enquanto ambos continuavam mudos, trocando olhares confusos. Os dois amigos se viam naquela cena desconfortável, ao passo que um se declarava e o outro se assustava com a declaração.

Saulo sorriu, sem dizer nada. Nem que sentia o mesmo por Jefferson, nem que “sentia muito” por não poder retribuir. Foda isso!

Continuaram ali, deitados na cama. Saulo mexia no celular tentando sair daquele clima embaraçoso, mas depois de um tempo, conseguiu falar algo, contar histórias engraçadas, mudar de assunto e, no meio de uma piada, disse:

– Tô sem saber o que dizer. Preciso de um tempo pra pensar, sei lá. A gente é amigo, cara! – finalizou rindo desconcertado, bobo.

– É, eu sei. Te peguei de surpresa, mas achei que você suspeitasse. Ninguém é tão cego assim que não perceba quando alguém tá a fim da gente. – disse Jefferson.

Até então era uma amizade bonita, de verdade, entre os dois jovens. E apesar de Jefferson sempre demonstrar que queria algo mais, as palavras, de certa forma, lhe davam medo, enquanto o silêncio lhe dava conforto em não ter certeza sobre o que aconteceria caso se declarasse. Mas ele precisava arriscar, pular naquele penhasco pra saber o que havia lá em baixo. O “não” já era certo. Restava só correr atrás do “sim”. Foi o que fez. Foi uma maneira de se livrar da angústia, por que a partir dali, o amigo apaixonado estaria livre pra falar sobre si, sobre o outro, sobre seus sentimentos, sem o receio idiota de achar que estaria passando do limite. Agora poderia falar abertamente sobre tudo, fazer um carinho sem ter que se policiar, sentir ciúmes e demonstrar. Mas e depois? Como ficaria a amizade, a cumplicidade? E a paixão, seria recíproca?

Saulo abraçou Jefferson sem dizer absolutamente nada e saiu do quarto. Foi embora.

De repente, pondo na mão na boca e arregalando os olhos, o pobre declarante caiu em si e soltou:

– Puta que pariu, ME DECLAREI!

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