Vida, felicidade e outras coisas infindáveis que sombreiam-se sob a brevidade das palavras

A pequena Flor estava cansada de tanto tédio, bufava, seus sopros suspirantes eram tão altos que dava pra escutar do outro lado da rua. E ah! A rua que ela não via fazia tempos! Depois que mudou para a casa atual a única forma de ver a rua (o que matava um pouco de seu tédio) era abrindo a porta. Bom, abrir a porta é proibido, há perigos sinistros lá fora, que aguardam a menor brecha para nos agarrar! Sempre aguardam…
O tédio era tão tedioso que começava a conversar consigo mesma, sentada no canto da parede, ocultada pelo sofá. Cochichava baixinho, e movimentava as mãos em grandes descidas e subidas imitando os movimentos imaginados em sua cachola.
O tédio era imastigável, sentia que a transição das horas demorava tanto quanto a transição das estações. Queria uma primavera, cheia de flores se abrindo, mas teve foi um verão (pelo menos pelo calor que fez pareceu um verão daqueles!) com o Coisa Ruim surgindo.

Buuuuu! – vociferou o Coisa Ruim, tentando assustar Flor. Ele meio que brotou no meio da sala, mas foi de cabeça para baixo; com as pernas para o ar, os chifres para o chão, e se equilibrando em um dedo longo como uma flauta e fino como um lápis; uhm, e ele era vermelhinho, viu?

Buuuu, pra você também! – apesar da idade (sete anos), Flor não era medrosa como a maioria das crianças. A culpa talvez seja do tédio, que lhe deixou entediada até com o inesperado.

Cadê o susto? – questionou o Coisa Ruim aborrecido – Sabe quanto tempo demorou para cavar, e o pior, cavar para cima?! Sabe quanta areia e barro sujo tive que engolir?! Cadê meu susto?!

-Não é por nada não, então vá me desculpando. Se quer um susto lhe dou um espelho de presente.


Ele soltou uma gargalhada que pareceu um ronco de motor enferrujado: – Pequena Flor, sabe que dia é hoje?


Claro que sei – respondeu, altiva.

-Então, me diga o que deseja, pode ser qualquer coisa. Vim de muito longe para realizar seu desejo.


-O que quero é que vá embora, e já! Se mamãe te vir aqui vai reclamar.


E onde está sua mamãe? – arguiu ele.

Você é policial agora? Detetive? – ela balançou a cabeça em desaprovação – Uma enquete uma hora dessa da manhã! Onde já se viu?! E mais uma coisa, só eu chamo a mamãe de mamãe. Entendeu?


-Entendi, entendi! Agora me diga, o que quer? O que deseja?


-O que eu desejo é que vá embora!

-Ora, pequena Flor – sua voz mudou de tom, ficando grave e ampla, preenchendo toda a sala – Vou ficar bravo se disser isso de novo – os olhos dele ficaram aparentemente enormes, como se fosse devorá-la com eles – Como se expulsa alguém que viajou tanto, passando por tantos perrengues, e ainda mais, para te parabenizar?! – o queixo dele encostou no pomo-de-adão, de tanto que esticou o bocão.

Tá, tá – disse ela para acabar logo com aquilo – Primeiro, se ajeite. Isso são modos? Se sente direito, já! – ele sentou com as pernas cruzadas em uma poltrona – Agora feche a boca, vai sujar o chão! E você precisa escovar mais os dentes, hein, que fedor!

-Acabou com a sessão de pilhéria?


Então, o que tem a oferecer? – quis saber, curiosa, muito curiosa.


-Posso lhe dar o que quiser, é só pedir.


-Pode transformar gatos em gente?


Claro que posso – disse o Coisa Ruim rindo – Mas para quê vai querer um gato que vire gente?

Meu único amiguinho é aquele gato, ou gata – apontou para o bicho, ou bicha preta que dormia em um tapete – Mas ele passa o dia comendo e dormindo. Se ele fosse gente brincaria comigo.


-Foi pegar logo um gato? São um bando de preguiçosos! De onde eu venho tem um lugar quentinho separado para eles.


-É confortável?


-Uh! E como! Qualquer dia te levo… para um passeio.


-Recuso, não saio com estranhos.


-Depois dessa conversa ainda seremos estranhos?


-Deixe de ser gaiato e transforme o gato em gente.


-Assim seja… espere, espere! Qual o nome do bicho?

Eu não sei – chupou a ponta do dedo indicador – É que não sei se é um gato ou uma gata. Se for uma gata o nome é Salamandra, se for um gato é Salamandro.


Meu Eu, quanta criatividade! – e soltou um riso nojentinho.


A cara dela fechou-se, percebendo que era caçoada: – Então, onde estão os seus poderes? Parece que falar besteira é seu passatempo e profissão!


Blá blá blá – riu e estalou os dedos – Está aí sua Salamandra – a gata virou uma menina, de cabelos negros como a noite, e com um olhar tapado – E agora seu… Salazar – estalou os dedos novamente e os cabelos como que foram sugados, e a garota virou garoto, soltando um confuso “miau”.


Nossa que…que…que – Flor ficou tão maravilhada que não soube o que fazer; pela primeira vez em tempos não estava entediada.


Gostou? – e estalou os dedos, transformando o Salazar em gato, ou gata.


Ei! – berrou – Porque fez isso?

Desculpe, pequena Flor – ele falou cabisbaixo, mas em tom irônico – É que tenho que guardar meus poderes para a viagem de volta. Escute, de onde eu venho existem muitos gatinhos, que estão tão entediados! Você poderia brincar com todos eles, sim, isso mesmo, eu daria todos eles para você! Aqui você passa o dia sozinha, sem nenhum amigo… mas lá?! Lá é o paraíso da diversão! Não quer visitar? Sem compromisso, eu juro!


-Eu até iria, mas você esquece que os gatinhos são preguiçosos, seja aqui, seja lá. Desculpe, a resposta vai ter que ser não.


-Mas o que fará aqui? Seu gatinho, lembre-se, é preguiçoso. Passará o resto de seus dias conversando sozinha? Conversando com as mãos? E sua mamãe? Porque não chama ela para brincar com você?


A mamãe está doente… – contou, de cenho triste.

Sério? Mas como! – ele levantou o rosto dela com aquele graveto que chama de dedo e disse olhando no fundo de seus olhos – Eu posso ajudar sua mamãe. Posso deixá-la melhor, ok? Ela vai correr, pular, sorrir! O quê? Sente falta dos sorrisos dela? Oh! – gemeu, simulando compaixão – Eu posso deixá-la melhor, e… tudo bem, não costumo fazer isso, mas serei bonzinho dessa vez – propôs enfim – Se for brincar comigo, e prometer ser minha amiga, deixo que leve sua mãe para brincar conosco. Porém, você tem que convencer ela – riu meio tímido, escondendo o rosto com as mãos – Fico encabulado com os adultos.


A mamãe passa o dia deitada, chorando – os olhinhos de Flor lacrimejavam – Seu Coisa Ruim, pode mesmo ajudá-la?

Ele riu loucamente daquilo, “Seu Coisa Ruim”, e comentou: – Flor, muita gente já me chamou de muita coisa. E sabe o que é engraçado? Como as palavras mudam de sentido, misturam-se, somem. Cacete, por exemplo, não é palavrão. E tem mais de um sentido também, pelo menos por enquanto. Já vi muita gente machucar umas às outras por causa de palavras. As palavras nos ajudam a entender quem somos, mas só ajudam. Quem somos está além das palavras. Eu começo a rinchar quando lembro que os cristãos eram taxados de ateus pelo Império Romano que os perseguia, e depois os cristãos perseguiram os novos ateus. Os ateus-ateus que conhecemos. As palavras vão te ajudar a entender muitas coisas, mas só vão ajudar. Enfim, me perdi nas palavras – recapitulou em sua mente – Bom, quanto a sua mãe, claro que posso ajudar, quero ajudar. Mas, tem um mas. Você tem que permitir, e prometer não me abandonar. Tem que prometer ser minha amiga! Isso é um saco, Flor! Todos querem o que ofereço, mas depois que recebem fogem de mim, correm para outros, me abandonam!

-E o que fará para ajudar a mamãe?


-Sua mãe passa o dia dormindo no quarto escuro, né? Chorando… ela está lá agora?


Sim – respondeu, desconfiada.


-Geralmente, a tristeza fica na cabeça dos humanos, com uma operação rápida resolvo isso. Tiro o pedaço que faz ela ficar triste, e deixo todo o resto, o suficiente para ela sorrir, correr e pular.


-Mas aí vai faltar um pedaço da mamãe. Ela vai ficar incompleta.

-Um livro antigo diz que se seu olho te leva ao erro, você deve arrancá-lo; se sua mão te leva ao erro, você deve arrancá-la. Se a cabeça da sua mãe faz ela ficar triste, deixe que eu arranque-a!


Não! – gritou, forte e destemida – Não adianta nada arrancar o olho e desejar o que é errado. Não adianta nada arrancar a mão e cultivar no coração o que é ruim. Você não pode curar a mamãe, porque a tristeza está no coração dela. Desde que o papai foi… desde que ele saiu…

Então deixe que eu o traga de volta! – ofereceu – Mas, lembre-se do mas. Temos de ir todos juntos; você, sua mãe, seu pai. Qual a graça daqui afinal? Aqui, uma hora ou outra terá uma nova despedida. Uma hora ou outra seu pai partirá novamente, e você vai ficar sentada, no canto da parede, falando sozinha. Se passar por tudo isso sã, no futuro, terá amigos, ah, terá! Porém, não se alegre! Eles também vão te abandonar! Você amará alguém, assim como sua mãe ama seu pai. Você amará esse alguém do fundo… não! Bobagem! Você amará esse alguém com cada fragmento do seu ser, e no futuro, ele também vai te abandonar; e o amor vai te corroer, vai te enlouquecer! Quer acabar como sua mãe? Quer? Eu sei que não, ninguém quer! Só que todo mundo tem medo de confessar isso, tem medo de dar um passo para um lugar melhor! Só um passo, para um lugar onde tudo será para sempre! Onde eu nunca vou te abandonar, Flor! Nunca!


Nesse momento o Coisa Ruim levantou-se da poltrona, e de pé na frente de Flor começou a se aproximar mais e mais, encurvado, aumentando, agigantando-se, expressando em seu rosto o ódio mais vil, em seus olhos o egoísmo mais rasteiro. Flor estava sem palavras, nem gritar conseguia, só ficou parada fitando aquela cara feia; parecia que o doido queria lhe machucar!

Um barulho surgiu, como que um martelar, e se agitou, e a cada agitada desse martelar o Coisa Ruim agitava os próprios passos, como que com pressa. Ergueu os braços sobre Flor, e puf!


Flor, está tudo bem? – uma voz grave e familiar lhe fez abrir os olhos – Flor?


Papai! – gritou de felicidade, esgoelando-se, e as lágrimas rolaram.


-O que foi, Flor?


-Eu tive medo, e sozinha… a mamãe está mal. Papai, não quero ficar mais sozinha. Não quero ser sozinha, não quero que ninguém me abandone!


Flor, ninguém vai te abandonar – disse sua mãe, entrando na sala, com um sorriso afável.


Ma-ma-mãe – gaguejava, em meio a soluços.

O pai dela pegou-a, sentou-se na poltrona e colocou-a no colo. Salamandra ou Salazar, se enxerindo, instalou-se entre as pernas de Flor. Sua mãe tinha voltado de onde surgira, e logo apareceu novamente com um bolo pequeninho nas mãos. Acomodou-se no braço da poltrona e indicou que Flor assoprasse as sete velinhas.


Após o assopro ela disse: -Florzinha, pode parecer que os momentos bons dessa vida são poucos, e sabe da verdade? Eles são! São pouquíssimos! Estou a quase quarenta anos nesse mundo, e confesso, às vezes parece que caminho na escuridão. Só que é um parece mesmo, pois seu pai e você estão comigo, são minha luz, meu sol, minha alegria; e mesmo quando seu pai não está e eu fico um pouco triste… mesmo ficando triste eu não esqueço nem por um segundo, ah, nem por um maravilhoso segundo, o quanto ele me ama; aqui do meu lado, ou do outro lado do mundo. Florzinha, o tempo vai passar, mas não tenha medo; as velas precisam ser apagadas para outras serem acesas, pois é desse apagar e acender que a vida toma seu sentido.

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