Morgana e o enigma da caixa

Todas as vezes que eu me sinto confusa, corro para o parque e sento no último banquinho de concreto, é o mais isolado e dá uma bela visão para o restante do espaço. Daqui a três dias completarei dezoito anos, e o roteiro que imaginei durante toda a minha vida encerrava aos dezessete. Minha melhor amiga, a Laura, diz que é normal ficar apreensiva mas que eu estava exagerando, o que é bem característico meu.

Já eram seis da tarde e estou sentada aqui desde as três, precisava retornar ao mundo real e encarar meus pais, eles andavam cobrando o resultado da inscrição da faculdade de arquitetura, eu sinceramente não andava empolgada. 

– Quando foi que ficou tão frio assim? – Disse em voz alta abraçando meu corpo. 

Um vento forte me atingiu tirando o cabelo de minha face, enquanto sem querer deixei meu celular cair. Apressei-me em apanhar o dispositivo, e foi quando vi algo embaixo do banco, estava parcialmente enterrado mas percebi que se tratava de uma caixa, resolvi tirá-la dali.

Pequenas gotas de água começaram a cair do céu, enfiei o telefone no bolso e agarrei o objeto de madeira sujo de terra. Corri até minha casa.

– Morgana, onde você passou a tarde, menina? Fiquei preocupada, vai tirar essa roupa molhada. – Minha mãe não notou a caixa em minhas mãos, diferente de papai.

– O que tem nessa caixa? – Meu pai gostava de velharias, mas essa aqui era minha.

– Ainda não sei, vou limpar e ficar com ela, não adianta tentar esconder na sua coleção. – Falei indo para o quarto, estava curiosa, tinha algo naquela caixa que me deixava ansiosa, eu descobriria o porquê.

Depois de me trocar e colocar comida no estômago, dei início às investigações. O intrigante objeto que era do tamanho de uma caixa de sapatos estava limpo e era muito bonito, tinha o aspecto avermelhado com o nome “paradoxo” talhado na tampa. A palavra significava contradição. O fecho de abertura da caixa estava enferrujado, mas era possível abrir, peguei uma das ferramentas que papai usava para consertar as coisas da casa, forcei um pouquinho e consegui. Havia várias cartas dentro, o destinatário era a mesma pessoa do remetente, um padre, que pelos meus cálculos passara dessa vida para melhor há um bom tempo. 

Eu não sabia se deveria ler, assim liguei para Laura, ela era boa em dar opinião. 

– Morgana, fiz minhas análises e concluí que você precisa ler pelo menos uma, porque isso é definitivamente uma mensagem do além. – Laura era dramática, mas decidi escutá-la…

Li algumas cartas e vi que não era nada do que eu pensava, cogitei a ideia de ser sobre um amor proibido. A verdade era que o padre foi para o seminário por causa dos pais, mas seu sonho era ser ator. Como ele não receberia apoio e na época era mais fácil seguir uma vida religiosa, ele decidiu realizar o desejo da família. Vivendo num eterno paradoxo: ser alguém diferente do que queria a vida toda.

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