Para quem cuida de mim

Observava meticulosamente cada gesto, procurando identificar a intenção. Sentada na mesa da cozinha, acompanhava o vai e vem, os diálogos iam de comentários sobre a rádio, que dava a casa o ar de movimentação, e as notícias do dia. Comecei a analisar automaticamente, parecia programado, ensaiado… O que significava tudo aquilo? Por que tanto cuidado? Para quê tantos detalhes?

Enquanto pegava o pão para passar a manteiga, notei que esquecera a faca, e no meio de todas as tarefas de início da manhã, quem eu olhava encontrara tempo suficiente para pegar o objeto esquecido e o remédio da alergia que eu constantemente reclamava. As vezes, no desenvolver de teorias mirabolantes, acreditava que seu cérebro funcionava numa frequência incompatível com a de pessoas que não precisavam de guardiões, era como eu via, era como eu sentia ao fechar os olhos e inspirar o cheiro do café.

Sua aparência terna que com as asas tornava-se firme e confiante, transmitia a segurança diante de toda turbulência. O carinho que não precisava ser dito ou comprovado estava ali, no exercer de uma rotina que eu memorizava, na comida e bebida preparada, na cautela para nada nunca me faltar. Finalizei a primeira refeição e direcionei-me ao banheiro para lavar a boca, notei que tudo já estava organizado, a escova em minha espera na pia significava que fora deixada naquele lugar enquanto vagava por pensamentos existenciais.

Olhei meu reflexo no espelho, enxuguei o rosto e as mãos molhadas, corri para pegar a mochila e finalmente sair, ainda na porta coloquei os fones novos no ouvido, pedi a benção e saí rumo a mais um dia de aula. No portão do enorme prédio, parei para recuperar o fôlego que perdi na corrida feita pelo medo do atraso, o porteiro me apressando para entrar com um sorriso muito diferente do que eu recebia em casa, me fez suspirar e correr em direção a uma sala barulhenta, que fora silenciada com o sinal que ecoava no corredor.

Sentando na cadeira acompanhada pela chegada da professora, senti um arrepio ao imaginar que esquecera o caderno de atividades, abri a mochila receosa, com a mão trêmula e com uma expressão de culpa que se percebida me entregaria. Contando mentalmente até três espiei o interior da minha bolsa, e vi ali vestígios dos cuidados que recebo. Ao fim do dia, segui cantarolando pelo caminho, encontrando no jardim da pequena casinha amarela meu protetor com asas brilhantes, da cor de uma noite estrelada que me permite sonhar por uma vida inteira.

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