De Pandas e Homens

Em uma determinada realidade (após os pandas terem tomado o controle do mundo das mãos dos humanos) a jovem princesa Panda, discute com seus pais (o Rei Pêra e a Rainha Nana) como tratar dos súditos e dos recursos naturais. 

    Mas minha filha, se o mundo vai se acabar de todo jeito qual a diferença de uma árvore a mais, uma árvore a menos? – questiona o Rei Pêra. Como já pegamos a discussão em uma parte avançada tenho que explicar algumas coisas. O Rei Pêra quer construir um grande canal para passear com seu barco durante as férias, só que tem uma floresta imensa, de árvores mui frondosas impedindo a passagem da água. Imbuído de um pensamento escatológico que herdara dos humanos ele defende com garras e presas a construção do canal, que ainda que destrua aquela floresta e expulse muitos animais (seus súditos) de suas casas, vai valer a pena. Afinal, se o mundo vai se acabar de qualquer jeito para que cuidar desse planeta? 

    Pai – falou Panda, demasiada cansada de tanto discutir – Se o senhor acredita que o mundo vai se acabar, e por favor, eu também acredito, não é somente por esse pensamento que o senhor deve se guiar. Sim, ele vai se acabar, mas pode ser amanhã ou daqui a mil anos. Se o mundo não se acabar amanhã, ou depois da construção do canal, quem vai ter de viver em um mundo arruinado sou eu. 

    Suas ideias cheiram mal – disse a Rainha Nana – Daqui a pouco começa com aquela conversa de libertar todos os animais. 

    E tô errada? – perguntou Panda, preparando o fôlego para mais uma discussão. 

    -Só tome cuidado para o seu pai não confundir, da última vez que começou a defender as plantas e os bichos ele esmagou o Cadinho. 

    Canodinho – corrigiu. O pobre Canodinho era um pássaro de estimação da família real, apaixonado pela princesa Panda. Era branco, inteligente, e tinha um “topete” engraçado e colorido, às vezes vermelho, às vezes azul, verde, amarelo… Bom, um dia quando a princesa disse que os canudos deveriam ser banidos do Reino pois estavam sujando os mares e matando muitos peixes o Rei Pêra pegou uma rocha e jogou em cima do pássarinho. Calma, ele não sofreu; virou pasta instantaneamente. 

    -Isso, isso. Pêra, diga para ela porque controlamos os animais. 

    -Panda, minha filha, os animais são necessários para muitos deveres que seriam muito fatigantes para nós. Mas veja, não exploramos eles. Eles nos ajudam a plantar nossos cereais, e em troca lhes damos ração. É justo. 

    -Seu amor pelos brutos é comovente. 

Que amor o que menina – a Rainha Nana ficou indignada com a ousadia de Panda – Nós fazemos igual aos pobres. Criamos gatos para caçar ratos e criamos cachorros para afastar ladrões. Amar não é um instinto de sobrevivência. 

    Então para que prender um pássaro? E nosso gato? Ele é tão gordo que não pegaria um rato deitado sob a própria pata! – o gato ficou doído. 

    Eles saciam nossas necessidades espirituais – declarou o Rei Pêra – Ora, se não fosse para me sentir superior não teria derrubado os humanos. Eu era tratado como rei quando eles mandavam em tudo; comia quando queria, do bom e do melhor. Mas faltava a felicidade.  

    Conte para ela a história dos homens gordinhos, conte, conte – estimulou a Rainha Nana. 

    Conte você – retorquiu o Rei. 

 -Que seja! Há tempos conheci dois homens, dois poderosos do Reino dos Homens. Os dois eram gordos, feios, calvos e ganhavam quase a mesma ração. Um deles era Prefeito de uma cidade humana, e o outro era seu secretário. O secretário falava línguas da banda direita e da banda esquerda do mundo com extrema maestria. Já o Prefeito conhecia técnicas de cura que pouquíssimos sabiam. Por causa dessas habilidades eram homens exemplares em essência. Mas veja, sabe quem era mais feliz?  

    O secretário? – Panda chutou. 

    Não! – riu a Rainha – Claro que era o Prefeito! Ele mandava no secretário! Está vendo? Quando são todos iguais em qualidades, só o que separa um do outro é o mandar e obedecer. 

    -É isso que me deixa feliz, minha filha. Eu poderia ter tudo, mas se não mandasse, seria tudo vazio. 

     -Se mandar lhe deixa feliz para que construir um canal então? A verdade é que o senhor manda em todos, menos em si mesmo. 

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