O antigamente das Cacimbas

Maria Toinha
Marcos Andrade
Lavagem, 04 de maio de 2021.

Cresci na Lavagem, no interior do Ceará, quando o lugar ainda era um pequeno povoado. Até hoje prefiro lembrar do meu lugar a partir desse nome, pois tem coisas que só poderíamos ter vivido na Lavagem. Canaan foi nome dado pelo olhar do branco e não exatamente pelo Povo. O Povo de quem eu falo são as Lavadeiras, as mulheres, em sua maioria negras, que deram ao lugar o nome de sua prática — a Lavagem de roupas. Essas mulheres lavavam as roupas dos brancos, daqueles que tinham uma melhor condição de vida, daqueles que de fato controlavam os rumos da narrativa oficial sobre o nosso lugar.

Havia nesses Outros o interesse de se distanciar do nosso passado real, passado encantado pelas roupas quarando no sol, pelos segredos antigos compartilhados pelas Lavadeiras, pelas cantigas cantada por Mamãe Oxum na correnteza do córrego, pelos mistérios do agricultor que fecundava as “baixas dos córregos” com sua sabedoria apreendida pela experiência de deslocar a enxada e a foice com o corpo. Os Chefes do lugar diziam que fazíamos vergonha como Lavadeiras e Agricultores pobres e tentaram nos obrigar a esquecer nossas origens: — Quem disser o nome Lavagem vai pagar uma multa. — Dizia o Padre. Podia o pobre suportar isso?

O nome da Lavagem foi alterado pelo desejo da gente branca do povoado de invisibilizar o labor das Lavadeiras, a poética dos córregos, a contribuição da nossa gente na composição daquele território. Havia também a esperança de que nos tornássemos mais cristãos com o nome de Canaan, a terra prometida segundo a bíblia cristã. A verdade é que nos tornamos mais Encantadas e que a Lavagem ainda sobrevive em nossas veias. De vez em quando, me pego pensando em como a Lavagem ainda vive em mim e olho para a beirada do córrego. É lá que as cacimbas eram cavadas pela gente Lavadeira.

Quando eu era menina precisava ir buscar água nessas cacimbas. Aprendi isso com meu pai e minha mãe. A gente buscava água na cacimba e enchia o pote de barro. Já falei sobre o pote que vive comigo há mais de 30 anos, cabe agora tecer memórias sobre o antigamente das cacimbas.

Há quem se lembre daquele momento da vida com muito carinho, mesmo que a dificuldade tenha sido grande. Nasci como uma menina pobre e me criei com a certeza de que jamais poderia me esquecer do passado. Porém sou uma pessoa que não olha para o passado com rancor. Eu aprendi a olhar mais profundamente para as experiências que passei na vida e a ver nelas algo que o rancor não permite. Eu nunca quis ser rica, eu só quis que as pessoas do mundo tivessem compreensão de que a vida não se realiza por meio das riquezas materiais. A vida pede mistério, caridade e gentileza para se realizar. E não era isso que me ofereciam as cacimbas da Lavagem?

Eu me lembro de cavar o chão com as mãos depois de caminhar com uma cabaça na cabeça. Chegava ainda com escuro na ribanceira do córrego do Compadre Rodolfo e me debruçava sobre o chão frio para cavá-lo. A areia era macia e cedia aos meus esforços. Os passarinhos se desciam do céu para riba dos coqueiros e ficavam cantando enquanto eu abria o buraco da cacimba cantarolando. As águas brotavam somente quando o cântico das aves era suficiente para acordá-las. Eu me encantava com aquele mistério. Nessa época, levava água da cacimba numa cabaça grande e por vezes naqueles tambores de querosene que os ricos arrumavam pra gente trabalhar botando água na cabeça.

As areias eram caridosas comigo fazendo com que a água brotasse limpinha do chão para minha cabaça. As águas eram limpas como o primeiro sorriso do sol sobre o mundo. Aqueles passarinhos eram gentis com o meu caminho. Depois de cantar para as águas encherem a cacimba, os passarinhos me levavam até pertinho das casas na Rua da Lavagem. Eles voavam comigo… me sentia leve, não importava o peso da cabaça. Naquela época, eu tinha força para erguer qualquer peso sobre minha cabeça. Essa é uma sabedoria compartilhada também pelas Lavadeiras que conduziam grandes trouxas de roupas em suas cabeças e as vezes bacias maiores do que elas. As mulheres da Lavagem se aformigavam pelos caminhos com aqueles grandes pesos nas cabeças.

O ofício de carregar água na cabeça me permitiu sustentar meus filhos depois que meu marido morreu. O Chico foi embora muito cedo, tinha apenas 54 anos quando desencarnou. E eu fiquei com um bando de filhos. Fui uma mulher de muita força para o trabalho, nunca quis me ausentar de minhas responsabilidades. Eu trabalhei por um tempo levando água das cacimbas das ribanceiras do córrego para as casas das pessoas na Lavagem.

Mas nem sempre era fácil encontrar minha cacimba limpa, pois havia gente maldosa que mijava nas cacimbas que eu cavava. Era muito triste chegar pela manhã em uma das cacimbas e ela está podre do mijo alheio. Ficava com raiva, mas não havia o que fazer senão cavar um novo buraco nas areias macias e pedir que os passarinhos não parassem de cantar até que a água brotasse limpinha das profundezas.

Certa vez, estava cavando uma cacimba nova no córrego do Compadre Rodolfo. Estava chateada por terem sujado a cacimba que eu mais gostava. Me debrucei sobre a terra e comecei a forçar a areia. Os passarinhos cantavam na palha do coqueiro. Ouvia a água correr tão mansa detrás de mim… parecia que a correnteza do córrego queria parar. Senti uma presença e me voltei para ela:

— Deus te salve, minha filha! — falou a Mulher de vestido amarelo.  

— Deus te salve, minha Mãe.

Passei as costas da mão em minha testa afastando os cabelos dos olhos, enquanto sentia muito atentamente a presença encantada que me falava. Fiquei um pouco nervosa, pois certamente que a Senhora dos Rios teria me ouvido brigar há alguns instantes. Ela sorriu e disse:

— Não está me reconhecendo, minha filha?

— Estou com vergonha, minha Mãe. É que sujaram minha cacimba.

— Eu sei, Maria. Mas estou aqui para limpar tua visão… te lembra que a água que sobe para tua cabaça também é minha. E minha é a tua Coroa.

— É por isso que eu tenho tanta segurança, minha Mãe.

— Então eu quero que você volte para a outra cacimba e pegue sua água lá mesmo.

Ao ouvir aquilo parece que eu subi do chão. Não podia acreditar que a Mamãe Oxum estava me mandando retornar à cacimba suja. Eu sempre fui assim, quer dizer, eu sempre acreditei e desacreditei ao mesmo tempo. Foi uma coisa que herdei da minha mãe. Mas não poderia desobedecer a Mamãe Oxum diante de sua presença, então respirei fundo e me levantei do chão com a cabaça na mão. Ela sorriu para mim, satisfeita com minha obediência. Cheguei à beira da cacimba e parei. O receio havia tomado a minha cara. Os passarinhos pararam de cantar de propósito. Diante de minha demora, Mamãe Oxum perguntou:

— O que foi, minha filha?

— Não é nada, Mamãe.

— Eu sei o que se passa no teu coração. Olha para a cacimba.

Olhei para o buraco e contemplei a água mais fresca que meus olhos já tinham enxergado. Fiquei envergonhada por ter duvidado e me virei novamente para Mamãe Oxum. Ela mantinha um sorriso doce e disse:

— A água que sobe para tua cabaça também é minha…

A voz ecoou enquanto flores amarelas tombavam na correnteza do córrego.

Enchi a cabaça e botei na cabeça. Tornei para a rua da Lavagem com os passarinhos.


Maria Moura dos Santos – Maria Toinha é uma mulher negra e mãe de santo cearense. Nascida em 1936 na Lagoa de Beber em Paraipaba/Ce. Casou-se com Chico Toinha. Foi uma retirante da seca de 1958, agricultora, pescadora, empregada doméstica. Hoje é escritora. Mora em Canaan, interior do Ceará. Publicou os livros A mística dos Encantados e Caminhos Encantados, pela Editora Edições e Publicações em 2020 e 2021, respectivamente. Coordena o Projeto Literário A Mística dos Encantados, com Marcos Andrade, disponível para acesso no site amisticadosencantados.com.br
Marcos Andrade Alves dos Santos – Marcos Andrade é poeta e escritor. Acadêmico Correspondente da Academia Internacional de Artes, Letras e Ciências ‘A Palavra do Século XXI’ – ALPAS21. Doutorando em Ciências Sociais – PPGCS/UFRN; Mestre em Sociologia – PPGS/UECE. Coordena o Projeto Literário A Mística dos Encantados, com Maria Toinha. Editor-Chefe da Revista Devires Poéticos.

Sobre A Mística dos Encantados

A Mística dos Encantados é o nome do Projeto Literário concebido por Maria Toinha e Marcos Andrade. A iniciativa reúne no site amisticadosencantados.com.br um acervo produzido a partir da experiência de Maria Toinha como mãe de santo, mulher negra e retirante da seca de 1958 no Ceará. O site reúne os livros, contos e poesias publicadas em Revistas e em Antologias, além das canções dos Encantados cantadas e gravadas por Maria Toinha. O livro A Mística dos Encantados, publicado em 2020 pela Editora Edições e Publicações, é o primeiro de uma série de 5 livros escritos a partir da experiência de Maria Toinha com os Encantados. Em agosto de 2021 será publicado Caminhos Encantados, pela mesma editora. Os demais livros serão publicados de acordo com o andamento do Projeto Literário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s