Meses de Saudade

Por Ariane de Andrade Lima

Quantos meses são necessários para acabar com a saudade? Oh não pera, a saudade não acaba. Engraçado a capacidade que temos de manter em pura chama a saudade. A saudade é como uma moeda, tendo dois lados. Ao mesmo tempo em que ela nos alegra por nos lembrar dos momentos vividos; ela dilacera a alma e vai arrancando fios por fios as cortinas que abrangem ao redor do nosso ser. Ela tem duas filhas: a conformidade e a inconformidade. A primeira é a filha tranquila, é o mar sem ondas. A segunda é a filha rebelde, é o mar turbulento.

Para alguns manter-se na linha tênue entre a primeira filha e a segunda é fácil. Para outros, como eu, aquela linha tênue não significa mais nada já que estamos ao lado da filha rebelde. Do lado de cá (inconformidade) tudo é mais opaco. Do lado de cá aquelas aceitações não passam de simples palavras que já não fazem mais nenhum sentido. Do lado de cá a alma que antes aceitava agora rejeita. Finge estar alegre por fora, mas já está morta por dentro. Do lado de cá mantemos a pose, objetivando a existência. Do lado de cá às vezes acreditamos nas próprias palavras de que tudo está nos conformes. ACEITAR. Palavra com sete letras, um significado simples de se entender, mas difícil de praticar. ACEITAR que a hora chegou; ACEITAR que o destino estava todo escrito; só que mesmo assim temos a ilusão de crer que somos capazes de reescrevê-lo.

Ser capaz de sentir, mesmo que por um minuto; por um milésimo de segundo. Aquela pessoa que já foi e sim você sabe que ela foi. É quando o vento bate num determinado momento. É quando o verbo SER se torna tão transponível que você imagina nesse milésimo de segundo que aquela pessoa arrodeou os braços entre você e falou entre barulhos de galhos secos voando no chão; entre pássaros voando; falou que ia sempre estar ali. E nesse momento, pequeno momento, você sente a doçura que rodeia a primeira filha da saudade.

Mas depois o vento passa. Os galhos não têm mais importância, os pássaros não cantam mais. E é nesse momento que você sente que não tem mais como voltar para aquela linha tênue e você se dá conta de que aquela alma antes brilhosa não passa de resquícios da pessoa que você foi um dia.

Dedico esse texto às minhas eternas saudades. Que assim como uma fênix renascem dia após dia, mantendo a lembrança sempre acesa, ainda que dolorosa às vezes. E dedico também para as pessoas que assim como eu já passaram por isso um dia.

09 de outubro de 2018

Um comentário sobre “Meses de Saudade

  1. Texto incrível, muito bem escrito e de uma sensibilidade gigantesca. Muito bonito. Sempre fica difícil de aceitar o que não estamos acostumados, fica a lição para todos.

    Parabéns

    Curtido por 1 pessoa

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