O LICEU – PARTE 4

Caminharam de mãos dadas pelo pátio e subindo as escadas até adentrarem na sala da coordenação. O dia estava ensolarado, com ventos refrescantes constantemente soprados pelo mar. 

– Bom dia, Paula! – disse Conrado – Soube que quer conversar. 

– Sim, meu filho, você está bem? 

– Ó Paula, já foram te importunar com essa história? Esse pessoal é tão criativo, deviam escrever um livro. 

– Paula, sabe o que ouvi nos corredores hoje? – perguntou Juno. 

– O quê, Juno? 

– Que a Terra é plana. O planeta, Paula. Os loucos têm fetiche em fantasiar. 

– Realmente a coisa está séria e não é de hoje – Paula tomou um gole do café que estava sobre sua mesa – E é por isso, não só pelos fetiches que os jovens de hoje têm, mas também por causa da conjuntura social, dos problemas que nossa cidade está enfrentando, bom, eu acho que vocês têm de engavetar essa ideia de festa. 

– Paula, quanto a isso. Entendo completamente seu ponto de vista, e admito, você está certa. Sim, não podemos arriscar a vida dos estudantes, não podemos fazer um evento que vá acabar em tragédia, que prejudique com isso a imagem da escola. – Conrado pega na mão de Paula e sorri – E é por isso que vamos, em conjunto com a coordenação promover um evento beneficente que tenha como tema a promoção da paz. Teremos muito tempo de planejamento, e tudo que for decidido entre a Diretoria do Grêmio Estudantil será colocado para a coordenação apreciar, e colocar um ponto final.  

– Conrado, veja bem… – começou Paula. 

– Paula, veja bem. – interrompeu-a – Vai ser melhor assim, tanto para a imagem do Liceu, quanto para a imagem da coordenação. A diretora Helena vai ficar muito feliz quando os estudantes souberem que ela apoiou desde o início essa proposta. E quando eles souberem que sem ela nada aconteceria? Ô meu Deus, a mulher vai ser vista como uma santa! 

– Conrado, tem certeza? – indagou Paula com o rosto molenga. 

– Tenho Paula. Depois dessa festa farão um obelisco em nossa honra. 

– Pois…vou falar com a diretora Helena. Juno, controle seu namorado. 

– Já está na coleira, Paula – respondeu Juno. 

– Eu quero dizer qu… – Conrado é interrompido por uma batida na porta, depois de quatro batidas entram Shérida e Dionísio. 

– Conrado, tá aqui ele – Shérida aponta para Dionísio. 

– Qual foi meu irmão? – pergunta Dio. 

– Precisamos conversar, urgentemente, sobre carros. – responde ele. 

– Agora? 

– Sim, Dio. Se vocês me dão licença – disse, dirigindo-se a Paula e Juno – Shérida, devia ajudar a desenvolver o assunto aqui, é sobre a festa, a Juno pode te situar. 

– Claro – respondeu Shérida. 

– Conrado, volte depois, não está tudo decidido. – disse Paula. 

– Sim, tudo bem, até logo. – disse saindo da sala. Do lado de fora começou: – Dio, preciso que… 

– Vai ter festa? – disse Dio, abruptamente. 

– Vai Dio, mas só se eu estiver vivo. 

– O que foi cara? É verdade o que estão contando? 

– Sim. 

– Então você tentou roubar um beijo do malandro? 

– O quê? – disse Conrado, pasmo. 

Dio deu uma gargalhada profunda, que durou quase dez segundos. Recuperou a respiração aos poucos, e com o rosto ruborizado continuou: – Ai, ai, palhaço. 

– Palhaço é você. A coisa é séria. 

– Quer minha ajuda, mas me chama de palhaço. Uhm… 

– Dio, voltando. Sabe o que posso fazer para resolver a situação? 

– Mas o que houve afinal? 

Conrado olhou para um lado e para o outro. Não tinha nem vinha ninguém. Contou: – Eu estava andando no bosque, voltando dele, no caso em direção ao refeitório. Aí veio uma moça correndo e disse que estavam pichando as salas perto da capela. Eu disse “Certo, vou avisar a coordenação”. Antes de ir na coordenação avisar fui ver se estava tudo certo com o microfone, e etc. Se estava tudo pronto para a recepção. Foi então que apareceram dois caras enormes do nada e me puxaram para perto do banheiro feminino. Todo mundo seguiu e ficou observando com cara de abestado enquanto os doidos gritavam comigo. Eles ameaçaram e depois foram embora. Fim da história. 

– Se é o fim da história… 

– Não gosto de deixar pontas soltas. 

– Tá, vamos falar com o Ratão. 

– Quem é esse? 

– Um amigo dos caras que te ameaçaram. 

– Como você sabe quem são os caras? 

– Eu estava lá observando. Não com cara de abestado, estava esperando você dar a deixa para eu entrar e te ajudar. 

– Precisava de deixa? – Conrado balançou a cabeça negativamente – Bom, cadê o Ratão? 

– Deve estar perto da capela. 

– E se os caras estiverem lá? 

– Não, eles já foram embora. 

– Certeza? 

– Sim, cara. Está com medo? 

– Medo? Sim.  

– Então não vai? 

– Estou esperando você dar a deixa. – riram e encaminharam-se para a capela. Da escada tentaram ver o Ratão, mas não conseguiram. Desceram e entraram no bosque, dobraram em direção à capela. Lá estava o Ratão, bem escondido em sua toca. 

– Eae, Ratão, tudo suave? – disse Dio apertando a mão dele. Conrado cumprimentou-o em seguida. 

– Sim, tudo sossegado – respondeu Ratão. 

– Então, esse aqui é o Conrado, ele é nosso presidente do Grêmio de estudantes, e bicho, teve um mal-entendido entre ele e um dos teus amigos.

– Eu soube, deu problema, né? 

– Foi, problema brabo. Teria como falar com teus amigos para tranquilizar a situação? O cara aqui, é nosso parceiro. 

– Pode crê, vou falar com a galera. Mas não precisa ficar preocupado, eles tão sossegados.  

– Pois valeu, meu filho – disse Dio se despedindo. 

– Obrigado – disse Conrado. 

– Valeu! – respondeu Ratão. 

Parecia tudo resolvido. Aliviado, Conrado sentou-se no bosque para relaxar. 

– Sabe, nunca pensei que ser justo fosse tão perigoso. E estamos em uma escola, Dio. Já pensou em todos os políticos justos que se corrompem, que se entregam a uma conduta podre porque sofrem esse tipo de pressão e ameaça? Desse tipo não. Ameaças e pressões muito piores.  

– O mundo é podre, porque as pessoas são podres. E enquanto os frutos podres não forem arrancados deste mundo nada mudará. 

– Você é um extremista, Dio. 

– Sou. – Dio comtemplou o céu, mas com a mente em outro lugar – Conrado, você morreria por uma causa? 

– Quase morria dessa vez. 

– Digo…então, qual a causa pela qual luta? 

– Justiça. 

– Se os malandros que te ameaçaram estivessem pichando a capela agora, você iria avisar a coordenação? 

– Sim. 

– E se eles estivessem armados? 

– Sim. E depois sairia correndo para o destacamento policial mais próximo. Mas faria isso porque é meu dever. Dever como presidente. Aquela moça me contou sobre os pichadores porque confiou em mim, mas também por medo deles fazerem algo com ela. Já eu, e os que se propõem a lutar pela justiça, não podem ter esse tipo de medo, ou melhor, medo até podem sentir, eu senti, mas o medo não pode dominar o ser. 

– Demagogias, Conrado? – disse Viviane aproximando-se por detrás dele. 

– Jamais – respondeu. 

– E você Viviane, morreria por uma causa? – perguntou Dio. 

– Não, sou muito apegada a vida. Ainda que eu fosse torturada, ou escravizada, não conseguiria largar minha vida. 

– Não me refiro a isso, quero dizer se você lutaria e morreria na defesa de uma causa – esclareceu Dio. 

– Dio, muitos dos antigos desta terra deram a vida por liberdade. Muitos suicidaram-se para não se entregar ao jugo. Por causa da liberdade, essa coisa tão preciosa para os antigos, guerras foram travadas. Se eu fosse capturada em uma guerra e me oferecessem a forca ou a corrente, eu escolheria a corrente. 

– Penso muito se vale a pena viver e morrer por uma causa. – disse Conrado – Somos muito otimistas acreditando que existe um fim da história, em que todos os condenados injustamente serão absolvidos, que os maus, que hoje estão por cima, daqui a cem anos serão lembrados como demônios. Somos muito otimistas acreditando que daqui a mil anos os que hoje exploram e oprimem serão vistos como seres repugnantes, imbecis. Seria péssimo pensar que daqui a mil anos, os filhos dos filhos dos filhos de meu ventre serão ainda explorados, ou exploradores. Acho que viver e morrer por uma causa não deve estar no seu resultado. Será que vamos conseguir vencer? Não importa. O que importa é fazer o bem, é fazer o certo, e fazer hoje. 

Conrado, Viviane e Dio continuaram a pensar e discutir longamente naquele bosque, sob o olhar perscrutador de Juno. 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s