A CIDADE QUE NINGUÉM NASCIA

Acordo de manhã cedo, dou um beijo na minha esposa e abro as cortinas das janelas do quarto. O vento congelante lá fora esbarra nos vidros. É inverno. Um período que desperta sensações duplas em todos nós. A frieza estridente que incomoda contrasta com o peito aquecido pelo momento. Olho o calendário no celular. Marco o lembrete como visualizado. A ansiedade me acordou bem antes do horário agendado. De jeito nenhum eu esqueceria desse dia. Caminho até a cozinha, bato palma três vezes e as luzes se acendem, a cafeteira range. Está sem pó. Resolvo o problema. O verde néon toma conta do ambiente. Está na hora. Finalmente o dia de buscar meu filho na maternidade. Tantos anos aguardados para esse momento, depois de quase perdermos esse direito com o fechamento da incubadora no município por falta de investimento, impossibilitando os nascimentos locais, se transformavam num misto de alívio e felicidade dentro de mim. Como se eu que tivesse gestado. Ponho o café na xícara, e ligo a TV com um rápido e sincronizado movimento de mãos.

“O foguete já está saindo do planeta Terra. Tudo indica que o satélite que vai servir de bateria solar por alguns anos custou bilhões de sóis. Vejam! Vejam! Há manifestantes na base espacial; eles estão invadindo o centro de controle. Estão quebrando tudo. Os policiais são obrigados a atirarem com suas armas de choque em alguns mais agressivos”. Um deles invade a câmera. “Abaixo o progra…” A transmissão vizinha é interrompida.

Pestes! – Comento desligando a televisão e me apressando. Beberico por uma última vez o líquido escuro, e corro. Pego o casaco em cima do sofá e me dirijo ao espelho. Retiro alguns lenços umedecidos do compartimento atrás dele e passo no rosto, na cabeça e axilas. Esse frio serve para algo, comento me olhando nos olhos. Bato palma duas vezes e as luzes se apagam. Vou caminhando para fazer um pouco de esforço físico. Cubro o rosto com a gola do casaco até a altura dos meus olhos. A toca se encarrega de adornar a cabeça. Minhas pupilas são meus guias e os únicos pontos de referência para quem me ver naquele vai e vem de pessoas. O barulho de sirene ressoa do mar, no antigo farol de Emboaca. Drones fiscalizam a rua. Mas que droga está acontecendo, pensei. A térmica do tecido me mantém viva do lado de fora de casa. Apenas um caminhão passa recolhendo os sapos de rua nesta manhã. É assim que o pessoal chama, informalmente, os sem-teto que morrem nas madrugadas, com a pele enrugada pelo clima. Os que sobrevivem à noite são levados pro ambulatório da cidade. Ganham roupas quentes e comida em troca de serviços ao Estado. Há quem se manifeste contra isso. Sempre há diabos de todo tipo no mundo, não importa a época.

Cruzo a linha, e ultrapasso o limite do município. Uma estrutura grande surge na minha frente. Quase como o arco de concreto que existia numa cidade chamada Sobral um milênio atrás. Dois homens de preto com uma faixa verde envolta da cintura e óculos de lentes pretas e grossas asseguram a entrada. Mostro o dorso do pulso; meu nome se projeta nos portões, e em seguida eles se abrem. Bem-vinda ao Centro de Experimentação Humana: Ambulatório e Maternidade, diz a voz robótica. Retiro o casaco, sem medo de choque térmico. O aquecedor do centro é eficiente, já dizia minha esposa. Várias crianças nos jardins acompanhadas de suas enfermeiras e psicólogas. Todas as semanas sendo rodadas para novas a fim de não estreitar vínculos. Todas se desenvolvendo de maneira plena e saudável, para um dia seus pais ou mães as virem buscar. As visitas são as quartas de verão, hoje é domingo de inverno, dia de retirada.

Sigo até a maternidade. Os saltos dos sapatos fazem um barulho que ecoa no salão. As luzes artificiais do CEH contrastam com o nublado do céu lá fora. Sento nas cadeiras na lateral do ambiente. “Responsáveis pelo Feto H2A, Feto H2F e Feto H2G Classe A, compareçam à recepção para baixa nos prontuários e registro de naturalidade.” Suspiro. “Responsáveis pelo Feto 003, J74 e K75 Classe B compareçam à recepção…” Salto da cadeira. Caminho até uma das atendentes no birô verde. Mostro o pulso. Ela digita algum código no computador que permite a transferência dos meus dados. Ganho uma etiqueta holográfica “003 Classe B”.

– Seu filho nasceu em 14 de março de 3085 às 18h, pesando 7 kg. O Governo arcou com os gastos de gestação em bolsa artificial e parto técnico referente a cota médica da sua esposa, que é pediatra no CEH. Os insumos foram desenvolvidos e testados nos pacientes recolhidos pelo Programa Social de Requalificação Humana de acordo com o DNA do feto e injetados ao longo de seu crescimento. É um bebê do sexo masculino, possui 18 anos e está saudável. Qual a naturalidade do feto que pretende solicitar? – pergunta a atendente tamborilando os dedos no tampo da mesa.

– Trairiense – respondo convicta.

– Acompanhe ela até o setor de retirada – falou a atendente em direção a um homem todo de branco, com um sorriso mais claro que a sala que estávamos. Sigo ele. Passamos pelos corredores, saímos do salão e atravessamos um segundo jardim. Este com adolescentes, com roupas verdes em seus corpos e pelos em suas cabeças. Impeço que uma lágrima escorra pelo meu rosto. Retiro a toca, e a aperto em minhas mãos olhando a cena diante dos meus olhos. Já fazia anos que não via ninguém assim. A cota não me permitia visitar meu filho. Era parte do contrato de ética. O homem, que parecia ser uma espécie de segurança nota minha emoção. Com um sorriso no rosto, pergunto se ele não possui filhos. Ele me olha e aponta para o crachá em seu pescoço. Não compreendo, está escrito “guia de setor”. Então ele coloca a mão esquerda sobre o pulso direito com certa violência, numa rigidez quase ensaiada.

– Funcionários de outros setores que não sejam médicos não possuem cotas, e o pagamento aqui mal dá pra manter meu aquecedor – ele comenta. Em seguida relaxa os braços e olha para frente de forma orquestrada. Chegamos ao fim do jardim. O guia apresenta o pulso e as portas do setor se abrem.

*

As portas se fecham. O guia evapora do salão. Encaro vários homens e mulheres no corredor que contém diversas portas laterais. Todas elas com indivíduos vestidos igual aos que asseguravam a entrada do Centro. As pessoas se entreolham sem entender absolutamente nada. Onde estão nossos filhos?! Gritou um dos homens. O falatório se instaura como colmeia de abelhas recém cutucada. As pessoas direcionam o olhar para o pulso. Faço o mesmo. Ele emite uma luz. O holograma trava e em seguida se projeta de uma vez. “Bem-vinda 003 Classe B. Você foi sancionada pelo Programa de Requalificação Humana. Filhos saudáveis são o futuro da Nação. O Governo da Linha do Equador agradece seu sacrifício coletivo”. Escuto duas palmas. As faíscas dos teasers estalam no escuro. Os gritos tomam de conta do salão.

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