ENTRELINHAS

A capital do país passava novamente por turbulências, multidões se concentravam todos os dias em frente ao Palácio São Francisco, pressionavam o governo por melhorias na economia, a cesta básica estava cara e não havia aumento real no salário essencial; mas o que na verdade culminou para o início dessa revolta foi o aumento repentino do preço do passaporte do trem-bala, trem que liga todo o país e proporciona à milhares de pessoas o deslocamento de suas cidades para trabalhar na capital todos os dias, isso de uma forma muito rápida. Diferente de outros países da América Latina, o nosso país não passa mais pelo problema de aglomerações de pessoas nas periferias das cidades, motivadas por serviços e trabalho. As últimas favelas deste país estão literalmente debaixo d’água, o mar subiu como prometido pelas mudanças climáticas no século passado e cidades como Fortaleza e Salvador estão a sete palmos debaixo d’água, Recife virou literalmente um recife.

Mas mesmo nas grandes cidades do sertão e na capital, não fazia mais sentido existir favelas, não precisam se estabelecer nas grandes cidades, já que podiam vir de suas cidades interioranas todos os dias para a capital, de uma forma até então rápida e muito barata. No entanto, os custos para manutenção deste transporte de levitação magnética estavam custando caro para o governo, que resolveu então aumentar o passaporte para obter um retorno mais significativo. O governo estava numa situação muito delicada, até a elite estava descontente com o cenário atual, a imagem do país como quarta maior economia do mundo estava abalada. Além do mais, o país havia perdido o monopólio na produção de cera de carnaúba, muito usada como substituto do plástico, um país da América Centro Norte havia exportado ilegalmente espécimes da planta, modificando geneticamente variedades para produção em seu país.

A recessão já beirava o quinto ano e a oposição implantava na população o medo do país voltar aos tempos passados do século XX e XXI, quando as pessoas passavam por secas, fome e sofriam na mão de políticos populistas que enganavam a população com promessas infundadas. A propósito, não há mais partidos políticos nesse país, em nenhuma escala, nem distrital, reparticional ou nacional, eleições não são uma preocupação já que demoram muito tempo para acontecerem. Ao final de cada ano verifica-se pelo Poder Fiscal e Avaliador (PFA) o índice de governo do mandatário administrativo, itens como taxa de empregabilidade, qualidade de serviços governamentais, transparência e valorização da moeda são avaliados, se o governo receber nota inferior à 6,0 será marcado um plebiscito com a seguinte pergunta: “O governante deve se manter no cargo diante do índice x de governo?” Se menos de 50% responderam sim, será marcada uma eleição onde qualquer cidadão com score acima 900 de índice de cidadania poderá lançar sua candidatura e proposta de governo. Todos os cidadãos que tiverem score acima de 400 serão convocados para votação e de suas casas elegem o mais bem qualificado para assumir o cargo.

No ano anterior o governo conseguiu passar por pouco na avaliação administrativa. O ano começava, mas a pressão era a mesma, ou maior, mas agora a equipe de governo tinha mais 12 meses para bolar estratégias para superar a próxima avaliação e se manter no poder.  Zé Maranhão, o braço direito do presidente, conversava com seu chefe nos jardins do fundo do Palácio:

– Presidente, acho que esse ano não tem jeito, a gente vai ter que mexer com pauzinhos lá dentro do PFA. Se a gente não passar por lá, a gente não vai conseguir passar na aprovação do povo.

– Eu não vou fazer isso Zé, por mais que eu queira me manter no poder, isso vai contra os meus princípios e a minha fidelidade à democracia. Esse país é muito novo para passar por um escândalo democrático.

– Mas Presidente, a gente tem que tomar alguma medida drástica, se não os Sabiás vão entrar no governo e eu sei que o senhor não quer isso.

– A gente vai fazer algo, a gente vai, não se preocupe. Eu tenho um plano, nós vamos estender a linha do trem-bala até a fronteira com o Brasil, vamos diminuir as restrições migratórias e atrair os mineirinhos e os capixaba pra cá.

Sydney tira uma carteira do bolso do paletó e acende um cigarro, puxa o ar e solta a fumaça. Dá uma tossida em que se ouve claramente o catarro vibrar no seu pulmão, com uma voz rouca e aguda continua a falar:

– O Brasil tá fudido como sempre, eles vão vir de monte. Mão de obra barata, as empresas daqui vão contratá-los, vão se estabelecer aqui e vão virar cidadãos. Enquanto isso, nossos moradores vão vender serviços para eles e a economia vai voltar a crescer.

– Será que o governo brasileiro não fará alguma coisa para conter essa gente?

– Zé, o governo do Brasil tá matando até gente para fechar as contas, enquanto aqui a gente precisa é de gente, de gente desqualificada, porque gente qualificada a gente tem é de monte e essa gente não aceita qualquer trabalho. Esse foi nosso erro, investir muito em educação e formar todo mundo. Já o Brasil não está em condições de exigir nada, nosso país é quem reina na América do Sul.

– Como o senhor pretende expandir a linha do trem-bala para atrair esse povo?

– A gente pega o final da Linha Laranja lá em Teixeira de Freitas e puxa uma linha lá pra perto de Nanuque em Minas e vai descendo na fronteira com Espírito Santo, chegando perto de Pedro Canário, nessas cidades tem muitos netos e bisnetos de nordestinos. O sonho dessa gente é morar no Nordeste, a gente fazendo com que eles cruzem a fronteira, estando aqui dentro eles chegam rapidinho aqui em Juazeiro.

– E de quebra a gente consegue uma empreiteira para essas obras, né presidente?

– É, mais uma obra pra Nordest Subways.

Sydney se pronunciou na internet, em todas as redes sociais e jornais da imprensa digital:

O Nordeste estará cada vez mais conectado, físico e virtualmente; nosso Trem-bala será estendido até o extremo sul da Repartição de Porto Seguro, mas infelizmente ainda não podemos baixar o preço do passaporte por completo, porém entre 18h de Sexta-feira e 6h de Segunda o passaporte custará como antes, 12 Caicós. Uma outra novidade; nosso cinturão digital chegará a mais uma metrópole de nosso país, e em breve Sobral estará coberta pelo sinal de ultra internet. Sobral e região agora terão internet gratuita e de qualidade para todos os seus habitantes. Tenham todos uma boa noite [República do Nordeste: nossa cultura, nosso povo e nossa tecnologia].

Zé Maranhão se encarrega de fazer com que essa notícia repercuta no Brasil, contrata então uma empresa de bombardeamento e impulsionamento de tags, para que a notícia apareça no topo de tendências da Bird, o maior portal de interação instantânea da internet.

No Nordeste, o governo tem toda autonomia para prosseguir com ampliações de projetos já existentes, sem aprovação do congresso, à propósito, os poderes legislativos em todas as escalas são compostos por cidadãos eleitos por sorteio, entre aqueles com score acima de 500 pontos e são renovados a cada 6 anos. Sendo assim as obras de ampliação das linhas do trem-bala e de ampliação do cinturão digital foram colocadas em prática de imediato, de modo que em poucas semanas estariam concluídas.

A obra de ampliação da linha do trem bala foi concluída e nomeada de linha verde e amarela, como esperado, logo nos primeiros dias percebeu-se a movimentação de brasileiros perto da fronteira, na estação final, não demorou muito para a imprensa noticiar um intenso fluxo migratório de brasileiros, a oposição ao governo dizia: “Governo acolhe refugiados brasileiros ao invés de tentar resolver a situação econômica do país”. Nas estações percebia-se claramente quem eram os brasileiros, desajeitados e confusos com a tecnologia, ficavam impressionados com o funcionamento do trem-bala, “Como algo tão pesado consegue levitar sobre os trilhos?” provavelmente pensavam. Visitar o Nordeste pelo Brasil era muito caro e burocrático, embora pertencentes à mesma península, o distanciamento dos governos, a mudança de moeda e restrições de tráfego criou um abismo entre os países, como a Cordilheira do Andes, que sempre foi usada como desculpa para o distanciamento do Brasil em relação aos países do oeste latino. Com o trem perto da fronteira e com a quebra das restrições de migração, agora ficava mais fácil vir para o Nordeste.

Os nordestinos sempre do jeito acolhedor e empreendedor que são, começaram a investir nos brasileiros, houve uma explosão de procura de aluguéis na Capital Juazeiro-Petrolina, negócios como casas de câmbio e restaurantes de comida brasileira tiveram um boom. Brasileiros começaram a assumir vagas ociosas de emprego, como Walker Talkers, motorista de carcópteros e cozinheiros manuais, bastante rejeitadas pelos nordestinos. No meio do ano o Nordeste registrou a entrada de 1,5 milhões de brasileiros, 30% desses começaram a habitar de forma definitiva na capital, o restante ficavam em cidades como Juazeiro do Norte, Salgueiro e Vitória da Conquista; além disso havia uma migração pendular de cerca de 200 mil brasileiros que cruzavam entre o Brasil e o Nordeste diariamente. Diante disso a oposição ao governo começou a espalhar notícias de que a violência começava a aumentar e de que as favelas voltariam a surgir no país, “Juá vai virar Rio de Janeiro” diziam.

Os ânimos da população se acalmava, em frente ao Palácio São Francisco, o único movimento que se via era o das 12 bandeiras das repartições que compunham a nação, se mexiam com a brisa das águas do São Francisco, diferente da brisa, nada calma eram suas correntezas e do outro lado do rio, na parte Petrolina da Capital, os Sabiás se reuniam como aves de rapinas; os remanescentes do último partido que dominava o país no anos 60 do século passado discutiam estratégias para desestabilizar o governo. Pixel, o mais velho deles, colocava sua fala:

– Como membro mais velho desse grupo, de quando esse grupo era um partido e quando de fato se tinha democracia nesse país, me sinto na obrigação de defender minha opinião, a opinião de quem já fez muito por esse país e de quem não quer vê-lo à mercê de uma monarquia, de uma ditadura disfarçada de democracia. Temos que reacender na população o desejo de derrubar esse governo, e não só o governo, mas também esse sistema de governo falho e autoritário. Farei o que for possível para ver esse sistema desmoronar.

– E como o senhor pretende convencer a população de que esse não é mais o melhor sistema? Mesmo diante desses abalos, a população está convencida de que esse Governo-Estado fez e faz tudo para o bem-estar social do país.

– Esse é o problema, o governo não pode ser o próprio Estado, saudades de quando se podia fazer política nessa nação, de quando se colocavam projetos para se confrontar e o povo escolhia o que achasse melhor. No século XXI era um problema, mas hoje a população tem conhecimento e não cai na onda de qualquer laranjão.

– Eu acho que a única forma de derrubar esse governo é atacando o seu maior símbolo, é mostrando que suas decisões podem levar a um caminho desastroso, ferindo os sentimentos coletivos que transpassaram os séculos…

24 de Março – Estação Juazeiro

Tradicionalmente no dia 24 de março habitantes de várias partes do país se deslocavam para Juazeiro do Norte, na repartição do Cariri. Diferente do passado, não se faziam mais romarias a pé, agora as romarias aconteciam a partir das estações de trem; em Juazeiro da Bahia não era diferente, já que boa parte dos habitantes dessa parte da capital vieram do Cariri no final do século passado e trouxeram consigo o apreço à Santo Padre Cícero. A Estação Central de Juazeiro encontrava-se lotada, a cada 10 minutos partia um trem lotado de pessoas com chapéu e fitinha no braço, o percurso até Juazeiro do Norte era feito em 20 minutos.

[Plantão de Notícias na TV]

Romeiros relatam diversos assaltos nas estações e dentro dos trens durante esse dia de Santo Padre Cícero, e acabamos de receber uma notícia de que atearam fogo em um trem próximo a estação Padre Cícero em Juazeiro do Norte, aguardamos mais informações, mas os primeiros relatos são de que há vítimas nas ferragens do trem. Vamos agora ao vivo direto do local:

– Letícia, o que aconteceu aí?

– Pedro, estou aqui com a dona Luzia, ela está muito nervosa, ela conseguiu sair do trem a tempo e vai nos relatar o ocorrido.

– Eu estou com minha filha viemos lá de Juazeiro da Bahia e todos os anos nós vamos para Juazeiro do Norte visitar Padim Cícero, no começo da viagem já comecei a sentir algo estranho, o trem tava cheiro de gente com sotaque brasileiro, e eu fiquei um pouco assustada porque eles tinham um olhar mal-encarado. De repente, quando o trem estava desacelerando para parar na estação começaram a descer as alavancas de segurança e todo mundo começou a se agitar e correr para as portas, só deu tempo o trem parar e eu ouço uma bomba no final do vagão, como eu tava perto de uma das portas com minha filha, conseguimos sair. Quando olho para trás, só vejo a fumaça subindo e o trem soltando faíscas. Eu nunca fiquei com tanto medo, como hoje, acho que isso é coisa de brasileiro, porque estávamos tudo em paz nesse país e agora esses brasileiros vieram do país de merda deles acabar com o nosso.

O acidente fez com que a linha parasse de funcionar por várias semanas para manutenção, morreram mais de 200 pessoas, sem falar nos assaltos que ocorreram em várias estações. Foi uma comoção nacional e jornais internacionais levantavam manchetes como “Terrorismo: Brasileiros põem fogo no que antes era o Brasil” e como uma lavagem cerebral e em movimento de manada, o país seguia o mesmo discurso: “Foram os brasileiros e o governo é o culpado por ter aberto as portas para esse povo”. No Bird, as tags #ForaSydney #VoltemProBrasil ficaram constantemente nas tendências. Nas ruas manifestações levantavam palavras de ordem como “Fora Brazucas e levem o Sydney com vocês”.

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