CAFUNDÓ É UM LUGAR

Enquanto terminava de encher o tanque do caminhão no posto de gasolina na saída da cidade de Quintura, Fulana cochilava sentada ao lado da carga à espera de seu pai, que tinha saído para comprar água. Escutando passos firmes e ainda consciente, a menina entra em alerta e prepara-se para se defender, caso precise, como Sicrano a ensinou. Era perigoso ser menina, era perigoso acompanhar o pai no serviço, mas não tinha outra alternativa, Fulana não tinha mais ninguém e seria caminhoneira um dia, então era necessário aprender.

Ainda no cantinho onde resolvera descansar um pouco, a garota de quinze anos segurava uma pedra enquanto fingia dormir, e no bolso da calça cinzenta desgastada com o tempo escondia mais, para que tivesse outras chances de defesa. Os passos agora estavam mais próximos, Fulana cerrou o punho e levantou-se em um pulo, e fez com que o homem de barba longa e boné vermelho caísse para trás de susto. O homem era Sicrano, pai da menina que erguia a mão com o movimento de arremesso. Reconhecendo o rosto do sujeito que foi ao chão, Fulana apressa-se em ajudá-lo a levantar pedindo desculpas repetidamente. O pai, que notara o nervosismo e culpa da filha, beija o topo de sua cabeça, entregando-a uma garrafa de água e rindo orgulhosamente da reação da garota ao imaginar estar em perigo. Fulana aprendeu a sobreviver.

Durante a viagem, pai e filha conversavam e trocavam ideias sobre a próxima parada; Fulana gostava de planejar as rotas e Sicrano fazia de tudo para que ela aproveitasse cada momento dessa viagem. Era a primeira vez dela naquele trecho, e eles tinham tempo até a entrega do carregamento. Fulana atenta ao mapa que tinha em mãos, perguntou ao pai em que rodovia estavam e quando este a respondeu “Rodovia Coisada” ela franziu a testa e o olhou; aquele trecho não fora mapeado, então Sicrano explicou sobre a recente construção e que só estivera ali uma vez, quando ainda era uma simples estrada de terra, o atalho dos caminhoneiros. Fulana interessada no assunto iniciou o interrogatório, e o pai contente pelo interesse da menina revelou as histórias que seus amigos de viagens narravam sobre os estranhos acidentes que aconteciam naquela rodovia.

Fixando seu olhar a frente do caminhão, Fulana visualiza uma barraquinha e pergunta ao pai se ele já esteve ali; não entendendo o comentário da filha, Sicrano olha na mesma direção que ela e surpreende-se ao ver que a margem da rodovia agora é habitada, contrariando os relatos de seus colegas. Curioso sobre a barraca que supostamente é uma venda de frutas, brilhantes por sinal, visto que de longe consegue distinguir as cores de cada uma, Sicrano encosta o caminhão, olha para Fulana e sorrir perguntando se a garota quer comer algo. Desconfiada a filha o acompanha, reparando em cada detalhe ao redor, vendo que não há nada nem ninguém além da barraca e do canavial, e de uma senhora baixinha de cabelos grisalhos que aparece por trás das frutas, com um sorriso de acolhida como se já os esperasse. Fulana pergunta em um sussurro ao pai se ela morava ali sozinha.

Parecendo não ter escutado a pergunta, Sicrano anda em direção a mulher de idade avançada, e pergunta sobre a maçã vermelha na cesta ao lado da vendedora que continua a sorrir. Não obtendo resposta verbal, o homem apenas pega a fruta e a morde, em seguida oferece a filha que olha a senhora com receio. Os dois tentam puxar conversa com a mulher e oferecem dinheiro pela fruta que comeram, enquanto ela apenas segura na mão de Fulana incentivando-a juntamente ao pai a acompanhá-la para dentro do canavial. Acreditando que a baixinha de cabelos grisalhos era muda e precisava de ajuda, os dois caminharam voluntariamente, e quando chegaram no meio da plantação avistaram um campo. Não entendendo o motivo de serem levados ali, os dois olharam para a mulher parada que parecia pronta para responder perguntas.

Ali, no meio de um canavial que da rodovia parecia infinito, Fulana e Sicrano descobriram que a senhora não era muda, e que muito menos precisava de ajuda, era ela na verdade quem os ajudaria. Marciana, como a mulher se apresentara, convidou-os a serem parte de Cafundó, comunidade camuflada por uma tecnologia de ponta, situada embaixo de um canavial criado para despistar pessoas com más intenções e habitada por convidados. Não entendendo o rumo do diálogo, Fulana afirmou que ela e o pai não receberam convite algum e que só sabiam das histórias de acidentes e mortes na “Rodovia Coisada”. Marciana, rindo do comentário da menina explicou que as histórias foram forjadas e que o convite deles era a visão da barraca de frutas, qualquer outra pessoa que passasse ali e não fosse escolhida não conseguiria ver a barraca, nem a velha.

Ainda incrédulo com o que escutava, Sicrano disse que já passara por aquele trecho anos atrás, tempo em que ainda não era pai de Fulana, e que não viu nada, questionando porque não fora convidado antes. Continuando com a tentativa de convencê-los, Marciana justifica a construção da rodovia e o surgimento da comunidade; ambos acontecimentos foram um só e eles entenderiam quando conhecessem os outros. Depois disso, ela fecha os olhos e faz um sinal com as mãos como se manipulasse um computador invisível, quando de repente o campo começa a girar e uma poeira fina sobe, revelando uma torre de metal, para onde a senhora caminha e os incita a ir. A torre que parecia blindada, tinha uma escada que dava acesso para a comunidade abaixo da terra; os três desceram os degraus em um silêncio que entregava a confusão do pai e da filha. Ao chegarem no final da descida, uma porta que parecia impossível de abrir é destravada, revelando-os Cafundó, a comunidade do futuro protegida das intenções dos que governam os centros do país.

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