O NOSSO LUGAR AO SOL

     As rajadas de areia batiam com muita força contra seu peito; felizmente, o bar estava a seis passos de distância. Passou a porta giratória e foi direto até o balcão, se dirigindo à atendente, sua velha conhecida.

     – Cachaça com caju.

     De pronto, a lhe servir, colocou meio dedo de cachaça, dois dedos de xarope de caju com gás e sobre eles um dedo de cachaça. Puxou um limão com rapidez e cortou-o mais rápido ainda, colocando uma banda no copo. Enquanto bebericava, observou a televisão, que transmitia o lançamento do Apolo-37. O satélite era um cilindro projetado para cumprir a função de bateria (e que bateria!), coberto de placas absorvedoras de energia solar, que iria fornecer à nação o equivalente a 10 anos de energia elétrica. O satélite estava acoplado a uma nave que serviria para mandá-la de volta à Terra, e essa nave estava acoplada a um foguete que serviria para enviar as duas ao sol. Não exatamente ao sol. A missão era simples: as placas absorveriam a energia solar desejada durante duas, no máximo três semanas, a energia iria ser mantida na bateria até chegar à Terra e depois seria usada para fornecer energia elétrica à população.

     Outrossim, sabia que provavelmente a energia seria vendida por preço de banana aos vizinhos e fornecida sob mensalidades bastante salgadas aos cidadãos da Confederação.

      Dentro da nave, uma astronauta de 30 anos aguardava o lançamento do foguete. Caso ocorresse alguma contingência seria seu dever resolvê-lo. Se tivesse de escolher entre sua vida e salvar a bateria, teria de salvar a bateria. Era simples, depois de recolhida a energia, havia um botão e uma alavanca na nave que acionavam os propulsores que jogariam a nave em direção à Terra. Caso não fosse o suficiente, se por algum motivo o cilindro continuasse em direção ao sol, havia mais uma alavanca e dois botões para que sua nave explodisse e arremessasse enfim a bateria rumo à Terra.  Afinal, a bateria tinha custado bilhões de sóis, anos de projeções, testes… Já ela… Ela… morreria feliz.

       Fogo!

     O foguete deixou o solo e carregou consigo uma série de esperanças. Sorriu, sentindo orgulho por fazer parte do povo que estava realizando tal empreendimento. Antes de sumir nos céus, a câmera foca no símbolo estampado no foguete: um globo amarelo cortado por um anel laranja, embaixo também em laranja, a palavra “equador”.

     O símbolo do país lhe fazia pensar que os fundadores deviam ter acreditado formar um mundo à parte, como um Saturno, algo assim. Acabada a cobertura do lançamento, começou o jornal, que falou sobre novos conflitos nos assentamentos do Jequitinhonha.

     Largou uma nota de quinhentos sóis no balcão, e levantou-se. Vacilou um pouco na porta giratória e soltou: o sol tá quente hoje. E sim, o sol é quente todos os dias, mas essa expressão é própria de quem vive por estas bandas. Saiu, a máscara protegendo sua boca de engolir rajadas de areia. Um painel digital na rua descrevia o ambiente: Fortaleza, 21/06, 315 graus Kelvin.

      E ainda tinha gente que era contra plantar árvores no Oeste. “Ô povo imundo! Que tenham areia no rabo!”, pensou.

      Decidiu ir para o zoológico municipal, mas antes passaria na casa de seu amigo antropólogo, Cleyton. Adorava suas observações, que misturavam anedotas, notícias de jornais e referências das mais variadas, passando pela literatura clássica, moderna, nacional e contemporânea e com pitadas de crítica dos artigos científicos, o que legitimava seus argumentos com um selo de credibilidade universal.

     Colocou sua digital na campainha e esperou. Depois de alguns segundos, uma musiquinha bem ritmada de sanfona assinalou que o dono da casa sabia de sua presença; depois de alguns minutos, a porta foi aberta por Cleyton, vestido com um sobretudo preto, tão engraçado quanto o detetive do clássico de Jô Soares.

     – Quais as boas? – quis saber Cleyton.

     – Vamos ao zoo? – perguntou. Cleyton afirmou com um meneio de cabeça.

     Ele pediu para irem de ônibus, pois estava cansado para andar. No ponto de ônibus, viu alguns exemplares na tela de compartilhamento de livros, alguns clássicos até! Pensou que tipo de imoralidade cabia naquelas páginas, afinal dentro dos clássicos, quase sempre tem algo subversivo. Não baixou nenhum exemplar, o ônibus chegou em três minutos, e Cleyton repetiu o ditado popular com satisfação: a polícia pode bater, mas o ônibus chega na hora.

      No caminho, Cleyton comentou as notícias dos jornais, criticando a atenção que davam ao lançamento do satélite (que concordava, era importante), mas que eclipsava o achado arqueológico descoberto próximo aos assentamentos mais ao sul. “Uma biblioteca enorme! Veja! Debaixo de tanta lama!” e mandou ao seu telefone o link de uma reportagem sobre o assunto.

     Enfim, o zoo. Lá dentro passaram pelo setor dos pássaros, ficando quase meia hora discutindo a historicidade de um passarinho verde-louro, e depois de dez minutos elogiando um passarinho da cabeça vermelha. Eles se sentiam bem lá dentro, o clima era mais ameno, graças às sombras das árvores e da umidade das folhas. Andaram ainda pelo setor dos soinhos, vivenciando uma cena que lhes rendeu gargalhadas: um macaquinho roubou a pitomba de um moleque. De lá, foram para o setor dos degenerados, para que Cleyton pudesse expor o que afinal tinha escrito em seu último artigo.

      Veja! – disse, apontando para uma família. Um pai, uma mãe e uma filha; esta última devia ter uns 3 anos, a idade de sua filha. O pai assistia tevê enquanto bebia cerveja enlatada, sentado numa poltrona. A mãe, cozinhava em um fogão grande de aço e botijão de gás. A filha deles encarava lá embaixo os visitantes. A menina deu um pulinho tentando alcançar as grades, mas passou longe, escorregou e tacou a cara no chão. A mãe correu para socorrer a criança, e o pai virou o rosto para ver o que se passava. Viu lágrimas descendo pelas bochechas do homem e perguntou-se qual era o gênero do filme que tanto lhe comoveu.

     Antigamente – começou Cleyton – Nos primórdios dos estudos sobre a humanidade, pensavam que era a natureza que destinava a vida das pessoas. Que o sangue que corria em suas veias, que a cor de suas peles, que o tipo de cabelo, tamanho dos olhos, etc, etc, tudo o mais, enfim, decidiria suas vidas por completo. Tolice! Veja! Veja essa família. Eles são feitos de carne tanto quanto nós, corre sangue vermelho como corre em nós, mas, mas… O que realmente separa as pessoas, o que realmente diferencia quem está lá embaixo, atrás das grades, e quem está aqui em cima, é a cultura. Eles são primitivos, veja, o pai é cheio de vícios, bebendo o dia inteiro. A mãe se move somente por instinto da sua natureza de fêmea, protegendo a prole, alimentando o marido. Ela não tem o necessário para ser livre como as nossas mulheres, ela não tem nossa cultura!

     Nos braços da mãe, a criança se acalmou e soltou um sorriso prolongado. Naquela criança atrás das grades, viu sua própria filha…

      Sua filha…         

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