Neste conto o gerúndio é nosso maior aliado

A Semana SertãoPunk surgiu de conversas por mensagens nos grupos de WhatsApp, em chats individuais do Telegram, em dias de cansaço mental e acumulação de tarefas. Se projetando como uma válvula de escape; uma injeção de ânimo no nosso organismo que sofre um sedentarismo social brusco, diante do caos, que mais parece uma distopia capaz de ser impensada pelo mais pessimista – ou criativo – de nossos autores e autoras. O que nos faz refletir que a graça de se ler, planejar, escrever e revisar conflitos em nossas ou outras histórias, está no fato de que a desordem é puramente fictícia, e portanto, encontrar-se de fora de um universo caótico, nos permite se acomodar em meio a tragédia, até o momento em que ela nos arrebata, e nos tira da nossa zona de conforto, pois é a partir daí que ela se torna real.

Fazer arte no Brasil é algo extremamente complicado. Não existe incentivo, não temos financiamento, e o pouco de vontade e esperança que possuímos tentam eliminar por completo. Isso ficou muito nítido para mim no último ano, desde que venho de fato me dedicando a escrita, a leitura, e a fazer coisas que antes não fazia. O tempo corrido, a cabeça cheia, as notícias, a realidade; tudo isso foi motor para minha imersão nesse mundo, porque, sobretudo, é a arte que torna a vida suportável. A pandemia tirou todas e todos do eixo, e o que antes era difícil, ficou cada vez mais insustentável. As artistas e os artistas no Brasil, principalmente os que de fato possuem a arte como único meio de sobrevivência, enquanto profissão, estão sob uma corda bamba. Dentro desse saco sufocante, tantos outros profissionais, das mais variadas áreas, ficam a míngua do se virar com o que não tem. A vida se move num ritmo acelerado, mesmo sem aparentar. Os dias não param sequer uma vez. Enquanto isso, abrimos os guarda-chuvas que temos para nos equilibrar. Mesmo assim, esse texto não é sobre mim – sou couro novo nesse meio de gente calejada. Os artistas do Brasil, assim como o povo do nosso país são verdadeiros heróis e heroínas. Esse texto, é sobretudo, sobre continuar resistindo.

*

Nos últimos quinze dias ou mais, nós do Blog Alagadiço Literário, decidimos fazer a Semana SertãoPunk. Recolhemos nossa força de vontade espatifada no chão, e nos reunimos. Já estávamos no ar há quase dois meses, publicando contos, relâmpagos, poesias, crônicas, crônicas e crônicas. O momento realmente está mexendo com nossa cabeça. Antes disso, eu e Chico convidamos mais algumas pessoas incríveis que já contribuem de maneira recorrente na plataforma – como Jennyfer Costa, Caio Marques e Bercles –, para fazermos algo diferente, sem se perder do objetivo do nosso blog; então resolvemos apresentar o Movimento Literário SertãoPunk para as leitoras e leitores. Lançado em 2019, ele vem se consolidando como gênero, a duras caminhadas, e com um leve boom neste ano. Nossa Semana, então, vem para somar na ideia de estruturação do mesmo. Um movimento só é caracterizado como tal, se tiver de forma orgânica um grupo de pessoas, em especial, fora da barra da nossa saia, empenhadas, seguindo um mesmo propósito, e trabalhando para isso. Muita gente que segue nossas redes e/ou que acessam o nosso blog não tem conhecimento da existência do gênero SertãoPunk, então sem inventar a roda, aqui estamos nós.

Chico e eu, reunimos a galera, numa tarde dessas de muito calor no Ceará, em nossas respectivas casas e cidades, e conversamos por mais de uma hora sobre a ideia. Apresentamos a bagagem teórica cirurgicamente compactada – com alguns acréscimos – no artigo do menino Milla Sobre o SertãoPunk, Minha Vó e a Terra da Luz e nos debruçamos, na medida do possível sobre ela. Foi uma verdadeira oficina, já que a maioria dos envolvidos e envolvidas estavam tendo esse contato com o gênero pela primeira vez. Depois disso, lançamos o cronograma para produção e revisão dos contos, e nesse meio tempo, ficamos sabendo que o desafio era ainda maior; quase todo mundo estava escrevendo uma ficção científica pela primeira vez, e ainda mais, SertãoPunk. Mesmo assim a gente nunca duvidou do potencial da galera. Prometeram e entregaram. O resultado estamos dividindo com vocês agora, nessa Semana.

Ao avesso de todo o pessimismo, e como obra do destino, havíamos entrado em contato com a GG Diniz – co-criadora do SertãoPunk – para colaborar com o blog no mês de abril, no convite do mês. Ela aceitou. A semana nasceu, e redirecionamos o microconto dela para o lado de cá. Convidamos também um outro colega, que já produz alguns contos do gênero, a se aventurar nessa empreitada, Allan Jonhnatha. Em meio a isso acrescentamos outras coisas também, que somariam demais, e deixariam esse momento o mais interessante possível, como o lançamento do nosso podcast, com o audioconto da primeira parte do meu primeiro conto SertãoPunk – relevem – produzido e interpretado pelo querido Bruno Rafael.

É claro que houve questões que balançaram a energia para que a semana não acontecesse. As pessoas e seus processos; a mente nos autossabotando, e alguns convites sem sucesso, por conta de tudo já dito – é evidente que produzir algo novo se torna um desafio, especialmente nesse momento de crise que estamos passando –, mas também tivemos muitas coisas se encaixando nesse quebra-cabeça, e estamos orgulhosos e orgulhosas do resultado. Sem mérito pessoal, ou até mesmo ego inflado. Apenas o desejo de tornar tudo mais suportável. Os dias não param. O presente caminha, e o futuro é SertãoPunk!

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