AMNÉSIA

Eu acordei, puxando o ar como se tivesse acabado de subir à tona de um mergulho. Agarrei com força as primeiras coisas que minhas mãos desesperadas puderam achar, que eram o colchão e o cobertor do leito. Devagar, um quarto branco entrou em foco na minha visão.

— Bom dia. — disse um homem, de jaleco igualmente branco. — Como se sente?

— Confusa. — eu respondi. — Sem fôlego. Tonta. Não me lembro… Não me lembro de nada.

Tentei me levantar e uma enfermeira me segurou pelos ombros, educada, mas firmemente, e me fez deitar de novo.

— Tudo bem. Amnésia total ou parcial é um efeito comum do processo de ressuscitação, ainda mais num caso como o seu. Você passou dois dias em óbito antes de começar a responder aos tratamentos.

— Em… Em óbito? Eu tava morta? — olhei para as minhas próprias mãos. Embora eu não pudesse me lembrar de nada, elas pareciam normais para mim. Minha pele negra estava um pouco acinzentada, mas, fora isso, eu parecia bem.

— Por um período de tempo, sim. Aqui no Hospital Walter Cantídio temos a tecnologia de ponta.

Tentei me levantar mais uma vez e consegui escapar da enfermeira. Mancando, com uma dor surda no meu pulmão esquerdo, caminhei até a janela do quarto e vi, do lado de fora, uma das avenidas aéreas de Fortaleza. Não me lembrava de nada, mas me recordava que o Hospital da Universidade Federal do Ceará ficava próximo à avenida José Bastos.

— Que dia é hoje? — eu quis saber.

— É dia 23 de março de 2085. — respondeu o médico. — Você se recorda de onde está?

— Sei, sim. Fortaleza, Ceará. — eu disse, agarrando o meu lado esquerdo e tateando meu caminho de volta para a cama. — O que aconteceu comigo? Como eu morri?

— Você chegou até nós com um pulmão perfurado devido a um tiro a queima-roupa. Seu marido relatou que você levou o tiro após reagir a um assalto.

Eu não me lembrava de nada disso, nem de estar morta. Era como se eu tivesse nascido naquele momento.

— M-marido?

O médico suspirou, anotou uma coisa no tablet que ele segurava.

— Sim, marido. Não se preocupe, ele está ciente da sua perda de memória. Gostaria de vê-lo agora ou prefere esperar?

Me reclinei contra o leito e suspirei de alívio quando a dor nas minhas costelas deu uma trégua. Ponderei sobre a questão e cheguei à conclusão de que, talvez, ver meu suposto marido iria me ajudar com as memórias. Se eu lembrava que estava em Fortaleza e do endereço do hospital, talvez me lembrasse que um dia me casei com alguém.

— Pode chamar ele.

— Tá certo. Vou chamar.

O médico saiu, mas a enfermeira ficou, olhando as múltiplas bolsas de remédios que estavam ligadas a mim por tubos minúsculos. Eu nem senti o acesso intravenoso do meu braço repuxar quando eu me levantei para ir à janela.

E então um homem totalmente estranho a mim entrou no quarto.

Se eu me lembrasse de alguma coisa, saberia que foi ele o homem que me matou.


G. G. Diniz é autora de ficção especulativa e co-criadora do sertãopunk. Edita para a Corvus Editora e a Revista Ignoto de Ficção Especulativa, além de fazer edição, leitura crítica e sensível freelance. Fala de escrita criativa, literatura e representatividade em seu canal e site, Usina de Universos.
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