esses dias eu tava ouvindo DDGA e…

é engraçado, ainda que um pouco triste, mas teve um tempo que quase tudo que eu ouvia era sobre uma expectativa de amor e uma realidade de sofrimento de meninos gays brancos. de música, mas também de falas, que eu ouvia, internalizava, e me dizia ali também. nunca estive. digo engraçado porque, como que era isso né? se ver em umas parcelas tão reduzidas, tão não refletivas, tão distantes. digo triste porque era mesmo, e hoje é também, mesmo que diferente. triste reconhecer que durante tanto eu me busquei onde não tinha como me enxergar. quando enxergava era pensando que nossas vivências ali podiam se unir em um ponto comum e me parecia troca, me parecia contato e, quase, via compartilhamento. compreensão é quando olho hoje e vejo: nunca pareci com meninos gays brancos. sua música não me diz tanto, suas falas não me alcançam, suas piadas com o jeito que são sozinhos não dizem da minha.

solidão foi aprendizado e hoje é consciência de que preciso desaprender também, pois nunca fui só como meninos gays brancos são. só sim, como eles não. agora, que sinto muitas coisas, penso no porquê de ter lembrado disso e eu não sei.

dizer tem sido coisa importante pra mim, e penso que naquele tempo também. pena ter dito tanto por imagens que não eram de mim. mesma.

Rico fala que lembra ter exposto seu corpo tentando proteger sua mente e eu, agora ouvindo, penso nas vezes em que fiz assim. ele também fala que “a melhor versão de nós nunca foi na agonia”.

na confusão dos ódios que me ensinaram – de mim a mim e às minhas, por vezes – imaginei que podia. parecer, estar perto, querer e fazer como me mostraram aqueles. meninos que já disse e que, de diferentes formas, me disseram também: não nos parecemos. na distração, por eles criada, achei que era isso a tristeza, mas era a perda de tempo dessa busca. essa e todas as últimas vezes que lhes concedi, que disse a mim que seriam últimas, buscando. tempo e correspondência de desejos, como que em cada match uma última vez já anunciada.

hoje, que acho graça, vejo o quanto mudei, como quando eu achava precisar mudar e o que, de lá até aqui, se manteve. mas é isso, “ninguém está mais no mesmo lugar” e tem sido paz o processo de me encontrar, se lembro triste dos ditos, rio deles também.

eu que me via tão reduzida e distante, hoje imagino vendavais.

Nogueira é multiartista cearense vivendo em Brasília. Escreve poesias, crônicas. Ilustra, desenha. Fala de forma pouco conclusiva, as vezes sobre a arte, mas em geral sobre coisas que não se perguntou.
*Siga Nogueira

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