O córrego da minha infância

Durante toda a minha infância vivi momentos muito marcantes com a minha família, sejam ruins, sejam bons, porém os vivi.

Minha mãe, negra, rendeira, agricultora, sempre teve um coração cheio de amor pelos outros e ajudava a todos. Mas uma de suas paixões era lavar roupas. Lavar roupas naquele córrego que dividia aqueles cercados dos grandes nomes do meu lugar. O córrego era bem largo, água cristalina, areia branca, com alguns matinhos verdes ao redor (típico desses locais).

Ali, sempre tinham pessoas lavando roupas, tomando banho, lavando as louças, banhando algum animal e, às vezes, até algumas “luaradas”, a noite é claro. Mas o top mesmo eram as lavagens de roupas que acumulavam muitas pessoas. Aproveitavam para conversar de tudo quanto era histórias: da própria família, dos vizinhos, dos sonhos, de uma compra que tinham que fazer, dos estudos dos filhos, da política, dos sofrimentos com as doenças ou dificuldades econômicas, que assolavam a todos naquela época. Porém, percebia que aqueles instantes eram felizes e cheios de vida, até posso mensurar que o nosso Criador estava lá.

Não gostava muito, mas aos domingos sempre ia deixar baciadas de roupas no córrego para a minha mãe lavar. Ela era a primeira a chegar e pegar o melhor lugar, até nisso tinha concorrência. Às vezes ela sai de casa às 5h da manhã e ao acordar eu tinha que levar o restante das roupas que estavam organizadas em bacias de alumínio. Quantos momentos bacanas vivi naquele córrego.

Outro momento especial deste enredo, foram durante o período do inverno quando o córrego ficava muito cheio e parecia uma piscina. Quando as pessoas mais velhas saiam, a criançada lotava o córrego para tomarem banhos, pularem, namorar ou apenas ficarem ali pensando na vida e no quanto tudo era bom. E realmente tudo foi bom, tão bom que a alegria ainda permanece frenética no coração e na lembrança de cada um.

O córrego era um atrativo para todos da redondeza, visto que não faltavam pessoas ali. Depois de ouvir tantas histórias e de participar de momentos ímpares, tudo acabou. Minha mãe faleceu, meus primos e amigos foram embora, outros se juntaram e o mesmo foi fechado. Depois de alguns anos, fizeram uma ponte e não deu mais para continuar com as diversões de outrora. Hoje, as lembranças são fortes e a saudade também.

Enfim, ali, as águas correntes e a areia branca, foram confidentes de histórias de pessoas felizes, que nem sabiam que eram.

30 comentários sobre “O córrego da minha infância

  1. Que texto lindo, Ricardo… Tbm tenho lembranças parecidas no meu tempo de criança, no meu caso era no açude… Ajudava minha mãe na tarefa de lavar roupa. E o açúde tbm era um point de encontro e lazer. Hoje ele permanece como local de encontro e de lembrança, principalmente com as cheias do inverno.

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  2. Ai que lindo😍, realmente muito profundo em cada palavra, é bom lembrarmos dos velhos tempos e do quanto éramos felizes, essas memórias fazem a vida seguir mais alegre e cheia de cores, com a esperança de sentirmos todo esse calor do passado de novo, muito bom professor💖.

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  3. Fiquei extasiado, com cada verso e extrofe desse belo texto, consegui acessar as emoções to autor, senti a alegria e a sensação boa da infância e dos momentos vividos ali…..

    O córrego da minha infância
    Ricardo Santos, Parabéns pelo belo texto, e por ser uma pessoa incrível….por fim recomendo leia

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  4. Parabéns meu amigo pela belíssima história,como é bom voltarmos a nossa infância e relembrar de momentos tão marcantes que ficam guardadinhos nas nossas memórias.

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  5. Eu me lembro dos saberes Encantados que ganhavam vida no córrego. E você também e escreveu muito bem. As energias que correm na água e as chegam da terra são o que encantam aquele espaço como terreiro de encontros, de saberes, de experiências da gente preta, pobre e tão generosa com a vida. É contraditório que alguém marcado pela pobreza, pela fome e pelo desamparo possa ser feliz. Mas nós somos contraditórios em tudo.
    Ler seu texto me levou de novo ao encontro de Maria Toinha, nossa mestra do Encantamento na “Lavagem” que reinvindicamos como lugar/espaço/tempo de nossas poéticas.
    Parabéns, Ricardo Santos, por trazer a nossa gente para a narrativa, por trazer sua mãe para lavar roupas e conversar nesse córrego com a gente.
    Parabéns por ensaiar poéticas dessa nossa Lavagem.

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  6. UMAS DAS MAIS BELAS LEMBRANCAS QUE TINHAMOS
    LEMBRO MIM DO CAFEZINHO QUE MINHA AVÓ PEDIA E TOMAVA DENTRO DO CORREGO
    ERA DE LEI TODO DOMINGO IRMOS LAVAR ROUPA LÁ.
    FOI UMA EPOCA MARCANTI.

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  7. Muito forte,tive o prazer de pegar esse tempo ainda acompanhando minha vó,no córrego que eu ia tinha umas pequenas quedas d’água eu falava que era as cachoeiras!😂
    Parabéns meu primo,você tem muito talento,que Deus possa sempre abençoar mais o seu caminho é tornar o seu futuro do jeito que você sonha em ser!🙏❤

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  8. Que gostoso lê essas lembranças Ricardo! me vejo muito nessas narrativas… o córrego também fez parte da minha infância, inclusive recentemente fiz um trabalho artístico sobre o córrego que nos trás tantas lembranças lindas, pescar camarão, brincar de pega pega, descer na correnteza…. haaaaa, quanta saudade!!!

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  9. Que maravilhoso poder tocar um pouco na minha linda infância através de um lindo e profundo poema! Obrigado por me oportunizar a reviver e não deixar morrer essas lembranças que também são semelhantes a minha. Muito obrigado Ricardo!
    Sensacional!

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  10. Ler esse texto nós faz vivenciar a vida,o momento que o escritor registra no papel sua vivência nos toca ao coração .
    Parabéns meu amigo,não são só palavras escrita em um papel são sentimentos compartilhados.

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