A filha que eu fui

Eram sete horas da noite de sexta-feira, eu estava em meu quarto esperando que mamãe chamasse para o jantar, o que era estranho já que tudo sempre ficava pronto às seis. Resolvi ir até a cozinha, escutando a voz alterada de papai enquanto gritava com a mulher baixinha que ele costumava abraçar. Mas isso foi há muito tempo, tempo que eles não lembram mais. 

Eu atravessava o corredor de mansinho, tentando entender o que papai dizia. As coisas eram assim agora, um não suportava o outro, o que me fazia questionar o porquê de tanta insistência em ficar “juntos”. 

– Amanda já ia te chamar para arrumar a mesa. – Mamãe disse ao me ver perto da porta.

– Escutei a discussão do meu quarto, queria ver se está tudo bem. – Falei olhando para papai que estava encostado na pia. 

– Não foi nada demais, o jantar atrasou porque eu esqueci de fazer as compras da semana e acabou faltando os ingredientes. – Explicou mamãe. 

– Amanda já tem idade para entender a situação Lúcia, fale a verdade para a menina. Diga que isso não funciona mais e a culpa é sua. – O tom da voz de papai era ríspido, ele saiu pisando duro em direção ao quintal, onde ficavam suas ferramentas de trabalho, ele era construtor.

– Filha não dê ouvidos ao seu pai, ele está estressado, nós ficaremos bem. – Mamãe mentia mal, seu olhar não escondia a verdade, ela estava triste. 

– Sem querer contrariar a senhora mas… Por que vocês ainda dividem o mesmo teto? Eu não vejo vocês sorrindo mais, não tem vantagem em ficar ao lado de alguém por costume. Sei que não entendo muito da vida, só não quero vê-los assim todos os dias. – Eu comecei a chorar como uma criança de cinco anos, era comum ver os filhos querendo que os pais ficassem juntos para sempre. Mas eu não enxergava um final feliz caso meus pais continuassem insistindo nessa relação. 

Mamãe despencou no choro, acho que eu devia ter sido mais gentil. Ela chorava debruçada sobre a mesa e eu continuava ao pé da porta, refletindo o que acabara de acontecer. De repente, um barulho vindo do quintal nos despertou e uma sensação de pavor invadiu meu corpo, algo grave aconteceu.

Quando mamãe e eu chegamos no quintal, as coisas ao meu redor aconteciam em câmera lenta. Os vizinhos saíam de suas casas ao ouvirem os gritos de minha mãe, tentavam nos tirar dali, mas eu não me mexia. Cerca de meia hora depois a ambulância chegou e levou o corpo de papai, um homem vestido de branco dizia repetidamente que ele ficaria bem. E eu ainda olhava aquele objeto no chão, costumava vê-lo na televisão e não sabia como papai tinha aquilo.

– Você estava certa Amanda, o divórcio evitaria isso, Gilberto não se sentiria pressionado. Ele vai ficar bem, o tiro foi de raspão. Quando isso acabar ele vai morar com sua avó.

Então era assim que funcionava, a convivência os acomodara, mas ainda tínhamos uma segunda chance e espero que o meu desfecho não seja tão dramático. Será que estou fadada aos mesmos erros que minha mãe? Preciso reavaliar as ações da filha que eu fui até aqui. 

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