Muito verbo, para pouco texto!

Não contarei como foi realmente, mas como lembro. As lacunas são as partes que não seria necessário contar, ou a parte que deixarei escondida dentro só de mim.

A confusão bateu na minha porta em um dia ensolarado, quente como de costume como a maioria dos dias. Curiosa, com cautela, olhei dos pés à cabeça, me senti a vontade de começar uma amizade. Na verdade, não lembro o nosso primeiro contato. O mundo estava expandido dentro da jaula, que eu mesma tinha criado para me proteger. 

Em junho, desde que pisei naqueles corredores, percebi que necessitava entregar-me como uma borboleta às suas semanas de vida adulta. A maneira que nos conectamos é difícil descrever, e às vezes até chega a doer, porque sei que não o terei novamente.

Marcelo, entrou um dia apressado na sala, sentou ao meu lado. Aquela disciplina não fazia parte da sua grade curricular, eu olhei para o lado, sorri como uma novata que definitivamente não sabia onde estava se metendo. Voltei a concentrar-me nas palavras que saía da boca do professor que me fazia viajar nas percepções variadas da corrente filosófica de Auguste Comte. Levei uma cutucada de leve, dei de ombro por um momento.

Se você tivesse olhado nos olhos dele, entenderia o quanto é empolgante voltar-se a olhar para eles novamente. Ele chegou mais perto e me perguntou: “já ouviu Johnny Hooker?”, e fiz que não com a cabeça. Ele começou a desenrolar os fios do fone e me ofereceu um lado para ouvir “Amor Marginal”, a potência da letra, da voz, definitivamente tornou-se um barulho dentro de mim. Talvez ali ele me ganhou.

As manhãs eram encontros, devido a uma bela amizade. Nossos amigos eram na maioria os mesmos, estávamos sempre trocando ideias sobre tudo que nossas mentes poderiam gerar. Tornou-se a quem eu confiava a alma, percebe-se a gravidade e a delícia?!

As relações sempre foram algo complicado de manter-se, talvez fugir não era algo tão ruim. Gosto de pensar que tudo tem que ter um fim. Tudo, até o amor. Mas as convicções que criamos um dia será abalada por algo ou alguém e dificilmente poderemos evitar. O que tem mais forte entre nós, são os sentimentos e quiçá transbordaremos. Nos faz refugiar, enfrentar, mudar, entregar a ponto de sua própria vida. Será que algum escritor de superpoderes pensou no poder de parar de sentir, seria uma ótima potência. 

Quem pratica um crime sempre procura um álibi. Anos com a dúvida se eu seria o crime ou álibi da vida dele.  

Um evento de jovens, daqueles de causa, que corremos atrás de organizar-se para conseguirmos justamente o que Belchior apontava para não sermos como nossos pais (Ah, se aqui você não entendeu, ouça de novo, e de novo a música). Quando o evento acabou como combinado fomos dormir na casa de um amigo que tinha um ap só pra ele (privilégios que não podemos negar). Enchemos dois colchões infláveis e continuamos com a diversão, copo jamais vazio, sempre estava pela metade, mas o corpo sempre quente.

Fui em direção a janela, fazer o que mais faço de melhor, observar de longe os detalhes que possui na paisagem. O Marcelo chegou logo depois e encostou-se na janela e ficou olhando para fora, parecia mais perdido do que eu. O silêncio entre nós, era libertador, talvez seja umas das coisas que mais sinto falta nas relações. Do nada, o Samuel tri louco veio por trás e nos abraçou derramando cachaça em nós.

– Sammm, seu doido.

Tirei o copo e virei o resto que ficou, era uma gota, mas jovens fazem muito isso, viram mesmo sendo uma gota.

– Amo vocês. [Sam]

Declarações de bêbados é algo normal que me acostumei a pouco tempo.

Marcelo, o levou para sala. E eu continuei ali.

Marcelo voltou perguntando se estava bem?

– Melhor do que nunca. Não bebi tanto. A brincadeira do ‘eu nunca’ meio que me deixou no banco de reserva por não ter vivido tanto.

Ele riu.

– Não está com sono?

– Tenho insônia, serei a última a dormir certeza.

– Te faço companhia.

Eu sorri.

Aquela madrugada iria começar feridas em meu coração. E te digo mais, eu sempre queria cutuca-las, não importava se doeria, o sentir tinha efeito de ópio.

Ele me mostrou outra percepção de mundo, mais doce que poderia sentir. Ele sabia me jogar da janela e, ao mesmo tempo, conseguia virar meu herói. Me sacudia pra fora e me completava por dentro. Talvez a beleza do amor esteja escondida na dor da decepção do que não pode ser penetrado.

Me perdoem, mas ainda acredito que amores tem seu fim, mas resta sempre uma pontinha dentro de nós para queremos viver novamente. Por isso, meu coração tornou-se grande demais para deixar de amar.

No peito, guardo saudades e me arrependo de ter pulado quando percebi que o barco estava afundando, talvez era a única maneira de conseguir demostrar o meu amor. Mas pensei em salvar-me e até hoje convivo com a dor de ter lhe perdido.

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