É qu3 eu Ando d3 Ônibus

Pra ler ao som de Getúlio Abelha.

O ônibus não tava lotado. Lotado é pouco pra falar daquela suruba. Em cima da minha cabeça, sacolas com carnes sintéticas me acertando; dos lados, sovacos na altura do m3u nariz; atrás, um androide falando da vida alheia e por toda parte um calor de torrar nervo. Até aí nada de novo.

Tava indo pro Mercado Acioli, lá perto da Estação 7. Um lugar que vende enlatados, vísc3ras, carnes e órgãos por um preço até em conta. Esse último de gente também. Um lugarzinho meio sujo, mas até qu3 carismático.

Pegar condução é uma coisa que sempre me faz ver o lado bom da vida, mais ainda quando o ônibus passa rápido. Tipo, apesar do subemprego, do suor escorrendo da testa e da rinite crônica, eu podia me vangloriar que mesmo se eu desmaiasse ali, no meio do vagão, não ia cair no chão. Não tem espaço pra isso. No máximo ia ficar escorada entre um cara de terno achando que é importante e uma dona de casa cheia de sacola. Às vez3s dava até pra dormir.

“Padre Cícero é muito bom mesmo, hoje nem tá tão quente assim”, um magrelo no fundo do ônibus soltou isso. Eu bateria nele, mas só de p3nsar na fadiga e no aperto até chegar lá, desisti.

Eleito o melhor transporte público do Ceará, me perguntava se realmente tava em Juazeiro do Norte. Não que eu seja aquela gente que cospe no prato que come, nem qu3 eu tenha nojo de ônibus ou vergonha de ser pobre, muito pelo contrário. Eu tenho é raiva. No fim é isso, eu só queria que o melhor fosse pelo menos decente.

Mas nem tudo é ruim, no geral aquela viagem até seguia bem. Quer dizer, até a hora que um estranho com batina decidiu encher a porra do meu saco. Encarou de longe, quase um sniper, e caminhou até onde eu tava. Incomodou metade do ônibus, pisou no pé da outra metade e quase bateu em duas senhorinhas pra chegar até mim. Com certeza achou que eu fosse do tipo que daria trela.

“Inocente”, rosnei entre os dentes.

Era velho, se tivesse que chutar diria que sessenta anos. Como já falei, usava uma bata, talv3z um terno… alguma coisa do tipo. Os ares de formalidade, a magreza e a pele pálida me fizeram lembrar do Nosferatu do Sertão dos Inhamus. Nem me pergunte o que é; eu odeio explicar meme. Enfim, par3cia precisar duma transfusão de sangue.

Quando vinha, também prestei atenção no livro que carregava: “O Estado Laico é Um Veneno Institucionalizado”, do Raino Jarbolos. Um fanático, pens3i na hora. Pera um pouco, tou sendo meio injusta aqui. Acho que um fanático-moralista-idiota descreve melhor.

Na hora que chegou na minha frente com aquele sorriso largo de orelha a orelha, suspirei fundo e pedi paciência a deus, porque se pedisse forças e ele m3 atendesse… Bem, ir em cana por homicídio não tava nos meus planos.

“Bom dia moça, tudo bem?”

Fingi demência. Qualquer reação, por menor que fosse, seria motivo pra ele abrir a matraca. Na real eu só queria me ver livr3.

“Moça?”, depois tocou meu ombro.

Na hora me sacudi toda como se tivessem jogado um balde de cyberaranhas na minha cabeça, daqu3las que tem nos filmes. Depois esbugalhei os olhos, trinquei os dentes e encarei aquele pregador de meia tigela. Ali ent3ndi porque minhas amigas andam com estilete dentro da bolsa.

Não satisfeito, ele também arregalou os olhos e berrou em alto e bom tom pra todo o ônibus ouvir:

“Desculpe moça, mas é preciso evangelizar em tempos de invasão alienígena. É preciso falar dos empregos que…”

“Tá falando de qual espécie alienígena?”, disparei de volta.

Sei lá, tem dias que a gente simplesmente tá sem paciência.

“De todas.”

“Sei… Sabe qual a única coisa em comum entre todos eles? Que nós destruímos seus planetas ‘por engano’. Já pensou nisso?”

A resposta era ‘não’, mas isso eu nem preciso diz3r.

“Seu deus não manda a gente ser caridoso? Bora ser caridoso com eles, ora mais.”

“Garota, cuidado com a blasfêmia…”

Ali, ainda encarando aquela cara cheia de prega e sinal, pensei naqueles blogueiros que espalham hashtag de valorização da literatura nacional e só resenham livro de fora. Fala A, faz B. Enfim, coisas aleatórias da minha cabeça. Voltando…

Ele revirou os olhos pela segunda v3z e soltou:

“Eu desisto. Não dá pra conscientizar alguém que faz plástica pra ter orelhas pontudas.”

O que isso tinha a ver? Respirei fundo, o máximo que pude. Acho qu3 cheguei perto de rasgar meus pulmões.

“O senhor tem muita sorte, né?”

“Sou devoto, apenas.”

“Sabia. É preciso muita sorte pra servir a única religião, entre milhares, que tá certa e que vai trazer a salvação pra Humanidade. Com uma sorte dessas, nem sei porque ainda gasta seu tempo pregando em coletivo. Eu taria em Marte comendo do bom e do melhor, curtindo meu ateísmo e fazendo alguma coisa mais útil que encher a porra do saco dos outros.”

Ele riu, e o deboche escorr3ndo pelo canto da boca. Tive que controlar a vontade de dar um murro na cara dele. No nariz seria perfeito.

“Deus oferece rendição aos pecadores, minha filha”, e as mãos sem parar num canto. “Um dia ele retornará e declarará o Juízo Final! Converta-se e Ele terá piedade!”

“Ah, legal. Cê tem procuração pra falar em nome desse tal deus aí? Ele parcela o pagamento dos pecados? Qual a cor da pele dele?”

“Cuidado, garota! Os blasfemadores irão pro inferno.”

“E o senhor realmente acha que eu tenho medo do inferno? Querido, com seu tipo de pessoa no céu, eu quero distância. E outra; ninguém nesse Ceará tá mais ansiosa que eu por esse tal fim do mundo aí! Quero ver o papoco! Quero ver a jiripoca troar!”

Então veio o qu3 eu devia ter previsto: o sermão de olhos fechados e mão na testa. O vômito veio na goela. Nesse meio tempo, resmunguei algumas vezes algo como “Eu não acredito nessa porcaria de livro, não perda seu tempo”, mas el3 não calou a matraca um segundo sequer.

Como se diz a alguém que não dá pra convencer o amiguinho com argumentos, se é que dá pra chamar assim, dum livro no qual ele não acredita? Se alguém souber, me avisa. Quer dizer, registre patente. Hoje em dia é assim, vender o almoço pra comprar a janta.

“Meu senhor, sabe me dizer se no próximo sábado eu vou ter a noite livre?”, interrompi o sermão.

“An?”

“Desculpa, mas é que o senhor tá cuidando tanto da minha vida que eu achei…”

Ele não gostou da piada. Lambeu os lábios da finura dum palito de dent3, coisa que eu só tinha visto num cantor famoso por cheirar pó com o cu, e resmungou o clássico: “esse mundo tá realmente perdido!”. Depois deu as costas, mas 3u já tinha pegado ar. Ele ia ter que aguentar.

“E o filho do pastor? Tá mamando direitinho?”

Ele ent3ndeu o recado. Voltou pra briga com sangue nos olhos, e eu toda preparada me sentindo a própria Cleonice correndo atrás do menino das laranjas. ‘Ai que Vida’, filme bom não, genial.

“Não é à toa que os Saraginistas querem ver os religiosos fora da política…”

“Querido, não são os Saraginistas que não querem ver vocês na política. Ninguém em sã consciência quer ver gente burra no poder passando mão na cabeça da ‘indústria da fé’. Ninguém!”

Outro sermão de olhos fechados, mas dessa v3z parti pra cima. Enchi o peito, tirei sua mão do meu ombro — cê acredita que ele foi ousado pra fazer de novo? — e usei palavrões que eu nem lembrava.

Baixei o nível, vou nem negar. Esculhambei sua vizinha, seu líder religioso e até sua sétima geração. Mas aqui eu reconheço que fui longe demais, já que a vizinha não tinha nada a ver com aquela treta. Tem aquilo de que sempre são os inocentes que pagam a conta, né?

Of3nsa vai, of3nsa vem, e todo o ônibus prestando atenção na gente. Foi quando ele encostou em mim pela terceira vez. Eu quase cuspo na cara dele, alguém diz que quer dormir, uma mulher gorda berra pra dizer que nós não passamos de dois barraqueiros, um bebê-androide chora… isso tudo com os nervos à flor da pele. Depois disso, o ônibus parou.

Não demos um pio na hora. Só nós dois ficamos desconfiados, quase como se fôssemos aqueles cachorros mimados depois que comem um pedaço do sofá. Mas já era tarde.

Dois policiais subiram e nos “convidaram” pra sair do coletivo. Até que foram educados, acho que eram novatos. A g3nte saiu, eu e o bom samaritano de Baturité, cada um pra um lado. Nem pude reclamar, afinal se alguém se presta ao papel d3 andar na chuva é porque quer se molhar.

Nem preciso dizer qu3 andei a pé o resto do caminho, né? Mas nem foi tão ruim. Consegui ler um conto chamado “O Flagra de uma Brotheragem Literária na Praia de Ponta Verde”, de uma alagoense bem debochada, e tomei coragem pra escrever isso daqui.

Também ouvi um podcast qu3 dizia “do Rei intergaláctico ao médico de andróides, todos têm um lado. Exceto os juristas; eles idolatram o Mito da Imparcialidade”. Vai sab3r porque transcrevi essa frase, só gostei dela mesmo.

Depois, pra completar a cota de aleatoriedade da tarde, p3nsei no quanto esses celulares de hoje em dia são umas porcarias. Meu teclado, por exemplo, insiste em digitar ‘e’ quando eu tento botar ‘3’. O contrário, no caso. Droga d3 d3f3ito.

Qu3 m3rda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s