O LICEU – PARTE 3

 Leia a parte 2.

O dia de Conrado estava cheio. Começara não muito bem com um incidente, agora teria que recepcionar os calouros, depois reuniões com diversas discussões e ainda teria que achar espaço para apaziguar sua relação com alguns estudantes para evitar na medida do possível ser morto. 

-Conrado, aqui está sua cola – Shérida lhe deu uma folha contendo palavras-chave para auxiliar seu raciocínio durante o discurso – Eu coloquei, aí no fim ó, sobre os ônibus queimados. Acho importante avisar logo, para eles ligarem para os pais. 

-Você não acha que criará caos? Um futuro atrito com a coordenação? 

   -Acho que não, mas ainda que crie é a segurança deles, e a nossa também que está em questão, então avise. 

-O que acha, Juno? 

-Acho que tem de avisar, mas sem muitos detalhes, também porque não temos tantas informações, se algum ônibus vai parar de circular novamente. 

-Entendo. Bom, Shérida, por favor minha querida peça ao Sérgio, o guarda, para que preste atenção nos portões e não permita que nenhum estranho entre. Diga que está repassando ordens da coordenação, qualquer problema, assumo; peça também ao Dionísio para vir falar comigo, caso de vida ou morte. Seja dramática. Ah, e por favor, marque uma reunião com a Paula, é urgente também.  

-Como sempre, tudo para última hora – disse Shérida, e Conrado lhe olhou penetrantemente, mas com uma expressão vazia – Vou avisar, tchau! 

-Obrigado, minha querida! – disse Conrado enquanto Shérida saia, voltou-se para Juno – Vai assistir o discurso? 

 -Vou, só preciso achar uma companhia antes. Estarei por perto. 

-Certo. 

-Cuidado. Você está bem? 

-Claro! 

-Nervoso? 

-É estranho. Estou nervoso, mas não fisicamente. Preciso resolver esse problema ainda hoje. 

-Vou falar com uns amigos para acabar com eles. Isso não vai ficar assim. 

-Não se meta nisso! – quase gritou. Recompôs-se – Desculpa, mas por favor, não se meta nisso. Já basta eu envolvido. 

       -Tanto faz – respondeu secamente – Está na hora do discurso, depois conversamos. 

-Tá. 

Viraram-se cada um para seu lado, sem mais despedidas.  

    No palanque, Conrado percebeu que tinham centenas de pessoas reunidas para ouvir seu discurso. Não tinha vergonha, mas era um péssimo orador. Preferia conversar cara a cara, nesse campo conseguia sempre vencer, muitas vezes não convencia, mas sempre vencia. 

   -Bom dia a todos e todas. Aos calouros ofereço toda minha receptividade, contém comigo, mas também com todos os veteranos para recebê-los, ajuda-los, seja no que for. Pequenas e grandes dúvidas irão aparecer em seus corações…em suas mentes, nos próximos dias. Claro, vocês ainda vão se perder bastante por esses corredores. O Liceu agora é vossa segunda casa, e sendo vossa casa lembrem-se: seus colegas devem ser tratados com amor de irmão, aos funcionários, professores e coordenadores deve ser dado respeito que se dá aos pais. Mas sendo ainda vossa casa vocês devem ter o sentimento de preservação. Preservar o nome, a honra e a tradição do Liceu. Muitas vezes isso passa por lutar contra quem quer manchar esse nome, macular essa honra, cuspir nessa tradição. É dever de vocês, sendo esta casa vossa casa, preservar e lutar. Lutar contra maus estudantes, funcionários, professores e coordenadores. E como os veteranos bem sabem, uma vez liceísta sempre liceísta. De agora até o fim dos tempos esta será vossa segunda casa, estes serão vossos irmãos, pais e tios. O espírito do Liceu edificou-me, e também edificará vocês! Bem-vindos! 

Bateram palmas e prepararam-se para ir embora, mas Conrado lhes chamou a atenção, e prosseguiu: 

-Atenção, pessoal, alguns avisos. Fomos informados que alguns ônibus foram queimados no dia de hoje, pedimos que liguem para os seus pais e avisem-os disso. Mas sem pânico, não sabemos se algumas linhas vão parar de circular ou coisa parecida. No caso de vocês terem algum problema na hora de ir para casa, se o ônibus de vocês não estiver passando ou semelhante, falem com os membros do Grêmio Estudantil, que iremos providenciar ajuda. 

     Informo também que a recepção não acaba hoje, nem aqui, só com esse discurso. Teremos outras atividades, e quem sabe uma festa. O nosso grande desejo e objetivo é que vocês se integrem o mais rápido possível. 

Por fim, dirijam-se para suas respectivas salas de aula, os professores lá os aguardam para apresentarem-se e dar boas-vindas. Obrigado pela atenção! 

  Desceu do palanque e respirou um pouco. “Foi tudo bem” pensou. Parcos segundos após Conrado finalizar o discurso apareceu para ter com ele Michel Filho, seu vice-presidente. 

-Conrado, tudo bem? 

-Michel! Não poderia estar melhor. 

-Então, se tiver algum problema, algo em que eu possa ajudar. 

-Já tem algo em mente? 

-Bom, o que eu tenho em mente é um questionamento, sabe – continuou Michel Filho do seu jeito sorrateiro – vamos fazer a calourada ou não? 

  -Bom, isso vai ser primeiro discutido com a coordenação. Quando eu tiver uma resposta dela vamos discutir essa pauta em uma reunião da Diretoria do Grêmio. Meu desejo é que ocorra, mas não passarei por cima das esferas de decisão. 

-Então, mas tem que acontecer, Conrado. Tem que fazer acontecer, ou então vamos ficar como bobos, que não fazem nada. 

-Bobo eu não sou, e antes de pensar em festa já tínhamos feito muitas coisas. Entendo totalmente sua opinião, e também quero que aconteça, mas, não vou passar por cima dos outros. Vai criar uma mácula nessa organização democrática, e é contra o estatuto também. Michel perceba uma coisa, uma vez que quebramos uma regra e recebemos palmas por isso fica muito mais fácil e nos sentimos muito mais seguros em quebrar uma regra novamente. O problema disso, para os governantes, é que podemos quebrar regras para nos beneficiar, mas um dia outros podem quebrar regras contra nós, e ninguém vai protestar em nosso socorro, pelo contrário, vão bater palmas. 

    -Conrado, Conrado, suas demagogias não funcionam comigo. – Conrado riu e Michel acompanhou – Entendo, entendo. Eu estava falando com a Paula sabe, a coordenação não gosta da ideia de ocorrer uma calourada. 

-Meu Deus do céu, Michel, você não pode fazer isso. 

-Não posso conversar com uma coordenadora? O que posso fazer então? Você está muito autoritário! 

-Autoritário é o diabo! Isso vai criar problemas na organização! Você faz parte da tomada de decisões, cara. Deu sua palavra em algo? 

-Não – respondeu Michel, aborrecido. 

-Tudo bem. Vamos discutir mais isso na reunião da Diretoria, depois do almoço. – Conrado pegou nas mãos de Michel e segurou-as carinhosamente – Michel, vamos nos apoiar na reunião, afinal queremos a mesma coisa. Conto com você! 

  -Conta comigo o diabo! – vociferou desprendendo-se de Conrado – Às vezes, e só às vezes, acho que você não confia em mim. 

-Claro que ele confia em você, ou então não teria te chamado para ser vice. – disse Viviane. 

-Blá blá blá. Outra demagoga como você, Conrado. 

Conrado e Viviane riram, e ela comentou: -Michel, sabe o que significa ser demagogo? 

-Ó meu Deus, Viviane, me poupe! – Michel riu sarcasticamente – Mas eu prometo pesquisar o significado, tudo bem? Agora preciso ir. Tenha um bom dia, Vi-vi-a-ne. – e Michel partiu. 

-Ele está com raiva? – perguntou Viviane. 

-Se está é só da minha pessoa. Olá – Conrado acenou para um grupo de estudantes que passavam – Então Viviane, como vão os estudos? 

     -Vão bem… mal. Estudar para entrar em uma universidade não é como estudar para as provas bimestrais. Cansada estou. 

-Você vai conseguir. Se ouvir menos Caetano e ler mais sobre os racionalistas, empiristas e evolucionistas, vai conseguir.  

-Que sacrilégio! Temos de ouvir os clássicos da nossa cultura.  

-Ouviu Mutantes?  

-Aquela banda das antigas?  

-Sim, sim!   

-É muito bom. Ainda melhor por que eles não são alienados.  

-Alienados não existem Viviane! Está passando muito tempo com o professor José. 

       -Claro, Conrado, alienados não existem, mas essa escola tem um espírito. – riram juntos – Parece que eu já vou. 

-Por quê? 

-Viviane! – disse Juno – Acho que tem aula para sua turma. 

-Obrigado por avisar Juno. Até depois, Conrado. 

-Até. – disse Conrado, acenando para Viviane enquanto ela saia. 

-A Paula está te esperando. 

-Uhm…ela está sabendo de algo? 

-Não, por quê? 

      -Conversei com o Michel, e ele disse que havia conversado com a Paula. Sobre a calourada. 

-Que cara metido! – exclamou Juno – Não sabe ficar quieto. E se der algo errado, foge.  

-Pois é. Temos que controlar a situação. Sabe da opinião do resto da Diretoria? 

-O pessoal tá animado para fazer a festa. Querem que tenha. Porém… 

-Porém…? 

-Todos apoiam, mas alguns não querem tomar nenhuma responsabilidade na organização, outros podem até ajudar no processo só que no dia querem curtir. O que eu sei é que vai ter uma briga para saber quem vai ficar com os cargos da comissão promotora da festa. 

       -Entre quem? 

-A Thaís quer ficar à frente. O Filinto quer empurrar o Rubens Lucas, para ter mais controle sobre o resto do Grêmio. Olha, se o Rubens pegar a vaga de chefe da comissão promotora as coisas vão se complicar. O Rubens tem a personalidade forte, mas é só um peão para o Filinto.  

-Eu sei. Esse cara quer me emparedar. O problema maior é que não é só ele. 

-Vai logo falar com a Paula, depois conversamos. Faz tempo que não ficamos juntos. 

  -Na verdade, vamos juntos falar com a Paula. Depois dela tenho que resolver o problema com aqueles caras lá. 

  -O que vai fazer? 

    -Conversar. Mostrar para eles que estou certo. Se convenci pessoas suficientes para chegar até aqui posso convencê-los que arrebentar minha cabeça a pauladas não é uma boa ideia. 

    -Tudo bem, acredito em ti. 

-Sempre que escuto isso de você lembro que estou no caminho certo. – abraça Juno e lhe beija – Vamos.

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