19

Atenção: Alerta de gatilhos!

Provavelmente este é o pior conto que já escrevi. Se é que posso chamar assim. Então se quiser seguir, é por sua conta e risco.

Podia ser algo simples: uma história pra contar e logo depois esquecer. Todavia, eu não sei se tenho cacife pra falar sobre certos assuntos. Por sorte ou ironia, sei escrever.

Pra mim, boa arte é a que perverte.

Crato, sul do Ceará. Terraço de Freddy. Madrugada.

Deixou o beck – cigarro de maconha, para os leigos – escapar dos dedos e o vento fez o resto. Despencou 21 andares. Ou se perdeu pelo céu do Cariri. Todo lo que el ojo no alcanza es una posibilidad, disse certa vez. Eu, na gana de ter todas as palavras do mundo, anotei.

Se por aqui comprar livro é privilégio, imagina aprender outra língua.

Nunca pensei que, com tão pouca idade, estaríamos tão cansados. Eu, Freddy, outros amigos de infância e o escambau. É fácil culpar a vodca pela brochada na transa na qual se perderia a virgindade. Quem sabe até cômodo. Quem escolheu beber, não?

Al hecho, pecho.

Tenho 19, mas disso você já se tocou. Se não pelo título – bem ruim, inclusive –, pelo drama teen e a vontade de dizer que odeia a família depois que uma gota de pasta de dente mela a farda da escola numa manhã igual as outras.

Faz parte dessa fase, me disse a psicóloga. Senti vontade de perguntar se os remédios também. Ou as náuseas. Ou aquela vontade de não abrir os olhos toda manhã.

A pele amarela atrás dos óculos quadrados, a insistente necessidade de ficar puxando a saia – pra baixo, infelizmente – e de brincar com os colares e a alça da camiseta me pareciam cestos – hábitos aos não familiarizados – pra conferir se ainda estava com todas as peças de roupa. Uma oração enorme pra dizer que a curiosidade é o 1º pecado do homem. Vou culpar os hormônios aqui.

Um trem-bala passa sobre nossas cabeças. Daqueles magnéticos. Pela lógica, por cima do prédio também. Muita coisa mudou em 80 anos, ouvi num podcast sobre culinária vegana. E eu nem sou vegano!

Crees que Él existe? Freddy quebrou o silêncio.

Ali, nós 2, mais ninguém.

O cimento do terraço estava tão frio quanto cinza. Meu amigo também. Numa descrição rasa: ainda tremia pela briga, a bochecha seguia vermelha – pelo tapa, imagino – e os olhos avermelhados. Não há muito o que fazer quando você quer limpar as lágrimas de um rosto seco. Até porque o vazio não faz sofrer, ele faz sumir.

O vermelho dos olhos não foi maconha, nada disso. Foi pela puta madre de mierda e o padrasto violento. Seria uma típica família tradicional brasileira, não fossem seus vistos temporários.

Soy venezuelano, ainda lembro de Freddy me cumprimentando pela primeira vez. Desde então, carne e unha.

Me ensinou um pouco de espanhol – ainda tenta – e que a família é a forma mais abusiva de relacionamento. Tem quem garanta que não, contudo sou adepto da ideia de que todo mundo tem o direito de estar errado.

Crees que Él existe? Freddy repetiu encarando o céu nublado.

Que foi? Que tipo de pergunta é essa?

Crees que Él existe? E eu segui confuso. Nunca entendi isso de repetir a mesma frase, com os mesmos signos e entonações, quando alguém não entendeu algo. Mesma ordem, mesmos fatores…

Sorri em afirmativa. Se soubesse que falava de deus – ou Deus – pensaria melhor. Senão melhor, pelo menos um pouco mais.

Será que Jesus morreu virgem? Os padres batem punheta? Falo isso porque, certa vez, eu li a bíblia a pedido da minha madrinha e meu pau ficou duro. Cosa de mente sucia, Freddy me xingou umas semanas atrás. Entendi a frase pelo contexto mesmo. Tem vez que eu não o compreendo.

Quero a experiência de trepar no terraço no meu currículo. Um dia. Disso tenho certeza, mas que faculdade fazer – ou se devo fazer – não, certeza nenhuma.

Boas histórias saem de boas vivências, ouvi dizer. Freddy pediu pra eu ir pegar coca-cola. Obedeci.

Entretanto. Sim, sou do tipo que abusa de conjunções adversativas depois de pontos finais, um amigo-leitor disse que é um defeito e tanto. Entretanto, não acho que a galera presa num quarto arejado, escrevendo o mais novo volume-duma-trilogia-que-vai-revolucionar-o-mercado-editorial ouve isso. Tipo naquele conto, Hipermetropia.

Escritor que não lê contemporâneo e acredita ser plenamente capaz de reinventar a roda. Quando não diz que parou em Machadão, talvez sentindo-se íntimo do defunto. E aqui eu tenho que dar parabéns. Até eles reconhecem que pararam.

Meu escritor predileto escreveu isso – de um jeito genial – semana passada. Ele é pernambucano. Talvez homossexual também, mas não tenho certeza.

Gente de ego e capacidade inversamente proporcionais. Tipo modelo de carro e tamanho do pau. O mundo podia esconder melhor suas inseguranças. Sabe o que incomoda? É que problemas assim – e vou chamar de problema mesmo – podiam ser resolvidos facilmente com uma mãe escrota olhando nos olhos e dizendo que não, não são geniais porra nenhuma. Pagaria pra ver isso.

Qual foi a última mulher que você leu?

Toda história no Nordeste precisa ter seca como pano de fundo?

Peguei 3 latinhas e voltei ao elevador. Encontrei Sérgio, um dos vizinhos de Freddy. Como de praxe, fedia a cachaça. O bom da vida é escolher seu jeito de se foder, afinal poco a poco todos mueren en la playa. Freedy é meio pessimista, também toma remédio. Acho que somos amigos por isso, às vezes até mais do que isso.

Tem instantes que a carapuça serve.

Existe um jeito certo de arranhar os próprios pulsos. Até umas regrinhas daquelas que ninguém precisa escrever pra valer de verdade: 1 – Não pode ser profundo; 2 – precisa ser perpendicular aos vasos, já que paralelamente se corre o risco de acertar uma artéria e ir passar vergonha no pronto-socorro com desculpas pouco tragáveis; e 3 – sempre é interessante ter camisas de manga longa no guarda-roupa. O último é só pro pós, para os julgamentos de quem não compreende que a dor alivia e que, nem sempre, ela vem junto da morte. Gente do bem que, de tão do bem, é chata.

Na verdade, nas vezes que fiz, eu cortei pra me sentir vivo. E claro, pra manter o vazio o mais longe possível.

Sempre fica um gostinho azul na boca.

Vó diz que verde é a cor da esperança. Os Power Ranger me ensinaram que amarelo representa medo. Parece que, na Ásia, é vingança, mas não vou falar disso. É que, às vezes, me sinto um mutante, no íntimo sempre sozinho.

Tem coisa que eu escrevo que é meio burra, admito. Então eu boto a culpa na maconha ou até nos hormônios de novo. Sem falar em alguns pensamentos que valem tanto quanto um zamuro. Ainda tenho muito a aprender.

Freddy? Cadê tu? Meus passos ecoaram no terraço.

Nada. Ninguém.

O barulho difuso do trânsito aéreo duma madrugada de terça-feira. Outro trem-bala passa sobre o prédio. Obviamente, sobre minha cabeça também.

Vazio.

Crato, sul do Ceará, terraço, madrugada, 21 andares.

Fez de si cigarro, calculei levando as mãos à cabeça. Todos os fios se juntando em um espiral que, quem sabe, falasse muito mais sobre o quanto eu era paranoico – ou sou – do que sobre a suposta e repentina ousadia de Freddy.

Pienso que es el desespero que hace que se zumben, no el coraje.

Eu não sei como terminar isso, apesar de saber que preciso. Já foram adjetivos demais, advérbios deslocados e uma divagação meio barata, pior não pode ficar. Ou pode?

No fim, contos ruins como esse – alguns que pouco ou nada contam – sobram aos montes em blogs e antologias pagas. Sabe quando o autor usa uma analogia do começo para o desfecho? Pois é, o clichê vem forte.

Podia ser uma história com final chocante. Até apelativo. Contudo, a vida real é diferente do cinema, embora haja uma ou outra semelhança. Ela não precisa de ajuda pra ser perversa, por exemplo.

Mas pra ser pervertida, sim! Só com um empurrãozinho.

Freddy chorava no outro lado do terraço. Como bom amigo que sou, fui ajudar. Outro trem-bala passa. Me toco que também escrevo mal.

Al hecho, pecho.

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