O LICEU – PARTE 2

Leia a parte 1 de O LICEU

Tomás, a diretora está te chamando – disse a coordenadora Paula. 

-Obrigado, Paula. 

Tomás encaminhou-se para a sala da direção. Mancando da perna direita, e com um copinho de café na mão esquerda, com muita fadiga apresentou-se para Helena. 

-Bom dia, diretora Helena! 

-Bom dia, Tomás. Você soube o que aconteceu? 

-Não, senhora. 

-Não viu nenhum movimento estranho? 

  -Muitos alunos reunidos, imagino que para a recepção dos calouros. 

-Tomás, eu recebi informações de que o Conrado quase foi morto. 

-O quê? Isso não é possível. Hoje é o primeiro dia de aula, Helena, esses alunos vão sair por aí contando mentiras, para você, para mim, e amanhã nem lembraremos do rosto deles. É preciso ter calma e… 

-Quer me ensinar meu trabalho? 

-Não, Helena, eu… 

  -Pois Tomás, peço que faça agora o seu. Descubra o que aconteceu, se o Conrado está bem, e controle qualquer problema, grande ou pequeno. 

-Sim, senhora. 

-Pode ir. 

-Tenha um bom dia, Helena. 

-Você também, Tomás. Um excelente! 

     Tomás encostou a porta com toda delicadeza e fechou sua mão esquerda com toda força que tinha. O café espalhou-se pelo chão e respingou em sua blusa. Descartou o copinho, e foi investigar. A maioria dos alunos estava no refeitório para ouvir o discurso de boas vindas dos veteranos, mas ele não queria saber deles. Os malditos alunos não respeitavam ele, o olhavam com desprezo. Em contrapartida, ele os odiava. Seguiu direto pelo corredor, virou a esquina e recostou-se sobre a porta da última sala. O ouvido estava grudado na madeira. Parou de respirar, e alguns dirão que teria transformado o coração em pedra para ouvir em absoluto algum som. Ouviu. Ia entrar. A seu pedido, as maçanetas de todas as salas que não guardassem materiais foram arrancadas. 

-Que bonito! – gritou Tomás escancarando a porta. 

     -Pe… – começou a balbuciar um aluno. 

-Calado! Seus lixos! Vocês querem fazer dessa escola a casa de vocês? Que imundície, que vergonha! Tenham vergonha! – o rosto dos alunos expressava extremo medo – Você, saia daqui – disse para um, e para outro – você, fique. 

-Tomás, por favor… – começou a dizer o que foi mandado embora. 

-Vá! – esbravejou Tomás, como que possuído pela própria Fúria. 

O menino correu e Tomás voltou-se para o aluno abandonado, segurando com firmeza em seu ombro e dizendo em voz suave: – Sabe o que aconteceu com o Conrado? 

-Não. 

     -Não o quê? 

-Não sei.  

-Tem certeza? 

-Soube que…perto do banheiro feminino, levaram ele para lá. Soube que não bateram, só avisaram. 

-Avisaram o quê? 

-Que ele fez algo de errado, eu não sei o que houve. 

-Então nem encostaram nele? 

-Não. 

  -Entendo – Tomás colocou o aluno contra a parede e aproximou-se tremendamente sobre ele – Que eu não te encontre mais fazendo essas coisas. Isso é pelo seu bem, entende isso? – o aluno não conseguiu dizer nem uma sílaba – Entende? 

-Sim, a culpa é minha – respondeu quase que em um sussurro. 

-Pode ir. 

Tomás gostava do seu papel no Liceu. Era sua função ordenar a escola, sua missão tornar o Liceu um grande colégio novamente. Para cumprir essa missão, faria tudo que estivesse ao seu alcance. Os alunos, os professores, e a maldita Helena seriam reles obstáculos. Mais um pouco, mais um pouco e ele conseguiria. 

  -Seu Tomás? – disse o guarda da escola – Tudo bem? 

-Ô, seu Sérgio! – disse Tomás em um sobressalto – O que faz aqui homem de Deus? 

-Vigiando, seu Tomás, esses meninos vêm fazer esculhambação aqui por cima, nas salas lá de baixo. A Helena pediu para eu circular até os professores irem para as salas se apresentarem. 

-Muito bem, muito bem – Tomás recuperou a respiração – Seu Sérgio, sabe me dizer se houve algo com o Conrado? 

-O presidente? 

-Ele mesmo. 

    -Ah, seu Tomás, coisa terrível! – Sérgio abeirou-se – Nem lhe conto…uns rapazotes pegaram o garoto e puxaram ele para perto do banheiro das meninas. Como todo mundo estava no refeitório viram ele sendo levado para lá, e foram atrás para ver a situação. Gritaram, ameaçaram, e o Conrado estava quase chorando porque um dos rapazes ia lhe dar uma paulada, mas eu me aproximei e os malandros foram embora. O Conrado passa bem, seu Tomás, fique tranquilo. 

     -Sabe me dizer o por quê? 

     -Do quê? 

     -Para eles terem pegado o garoto e ameaçado.

     -Não sei seu Tomás, não sei. Deve ser por causa de mulher. Já viu a namorada do Conrado, não viu? 

-Já sim. 

-Pois é, seu Tomás, as pessoas crescem o olho. 

-Verdade, seu Sérgio, crescem até demais. Vamos indo? 

Caminharam juntos até a escadaria, de lá Sérgio seguiu com sua vigilância e Tomás parou de pé observando o pátio e pensando como era burra a hipótese de a fonte da briga ter sido a namorada do Conrado. Se houvesse alguma coisa envolvendo essa garota era para ter sido Conrado ameaçando alguém, e não o contrário. Sérgio era um mentiroso, mas útil para Tomás. Poderia usá-lo no futuro e depois descartá-lo. Por hora, tinha de descobrir o que realmente tinha acontecido. 

      -Quer ajuda Tomás? – perguntou Viviane, uma das alunas mais inteligentes do Liceu. 

-Para quê, dona Viviane? 

– Para descer. 

-Me pergunte isso de novo e providencio sua expulsão. 

-Sabe que não disse por mal. 

-Sei. Agora vá. 

Viviane foi-se e Tomás desceu, custosamente, em busca de Conrado. Encontrou-o sentado perto do banheiro feminino, com Júlia e uma moça ao seu lado. 

-Conrado! O que houve?

       -Sei tanto quanto você, Tomás. 

-Não me venha com essa. Soube que foi agredido. 

-Não fui, e se tivesse sido não contaria. 

-Conrado, para o seu bem é melhor contar. Podemos te ajudar. Eu posso te proteger. 

       -Agradeço do fundo do meu coração, mas recuso. Fora das jaulas dos professores e coordenadores o Liceu é uma selva. 

-Se é uma selva você precisa de força, da nossa força e apoio para ficar bem. 

-Eu costumo dizer que só o poder separa os homens dos leões. Os leões têm força para reinar sobre a carniça, mas os homens têm poder para reinar sobre outros homens. 

-Meu Deus, Conrado, veja o que está dizendo! Sua vida está em perigo! 

 -Está muito nervoso, Tomás. Calma, tudo irá resolver-se. Agora, preciso fazer o discurso de recepção. Juno, vem comigo? 

-Sim. Vamos, Shérida. 

“Que desgraçado!” pensou Tomás “Esse moleque que ainda mija nas cuecas se acha o quê? Indo discursar, estrelando…em breve…em breve ele irá me pagar por essa…! Em breve serei eu discursando, e o palanque será a carniça dele.” 

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