1ª Eucaristia: Segunda Parte

Acordei com o estalo de fósforo acendendo. Um calafrio intenso perseguiu minha espinha; tanto pelo frio, quanto pelo ambiente que se surgia diante dos meus olhos com a luz fraca das velas. O cemitério nos rodeava. Eu estava em cima de uma catacumba. Não estava amarrado, nem nada do tipo. Poderia correr a qualquer momento, mesmo com três caras me encarando. Não entendi nada. Onde estava o quarto?! Aquele cheiro estranho inundou meu nariz novamente.

– Por que eu tô aqui? O que vocês querem? – quebrei o gelo – Calma, espera só o Tadeu chegar – respondeu um dos homens –, o Luís foi buscá-lo – concluiu. As velas se apagaram. O fósforo estalou novamente para acendê-las. Chama menos atenção do que essas lanternas, comentou outro homem do grupo. Aos tropelos, vinha seu Tadeu arrastado pelo quarto homem, num dos diversos corredores do cemitério. Fomos colocados frente a frente. Separados apenas pelo saco que ele havia me dado mais cedo. Uma risada aleatória deu lugar a uma tosse pigarrenta do velho coveiro. O ambiente não ajudava nenhum pouco. Meu medo não se dissipava. A tensão me consumia por dentro. Por fora, um controle forçado imperava. Com uma voz rouca, o velho bodejava palavras inaudíveis, até ser cortado pelo cara que lhe trouxe até ali.

– Vamos velho, diga quem te mandou entregar essas fotos? E porquê mandou entregar logo ao Mariano; por qual motivo estão tentando incriminá-lo?!

O homem desamarrou o saco, retirou a caixa e jogou as fotos em cima da catacumba onde eu me encontrava. Nelas, a imagem de várias crianças amordaçadas. Entre as polaroides, a fotografia das que haviam passado no noticiário da manhã. Estavam todas num quarto mal iluminado, num chão de cimento queimado. Todas pareciam ter a mesma faixa de idade. Peguei uma das fotos na mão, aproximei dos olhos. O fundo dela se deslocava um pouco. A única que destoava. Parecia ser a sacristia da capela. O chão era de madeira e quase sumindo do enquadramento a estátua de São José se tornava cúmplice dos atos, sejam eles quais fossem. Isso é na capela? Perguntei. Isso é na capela!!! Gritei. Voei em cima de seu Tadeu, calado, me encarando. Ele cospe na minha cara.

– Sua mãe deixou esse saco lá. Eu só quis entregar de volta. Eu só enterro gente. Não mato.

O sangue se mistura com a saliva no meu rosto. O disparo atingiu bem a cabeça de seu Tadeu, e eu inclinei para trás em desespero. A vontade de correr chegou na minha mente, mas não desceu para as pernas. Os homens ajeitaram o corpo do velho no chão, e colocaram as fotografias junto a ele. Certamente no raiar do sol o encontrariam ali, e as provas do crime. Eu não emanava uma reação. Desta vez meu falso controle dava lugar a paralisia pela situação. Os homens que não se ressentiam em mostrar o rosto e matar alguém bem na minha frente, não me explicavam a natureza daquele sequestro. O homem com a arma de fogo na mão disse estar investigando aquilo a algum tempo. Sacam os distintivos, e se denunciam como policiais. Ou milicianos. Eles tinham sido contratados como matadores de aluguel. Mas antes resolverem entender o que estava por trás daquilo. Só então iriam achar um culpado e sentenciá-lo. Como um velho desses, que passa vinte e quatro horas por dia nesse cemitério pode raptar esse monte de crianças?! Pensei em voz alta. Eles respondem com um óbvio “exatamente”. Depois de armado o flagrante, mandam eu ir para casa. Era tarde da noite de sábado. Provavelmente domingo. Segui pelo terreno baldio. Arrudiei pelos fundos da capela, evitando ser visto. Depois de alguns minutos, sigo algumas quadras até chegar no centro. Avisto a igreja. Saco as chaves do meu bolso e entro pelos fundos da sacristia, pela porta da secretaria que dá acesso. Eu precisava ter voltado ali mais cedo. Dou de cara com a bolsa de material didático de Henrique e Bruna para início da catequese na manhã do domingo. Saio. Tranco a porta. Retiro meu celular da bolsa.

– Alô, polícia?! Gostaria de fazer uma denúncia.

Na próxima terça-feira, a última parte do conto. Prometo.

Leia a primera parte.

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