O filho da Chica Bêba

Uma fofoca gostosa de se ler

Iii, lá vem a Chica Bêba – disse o Seu Zé da Bacurinha.

Essa mulher não tem jeito mesmo – completou Socorro da Butique, enquanto saía da vendinha do Zé da Bacurinha, depois de uma demorada compra detrás das prateleiras.

E ela foi subindo e sumindo no Alto do Barro, toda descabelada e tonta, de longe dava para sentir seu odor, uma mistura de álcool e mijo, que subia e espalhava-se pelo ar. Chica Bêba era trabalhadeira, durante a semana batia de porta em porta no Bairro Lameirão, oferecia suas mâos para qualquer serviço; lavava roupas dos outros, cozinhava e varria chão. No sábado, depois de trabalhar a semana toda, ia pro Forró da Jacinta. Lá ela dava seu corpo para qualquer serviço; dançava, cantava e farreava. Se enchia de pinga e sempre lembrava de seu falecido marido:

– Aquele amaldigoado deve tá queimando no fogo do inferno essa hora.

Chica Bêba era viúva por mérito, matou seu marido com uma facada enquanto ele tentava violentá-la. “Foi um ladrão que invadiu a casa para roubar, ele tentou proteger a casa e acabou levando uma facada do bandido” – contou ela para polícia. Por mais que a história parecesse mal contada, esse caso não interessava muito para a polícia, pobres miseráveis, não tinham nada para se manterem, quanto mais para serem roubados. Todos desconfiavam de Chica Bêba, principalmente por ela já ter registrado diversas queixas contra ele antes, mas a investigação foi encerrada e arquivada.

Chica Bêba chegou em casa, descalça, silenciou os pés, para não acordar Jerode, seu único filho. Para a sua surpresa, Jerode já estava acordado:

– Mãe, a senhora só agora chegou? parece que exagerou na bebida de novo

– Vou merendar e já vou ter que sair, vê se toma um banho e vai dormir. Se cuida mãinha!

Envergonhada, foi perambulando pelo corredor como uma moribunda e entrou no quarto, armou a rede e se deitou do jeito que tava. Jerode tomou o café que ele mesmo fez, pegou uma bíblia, colocou debaixo do braço e foi para a missa.

*

Lá vai o filho da Chica Bêba, esse parece que tem mais juízo que a mãe – disse Mauro dos Pão.

– Mas parece que esse menino queima a rosca, parece uma menininha andando – completou Tonho Galo, depois de comprar um cacetinho quentinho do Mauro dos Pão.

E lá foi ele subindo o Alto dos Bodes, cheiroso e penteado, rebolava a bunda para lá e pra cá, e com a bíblia debaixo do braço. Jerode era dedicado e delicado! Durante a semana se debruçava sobre os livros e escrevia vários contos e poemas; estudava e estudava. No sábado se juntava com uns cabeçotes da sua idade e jogava RPG até tarde na pracinha da cidade. No domingo de manhã ía para a missa e a tarde lecionava no catecismo da paróquia.

Jerode cresceu, estudou, estudou e daquela cidade sumiu. Foi para a capital e lá se assumiu. Deixou sua mãe e lá foi viver sua vida. Não queria ser lembrado apenas como o filho da Chica Bêba. Mas ao mesmo tempo também não queria deixar sua mãe de lado e para sua terra pensava em voltar.

– Você viu quem passou? A Chica Bêba, toda arrumada. Onde será que ela vai? – Perguntou o João da Net.

– Parece que ela vai para a formatura do filho na capital. Acabei de ver nos stories dela – disse Maria Confeiteira, depois de conseguir acessar a internet, após João da Net ter consertado o sinal da sua casa.

E lá foi Chica Bêba, subiu no ônibus, toda linda e bem vestida; animada, estava orgulhosa pelo seu filho, finalmente o veria, depois de muito tempo fora de casa. Será que ele voltaria para aquela cidadezinha?

Olhando pela janela do ônibus, veio em sua mente lembranças de quando Jerode era criança, estavam felizes brincando no quintal, Chica ainda nao era bêba, seu marido ainda era vivo e nela não batia não. Onde tudo comegou a dar errado? Se questionou, enquanto o ônibus partia e levantava poeira no estradão.

Um comentário sobre “O filho da Chica Bêba

  1. No bairro em que morei parte da infância, conheci personagens mais ou menos parecidos com a “Chica Bêba”, interessante e triste pensar que em algum momento as coisas começaram a desandar até que eles se tornaram alvos frequentes das maldosas fofocas e também passaram a agir de modo prejudicial para si mesmos. Mas me diverti lendo, lembrei dum sinhô da bodega que falava pra todo mundo no bairro sobre mim, fofoqueiro demais. KKKKKKK

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