AS AVENTURAS DE JAQUELINE VIANNA DA GLÓRIA – THE MISSING GIRL

Acordou num pulo, com a dona da casa dizendo que elas já iam sair. Estava morta de sono, com o bucho ainda forrado da janta do dia anterior: batatas enormes, ervilhas e um pedaço de frango suculento embebido num molho gostoso e cheiroso, mas do qual não reconhecia a procedência. 

     Não tomou banho, porque diferente da maioria das noites dormidas até aqui ela não tinha suado uma gota, mas escovar os dentes não matava ninguém. Pelo contrário: evita. Desceu as escadas atapetadas e deu de cara com o dono da casa. Mudança de planos: ela demorou tanto que agora era ele que iria levá-la à escola. Infelizmente, só a dona da casa dirigia, e ela teria que dar uma boa caminhada até a estação de trem. Exagero, eram só 3 ruas de distância; por aquelas bandas tinha uma estação de trem em cada bairro. 

  Já na estação, o dono da casa lhe chamou a atenção e disse algo mais ou menos assim: Moorfields… desça em Moorfields… sem perigo… sem problema… Moorfields, ok? – E soltou um grande sorriso, enquanto lhe empurrava de forma mui paternal para o trem que acabava de chegar, e em seguida, pegou o beco. O bom era que o trem era quentinho, e tinha muitos, muitos assentos vagos; chegou a pensar que a cidade estava semi-deserta. Outra coisa boa era que a “voz de robô” avisava em qual estação estavam e qual era a próxima, assim, não foi difícil descer em Moorfields. Só que em Moorfields ela se atrapalhou toda, porque após demorar muito para achar a saída ainda teve de pagar a passagem do trem (ela não esperava que fosse gratuito, mas pelo amor, o dono da casa não podia ter avisado?), o que a deixou constrangida graças aos olhares dos guardas. 

     Do lado de fora, no momento em que pôs o pé esquerdo na rua sentiu uma ventada lhe bater o peito e adentrar, gelando os pulmões. Ela era calorenta, e por isso tinha saído só com sutiã de renda, uma regata branca e um blusão grosso que chegava até os pulsos. Meteu a mão no bolso da calça jeans e puxou o endereço da escola, enquanto xingava o dono da casa por não ter lhe acompanhado no primeiro dia de aula e a si mesma, por não ter sido mais rápida para acompanhar a dona da casa; depois ainda xingou a dona da casa, por não ter lhe esperado o mais que fosse no seu primeiro dia de aula. 

  Usou o celular para encontrar o caminho da escola, e seguiu por ruas com prédios que pareciam das antigas, feitos de um tijolo vermelho-sangue, e também vários restaurantes enfeitados de diversas bandeiras como da Itália, Turquia, Irlanda e Arábia Saudita, entre diversas outras, mas nenhuma francesa.  Passou ainda por uma ruela toda coberta por guarda-chuvas de tantas cores para além do arco-íris. O frio era tanto que ela andava se abraçando, se agarrando de uma ponta a outra, tentando cobrir as mãos com as mangas do blusão; e apesar da frieza, dia mais perfeito para secar roupa não podia ser pedido, e só se deu conta do quanto estava ensolarado quando na frente de um espelho de loja de vestuário (entrou para roubar wi-fi e olhar o mapa online da cidade) viu sua face vermelha como um tomate. 

  Enfim, estava perdida, e agora caminhava encarando os transeuntes, buscando em olhos desconhecidos um pouco de conforto. É sabido que alguém sempre chega atrasado para o primeiro dia de aula, mas geralmente são os bobões, o que ela não era. De tanto encarar foi encarada de volta por um mendigo barbudo e com dentes alaranjados de  podres, que disse: – Change!

      Ela pensou: “Change? Mudar o quê?”. 

 Balançou a cabeça afirmativamente e respondeu: – Change! 

    Continuando a friorenta jornada ainda deparou-se com outros dois mendigos, e um deles disse: “Change!” e outro:”Change, please!”.

   Sua mente continuava: “Mudar? Mudar a mim mesma? Mudar o mundo? Talvez seja isso, por essas bandas até os mendigos têm consciência de classe!”. Mas ela não sabia o que dizer, melhor dizendo, ela não sabia como dizer o que precisava dizer, ou seja, pedir socorro. Ainda andou um monte e dando-se por vencida parou um senhor no meio da rua, e com muita desenvoltura fez mímica, apontou para o endereço e soltou um choroso “help”.

  O homem de pele preta, com barba rala e um casaco cáqui lindo devia ter uns 40 anos. Se prontificou a ajudá-la de imediato, sempre respondendo aos seus agradecimentos constantes e pedidos de desculpas com um “no problem” que parecia muito com um “ah, beleza, tô nem aí”. Andou pelo menos uns 32 quarteirões ao lado daquele homem, quando ele parou e comprou uma latinha de coca-cola de uma máquina no meio da calçada, e continuou andando mais 9 quarteirões (passando em frente à estação de trem Moorfields), quando finalmente chegou numa praça cercada por leões de pedra. O homem do belo casaco cáqui tentou lhe explicar que a escola era após a praça, mas ela não entendeu nada; ele mui paciente conduziu-a de forma quase paternal até a escola. Da porta, ela curvou-se de maneira nipônica em agradecimento, mas o homem do belo casaco cáqui já um tanto desinteressado tinha pegado o beco.

Enquanto entrava perguntou-se como iria explicar o porquê estava atrasada, afinal, como é próprio dos religiosos ela sabia afirmar, negar, podia até interrogar algumas coisas, mas não tinha capacidade quase nenhuma para explicar. É nestes momentos que ela sentia mais saudade, porque ainda que a quentura da terra natal a deixasse mais vermelha do que estava, era um vermelho confortável… era um vermelho conhecido. Em casa não precisava fazer mímica para nada, conhecia cada pedaço da cidade, era ela quem ajudava os outros.

     E se ela batesse o pé na quina? Como ela ia explicar que tinha rasgado o xaboque do pé? Como ia traduzir xaboque?

  “Change!”, sim, sim, eu posso mudar! Eu consigo!

     Na recepção da escola a supervisora dos estudantes brasileiros estava lhe esperando, de início com cara de preocupada, mas logo abrindo um sorriso. Confortou-a, deu água e ofereceu assento. Um senhor da careca branca e vestindo calça e camisa preta (o diretor) passou sorrindo: Oh, the missing girl!

     Ela sentiu que ele estava frescando, só podia estar frescando. Fazer o quê? Moorfields estava a 3 ruas de distância da escola e ela estava mais de 3 horas atrasada. 

      Ela decidiu rir de tudo aquilo, frescar consigo, principalmente quando um conterrâneo lhe explicou que “change” é trocado, troco, e diferente de suas conclusões filosóficas que geraram reboliços existenciais, os mendigos nada mais queriam que algumas moedas. 

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