Estou em casa agora

Exatamente às 22:00 horas, na tentativa de controlar os horários dos sonos perdidos, resolveu deitar. Acreditava viver em um loop temporal infinito, sua mente não distinguia mais o Sol e a Lua, o corpo fraco quase desmontando doía com simples movimentos. Às 2:00 horas abriu os olhos com o barulho de seu cérebro, parecia acordar de um pesadelo, sentia frio mas suava, viu a necessidade de sair da cama e deitar no chão. Mesmo gélido era confortável, remexia procurando a melhor posição, olhar fixo no teto escuro, contava para si as histórias despercebidas. Ali, na companhia da própria respiração adormeceu, para levantar e reviver a cena mais uma vez.

Enquanto fazia de sua vida ao que remete testes falhos de sobrevivência, circulou pela casa refazendo as tarefas do dia anterior, e numa tomada de consciência reconheceu a alienação. A frustração e o cansaço deram espaço a fase inicial do desespero, primeiro sorriu como nunca o fez, posteriormente chorou para assim gritar até sua garganta não emitir som. Ao sentar no sofá, vasculhou os papéis de contas acumuladas na mesa do centro, reparou na foto com os pais a direita e a esquerda a carta de demissão. O pânico junto à raiva fizeram seu corpo tremer, olhou para baixo e deitou rapidamente.

De olhos fechados memorizava o intervalo entre o inspirar e o expirar, era curto demais, o oxigênio escapava e a lágrima escorria. Relembrou de sua infância, o cheiro do café de sua mãe que tranquilizava, e mesmo que não conseguisse levar o líquido aos seus lábios sentia-se feliz. 20 anos havia se passado, e agora precisando encarar a geladeira vazia e a cozinha apertada pensou em desistir. Apanhando os cacos de vidro que deixara cair no momento de sua crise, percebeu que seus pais jamais consentiriam o perdão, portanto, deixar-se levar pela fraqueza dos últimos tempos estava fora de seus planos, antes com dívidas do que com a decepção daqueles que amava.

A casa que era pequena costumava ficar ainda menor com as visitas que sempre recebia, faz um bom tempo que aquele lugar tornara-se grande demais para uma única pessoa, que há dois meses não via ninguém. O celular não parava de vibrar, todas as manhãs enviavam-lhe as metas concluídas da quarentena, perguntava-se se mais alguém além de si não tinha ânimo nem para comer. Ora, seria um luxo pensar assim, a verdade era que o dinheiro lhe faltava, depois da dispensa da empresa esvaziou a poupança, em poucos dias cobrariam o aluguel.

Recebera mensagem de um amigo, disse que tudo corria bem, a mentira misturada ao medo de notarem que fracassara como pessoa era maior que o desejo de desabafar. Ligando a tv atualizou-se dos fatos, nada bom novamente, questionava-se sobre o até quando e se tinha como piorar. Não suportando a descarga de notícias ruins, desligou o aparelho e recorreu a sua cama, companheira das jornadas de agonia. Na quietude do lugar, vagou pelas memórias de uma era corriqueira, abriu espaço para a melancolia deixando seu corpo inerte, não sabia mais como se mover.

Em um ato de angústia e receio tentou virar indo em direção daquilo que lhe acalmava, a baixa temperatura ao invés de fornecer prazer como nas outras vezes, enviou-lhe a um estado de desconexão. Ao deparar-se com um mundo de pó e tormento corrigiu-se de que a dificuldade pode aumentar, e que deveria aprender o quanto antes a desenvolver liberdade em seu espaço e tempo. Foi quando alguém tocou a campainha, não esperando que algo fora da rotina acontecesse caminhou devagar, chegou perto da maçaneta e disse:

− Por favor, toque mais uma vez.

ESTOU EM CASA – Grupo de Artes Edson Queiroz – GATEQ ( ALUNOS QUE INSPIRAM 2020)

Vídeo realizado por estudantes da EEEP Edson Queiroz sob orientação do professor de Artes Leudo Duran para a I Mostra Alunos que Inspiram Web Cultural em formato de teatro.

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