1ª Eucaristia

O café esfriava em cima do balcão da cozinha americana enquanto via o plantão de notícias na TV local. Aparentemente um homem havia matado duas crianças colocando-as dentro de sacos ainda vivas enquanto o ar as deixava. A voz embargada da repórter denunciava com destreza, mesmo com aparente nervosismo, o que teria sido um ritual de seita satânica. Levei imediatamente a mão a cabeça e fiz o sinal da cruz.

– É mesmo o fim dos tempos, misericórdia! – Soltou minha mãe. Ela se arrumava e separava os livros que iria levar para catequese. Hoje era o último dia da sua turma para a primeira eucaristia que acontecia na missa de domingo. Estava orgulhosa. Beberiquei o café ainda morno e desliguei o telejornal. Coloquei uma blusa bege, calças e uma sandália de couro nos pés. No espelho tive a certeza de que ir na barbearia naquela manhã de sábado foi uma decisão acertada. Tranquei todas as portas e janelas da casa. Antes de sair coloquei minha bolsa que sempre deixava preparada em cima da cama, suspendida com a alça no meu ombro. Caminhei até o fim da rua, e a cada casa que passava os vizinhos acenavam. Bom dia! Bom dia! Na esquina seguinte fui até a casa de Henrique e Bruna chamá-los. Os dois formavam um casal lindo, embora Henrique fosse um cara extremamente mau encarado.

– Você precisa aprender a abrir ao menos um sorriso se realmente quiser assumir a nova turma de catequese – comentei – Cara, eu nem gostar de criança gosto. Tô indo mais por causa da Bruna – respondeu ele, enquanto a namorada lhe dava um socão no ombro – Não liga pra ele Mariano – interviu ela. Continuamos caminhando até chegar ao centro. De longe avistávamos a torre da igreja. Entramos pela lateral e nos benzemos diante do Santíssimo ao lado do altar. Na sacristia designei para os dois a turma que ficariam naquele ano. A faixa etária das crianças mais novas ficavam sempre com os novatos por não terem experiência, no intuito de não serem abordados por questionamentos que ainda não sabiam responder. Com o tempo aprenderiam. Deixei os dois conversando e fui para a barbearia. Quando atravessei a rua e dobrei a esquina lembrei da minha bolsa. Voltei correndo e um carro brecou em cima de mim. Os caras que estavam dentro do corsa preto me olharam de forma maliciosa e desviei o olhar. Bati na porta da sacristia. Esqueci a bolsa. Notei um certo desconforto dos dois ao me reverem. Acho que tinha atrapalhado algo. A calça de Henrique tinha um volume expressivo. Notei ao sair da igreja. Fingi não entender. Ultimamente coisas assim aconteciam, boatos rondavam o entorno da paróquia, quase sempre emergiam das conversas de corredor antes dos encontros de cada pastoral, ou noutro cronograma qualquer da igreja. Eu fazia vista grossa. Não podia fazer nada. Quem tinha poder e dever moral pra isso se omitia. Caminhei algumas quadras até chegar no terreno baldio que ligava um bairro ao outro; do lado, uma das nossas capelas e o cemitério do distrito. Parecia escutar barulhos sem forma toda vez que passava por lá. Minha mãe dizia que eram os corpos recém enterrados inchando e estourando por conta da quantidade de formol usada pro velório. Aquele cheiro semelhante ao álcool invadia minhas narinas, e eu corria para evitar o odor forte. Talvez fossem as crianças do jornal. Distrai o pensamento com o aceno do coveiro da capela.

– Opa, seu Tadeu. Como vai?!

– Tudo indo meu filho. Sua mãe esqueceu um pacote aqui na capela. Você num quer levar? Evitar que a velha ande até aqui sem necessidade – Assenti com a cabeça. Segui seu Tadeu até a porta. Ele largou a pá na calçada de cimento da capela e passou a mão na testa pingando suor. Mãos que enterraram gente durante quase toda a vida. Pessoas de tudo que era tipo. Com essas mesmas mãos ele me entregou um saco, palpei pra tentar sentir o que havia dentro, mas não consegui discernir nada além de uma caixa. Na sacola amarrada com barbante, um asterisco vermelho parecido com uma cruz costurado nele. Mamãe e suas doutrinas. Agradeci a seu Tadeu e segui meu caminho para a barbearia.

Andando algumas quadras, avistei de longe na porta do salão, e algumas pessoas saindo do estabelecimento. Finalmente um dia não tão lotado. Ainda teria que voltar pra igreja. Entrei e o cabelereiro atendia outro cliente. Sentei e aguardei minha vez, quando o corsa preto riscou no chão terra do lado de fora da barbearia. Desceram quatro caras e um deles bateu a porta com força, deixando o som da música que tocava abafado. Um deles se dirigiu ao espelhou, ajeitando o cabelo e de esguelha olhou pra mim. O desconforto bateu e desviei o rosto ajeitando minha bolsa nas pernas.

– Almir, mais tarde eu volto tá bom?! Acabei de receber uma mensagem aqui, preciso ir ajudar uns amigos na catequese. Eles começaram hoje.

– Tá certo, Mariano! – respondeu o barbeiro. Levante-me e saí caminhando o mais depressa possível. Caras estranhos, pensei. Adentrei o terreno baldio, e seu Tadeu continuava lá, pingando suor, chapéu de palha na cabeça e as calças sungadas até a canela. Não sabia que além de coveiro, também tinha de capinar aquele mato grosso ao redor do cemitério. Um som estridente de música invadiu meus ouvidos, em seguida, o acelerar de um carro tomou espaço. O cavalo de pau dado na minha frente levantou a poeira quase inteira do terreno. Num segundo, dois caras desceram do veículo e cobriram meu nariz e boca com um pano, no outro eu já estava no chão, perdendo a consciência. Socorro seu Tadeu! A voz não tinha força pra sair.

Segunda parte do conto na próxima terça-feira.

4 comentários sobre “1ª Eucaristia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s