O LICEU

  Foi apressado cobrir a xícara de café com a tampa da cafeteira. Estava atrasado, irritado, ansioso e acometido por mais um turbilhão de sentimentos e hormônios. Mal conseguira dormir de tanto verificar e reverificar a mochila. Tomou banho, lavou os longos cabelos, vestiu-se rapidamente e foi tomar café. Quinze longos minutos se passaram sob o olhar rigoroso de sua mãe, cada mordida no pão era respondida por um grito. Verificou a mochila por uma última vez, foi escovar os dentes e reverificou a mochila por uma última vez. Estava pronto para sair de casa e dominar o mundo, um mundo que algumas ruas à frente era tão desconhecido quanto foi o espaço para os cosmonautas. 

    Saindo de casa com uma benção divina encaminhou-se direto para a parada de ônibus. Com ele percorriam o mesmo caminho os trabalhadores que pagariam com suor o salário de cada mês. Depois de um tempinho esperando veio o ônibus, lotado e pronto para receber mais trinta pessoas. Mesmo com todas as janelas abertas o calor era tremendo. A jornada seria em pé, acabou que sentadas só estavam as velhinhas, indo buscar suas aposentadorias, passear no centro da cidade e pagar as contas dos filhos. 

  Em meio aquele amontoado de gente, em pé, tendo que segurar com força nas barras, começou a sentir um odor azedo. Olhou para o lado, tinha uma moça. Olhou para o outro, tinha outra moça. Olhou para frente, tinha uma velhinha cochilando. De onde vinha o odor? Mas o pior foi que em seguida um cheiro brutal invadiu suas narinas. Era uma mistura de urina, suor e fezes, tão forte que incitava uma ânsia de vômito. O motorista estacionou, desceu e subiu pela porta de entrada. 

    -Ei cara, poxa vida, coopera aí meu irmão! – disse o motorista. 

    -Eu tô na minha, não tô fazendo mal a ninguém. – disse um mendigo. 

    -Tá fedendo cara, podre, pior que esterco. – o mendigo não respondeu – Se for pagar a viagem pode continuar ou então chamo a polícia. – o mendigo não respondeu, o motorista deu um chute na porta e gritou: – Rápido! Desgraçado, tenho mais o que fazer! 

O mendigo desceu; o motorista desceu, subiu e a viagem continuou.  

    Os braços magrinhos já não estavam mais aguentando segurar nas barras, estava com as costas molhadas, os cabelos pareciam formar um capacete e os pés estavam assando como sobre uma frigideira. 

    Um senhor de meia-idade, fardado, com um bigode bem feito, perguntou: – Ei garoto, você estuda onde? 

    Eu? No Liceu. – respondeu o garoto – Por quê? 

    -Já era para você ter descido. 

    -Sério? 

    -Sim, sério. Então, não vai descer? 

    -Vou, vou sim! 

  -Pois dê o sinal! 

    Dado o sinal o ônibus parou, e após uma peleja tremenda o garoto conseguiu descer. Estava em algum lugar do centro da cidade, ao redor transitavam muitas pessoas. Viu uma loja e foi pedir informações. 

    -Siga direto e na primeira vire à direita, depois de três ou quatro ruas você chegará ao Liceu, depois da pracinha. Não tem como errar. 

    Seguiu direto, virou à direita, passou por um prédio gigantesco, algumas instituições públicas, comércios e depois de um restaurante viu abrir-se na esquina a imagem de uma praça cercada de pilares, com árvores majestosas que tornavam o ambiente mais fresco, o ar mais puro e que abrigavam quem passava por lá como as mães abrigam seus filhos. 

    Como o sinal estava fechado em direção à praça caminhou mais um pouco, observando-a, e olhando um pouco mais além, viu o Liceu.  

    -Ei! Quer um salgado? 

-O quê? – percebeu que havia uma lanchonete ao seu lado – Quanto é? 

    -Dez centavos o salgado – disse o atendente da lanchonete – E vinte e cinco um caldo de cana. 

    -Bom, me dê três salgados e um caldo de cana. 

    -É pra já, meu patrão! 

    Logo após responder, o atendente estava com os salgados e um copo cheio de caldo de cana para entregar. 

    -Bom apetite, e boas aulas! 

  -Obrigado! – respondeu como que em uma tossida. Os salgados não eram pequenos, devorou-os rapidamente, e como nunca tinha tomado caldo de cana bebericou vagarosamente até sentir na língua um sabor do qual não gostou nem um pouco. Cuspiu, na maioria sua própria saliva impregnada com o sabor do caldo. Ia tentar de novo. Tanta gente tomava, por que ele não tomaria? Aproximou o copo da boca, o copo dos lábios, quase aproximava da língua, porém uma força extraordinária arrebatou o copo para longe. 

 -Meu Deus! – gritou, assustadíssimo.  

    -Você quer morrer? – gritou uma moça, encarando-o seriamente. 

    -Morrer? Você quase me mata do coração! – respirou profundamente – O que foi? 

    -Cara, isso é um veneno! Talvez você não morra hoje, né, quem sabe, mas a morte vai acabar te alcançando, ainda que ela demore, ela vai te alcançar se você continuar tomando isso. 

    -Foi a primeira vez que tomei. 

    -E que seja a última! – a moça sorriu – Vai estudar no Liceu? 

    -Sim, meu primeiro dia. 

-Legal! Seja bem-vindo. A escola é muito legal, cheia de doido, mas tenho certeza que vai gostar. Já tem amigos aqui? 

    -Não – respondeu cabisbaixo. 

    -Vai fazer! Qualquer coisa te dou uma mãozinha – ela olhou para ele de ponta a ponta – Inclusive meu nome é Júlia, mas todo mundo me conhece por Juno. Qual o seu nome? 

-Meu nome…é…Marcos. 

    -Quase não sai! – riu-se. Marcos se sentia profundamente intimidado, não sabia se era pela beleza ou se era pela personalidade da moça. Para ele aquela era uma anja, perfeita, que não merecia tocar os pés neste mundo sujo e corrompido. Apesar de ter acabado de conhecê-la seu coração já havia sido tragado, como o coração de muitos antes e depois dele. 

    Juno! Juno! Vai começar! – apareceu uma moça gritando – Ele vai começar agora! 

    -Certo! – gritou Juno de volta – Já vou! – e virando-se, indagou Marcos – Você vem? 

    -Para onde? 

  -Para o Liceu ué – pegou nos ombros de Marcos e começou a empurrá-lo com bastante facilidade – Vamos! 

    Cruzaram a rua e passaram rapidamente pela praça. Marcos viu uma estátua com o rosto manchado, bancos, quadras desportivas e flores das mais diversas cores. Ele estava sendo empurrado tão rápido que quando menos percebeu deparou-se com o Liceu.  

    Imponente, erguia-se mais faustoso que os mais faustosos símbolos de poder. A surpresa lhe congelou a alma e o corpo. Juno perguntou: – O que houve? 

-É primeira vez que vejo o Liceu. 

    -Ah, entendi. Não tenha medo da escadaria, ela só tem tamanho. 

    -Não é isso, é outra coisa… 

    -Talvez seja o espírito que você está vendo – disse aquela moça que gritou avisando Juno sobre algo que ia começar – Shérida, e você é o? 

   -Marcos – respondeu Juno – E essas coisas são pura besteira. Não acredite nisso, Marcos. 

    -Quem diz essas besteiras não sou eu. 

    -Claro, você só dissemina elas. Então? Podemos entrar? 

    -Se demorar mais um pouco o Perninha vai nos pegar. 

    -Perninha? – questionou Marcos – Quem é? 

Shérida deu uma gargalhada: – Não se preocupe, vai conhecê-lo logo, logo.  

    E depois de conhecê-lo vai desejar não o ter conhecido – completou Juno. 

    -Tão ruim assim? 

    -Que nada, é muito pior! – responderam as duas em uníssono. 

    A escadaria estava cheia de estudantes, alguns extremamente animados, outros escondendo a ansiedade. Marcos percebeu que haviam pessoas de diversas idades, alguns com cara de adulto, outros com cara de criança. 

    Do último degrau, uma mulher altíssima os encarava. Ela disse com demasiada alegria: – Juno, minha querida! Shérida, minha linda! Como foram as férias? 

  Foi o de sempre – respondeu Juno. 

    Boas, foram muito boas, Helena. Descansei bastante, sabe? – respondeu Shérida. 

    Sei, sei sim, meu amor, mas veja bem, esse ano vai ser incrível! Muita tarefa, trabalhos, aulas de campo também…e você é de qual ano? – perguntou Helena apontando para Marcos. 

    -Eu…vai ser meu primeiro ano. 

   -Ótimo! Perfeito! Não sabe o quanto fico feliz, feliz mesmo viu, muitíssimo feliz de receber novos estudantes aqui no Liceu. São vocês que fazem tudo acontecer, e é por vocês que tudo acontece. Estou mentindo meninas? 

    Não! – responderam as duas rindo. 

  -Hum…enfim, muito prazer, sou Helena, diretora da escola. Qualquer coisa fale comigo.  

    -Falo sim. 

    -E Juno – se aproximou em tom seríssimo– Como será a recepção dos calouros? 

    -Boa. 

    -Vocês vão fazer alguma festa? 

    -Não estou sabendo de nada! Juro! 

    -Pois bem, se cuidem crianças – afastou-se para falar com outros estudantes na escadaria. 

-Ela parece legal – comentou Marcos. 

    -É, parece – disse Shérida. 

    -Ei! – gritou a diretora Helena e um frio tremendíssimo lhes correu pela a espinha que fez com que cada um tremesse – Vai começar o discurso, corram! 

    -Estamos indo! – gritou Shérida – Obrigado! Vamos, vamos, meu Deus, que susto! 

Um quadro de Cristo, com seu sagrado coração exposto recebia os que adentravam o Liceu. Havia um portão a direita, uma porta a esquerda com uma janela gradeada do lado, e uma porta no centro. Acima da porta central estava o quadro de Cristo. Depois da porta tinha um corredor que se abria para os dois lados, e uma escadaria à frente que se findava em um grande pátio. Além do pátio, se reuniam centenas de estudantes sob um…uma abóbada. Não, uma abóbada é arredondada. Bom, além do pátio, se reuniam centenas de estudantes sob uma estrutura retangular, telhada e sustentada por pilares.  

    Como que uma colmeia golpeada, o enxame de estudantes moveu-se para um espaço detrás da estrutura retangular, telhada e sustentada por pilares. Parecia estar acontecendo algo… 

    -Briga! – gritou Shérida, e Juno completou: – Corre! 

Porém a corrida era em direção ao possível enfrentamento. Quase que pularam o pátio na pressa de saciar a curiosidade, mas quanto mais se aproximavam da luz que atraía o enxame de vagalumes, mais difícil era de chegar até a ela. Empurra para cá, se espreme para lá, Marcos conseguiu chegar no foco. Aquela multidão estava reunida, em silêncio absoluto, observando dois estudantes altos e parrudos cercarem outro rapaz baixinho. 

    Um deles estava com um pau na mão, com os olhos vidrados, e babava enquanto dizia: – …agora vou ter que fazer o quê? Falando de mim para os outros! 

    -É o meu dever – respondeu o que estava cercado. O outro que o cercava, arrostava-o obsessivamente, sem nada falar e sem nada piscar. 

  -Da próxima vez que for falar de mim, vou partir tua cabeça em dois! Entendeu? – muitas gotas de saliva chegaram ao rosto do pequeno rapaz. Imóvel, parecia que não havia sentido aquele jorro de cuspe. 

    -Era meu dever – respondeu com uma voz firme, mas sem enfrentamento. Seu rosto demonstrava um vazio interrogativo, querendo saber o que iria acontecer, mas sem forças para agir com bravura ou covardia. 

    -Dever! – gritou, e logo limpou a boca na manga de sua blusa. Levantou o braço, encostou o pau na cabeça do pequeno rapaz, pressionou-a e disse: – Tá avisado. 

    A multidão observava ainda em silêncio, e após o pedaço de madeira ser jogado para longe, se dispersou. Foi aí que Marcos viu Juno ao seu lado, um pouco aflita, correndo para o cara que havia sido intimidado. 

    É irmão dela? – perguntou à Shérida. 

    -São namorados. 

    -Ah, pensei que…mas o que houve? 

    -Fica aqui. 

    Marcos ficou e Shérida foi conversar com os dois. Parado e sozinho sentiu novamente um odor azedo, aquele mesmo que sentira no ônibus. Levou a mão à axila e a sentiu molhada. Pensou, “calma, não tem ninguém ao redor.” Para lhe fazer companhia só tinha um gato preto e alguns pombos. Aquela multidão antes reunida para celebrar a opressão, voltou a dividir-se em grupos solitários repletos de indivíduos em busca de aceitação. 

3 comentários sobre “O LICEU

  1. Que massa, um descrição bem intensa de eventos que, infelizmente, podem ocorrer no ambiente escolar. Lembrei muito do meu primeiro dia de aula num colégio novo na nona série, uma ânsia por entender as dinâmicas que se apresentavam ao meu redor e uma confusão de informações e sentimentos logo no primeiro dia.

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