Ritual de Passagem

Eu não sabia mais o que fazer para tentar passar sem que as pessoas no fundo do jardim me notassem, já que minhas roupas não facilitavam. Usava um paletó azul-claro tendendo ao violeta, calça e camisa das mesmas cores em conjunto com uma espécie de chapéu-cartola. Detalhe para a gravata vermelha, semelhante a cor do sangue que se espalhava pelos meus braços, manchando a roupa que vestia. O estardalhaço de palavras se misturava entre os convidados. Garçons saíam com bandejas nas mãos. Um ar de orgulho pairava no ar. A ansiedade para a chegada dos noivos aumentava à medida que o tempo passava. O sol refletia no verde das plantas do amplo quintal, e repousava levemente no azul da piscina quase olímpica. E eu continuava atrás da parede de mármore na lateral do casarão cuidadosamente decorado para a cerimônia. O suor esbanjava sua altivez ao demonstrar controle sobre mim, e minhas mãos começavam a ficar trêmulas. Olhei atentamente até que os convidados voltassem em sua maioria para contemplar o púlpito ou se distraíssem com mais uma rodada de champagne. Acontecido isto, eu dei a volta pela frente da casa e enveredei à trilha de um pequeno bosque sem saída, onde cavei insanamente – numa velocidade realmente de se admirar – o chão o máximo que pude com as próprias mãos ao ponto de uma das minhas unhas quebrarem. A adrenalina não me fez sentir dor alguma, na medida que era insuficiente para encobrir minha aflição. Limpei o suor da testa, e o sangue e a terra misturaram-se como numa espécie de ritual fatídico. Guardei a faca no buraco profundo e o enterrei novamente, e de repente escutei um som de beijos e amassos, e uma pressão que fazia a cerca ranger dominava o ambiente acompanhada de gemidos femininos. Ajeitei o chapéu na cabeça e saí sorrateiramente, quando vi um casal transando, ainda vestidos. Arrodeei por trás das árvores e retornei para dentro da mansão. Abri a porta do quarto que dormia quando criança e o tranquei com as chaves que ficavam sempre no bolso do paletó ou da camisa. E fiquei em círculos andando de um lado a outro à procura de uma mala ou mochila. Eu não fazia ideia de onde ficavam minhas coisas. Já fazia tanto tempo que não entrava mais ali.  Tinha que me preparar para a fuga, pois logo achariam o corpo. Procurei dentro de todos os móveis e nas caixas em cima do guarda-roupas e embaixo da cama. Em uma delas encontrei uma fotografia quase corroída pelo tempo, – Minha mãe parecia tão viva nesse retrato nos fundos do bosque. Maldita hora que ela veio trabalhar aqui – então, escutei um grito, e de sobressalto coloquei a foto dentro do bolso no paletó. Corri para a janela. Lá embaixo, no jardim, algum bêbado havia caído na piscina. Ganhei um pouco de tempo, então continuei procurando, até que encontrei uma mochila embaixo do colchão da cama de solteira, onde minha mãe parou de dormir comigo poucos anos depois da mudança para essa casa. Era cada vez mais raras as noites que ela passava aqui comigo. Abri a bolsa e coloquei uma muda de roupa dentro, e junto, coloquei a fotografia que havia guardado no blazer. Olhei pela janela mais uma vez, e ainda estavam tentando salvar o bêbado do possível afogamento. Alguns garçons com as bandejas nas mãos, outros ajudando os senhores, as senhoras apenas estagnadas em completa perplexidade observavam a situação. Rapidamente desci as escadas com a mochila entre os braços, e quase esbarrei com um garçom. Diminuí o passo até chegar no outro lance de escadas, percebendo que não havia ninguém vindo, acelerei mais uma vez. O mestre de cerimônia adentrava a sala, em direção ao quarto de casal, enquanto eu me escondia na sombra da porta no início do corredor. Retornei pelo corredor e entrei rumo a cozinha, quando escutei dos garçons que estaria para chegar mais alguns fardos de bebidas. Entrei no almoxarifado, e procurei por alguma roupa extra dos funcionários. Em umas das prateleiras havia o avental e uma calça apenas. Peguei as peças de roupas e fui ao vestiário. Limpei as mãos o máximo que pude na parte do paletó que não estava manchada de sangue e vesti o avental e a calça. Abri a mochila e peguei a camiseta branca que havia pegado no guarda-roupas que tinha sido da minha mãe até os seus vinte e dois anos, e que depois passou a ser meu até os dezesseis. Coloquei-a, e joguei o paletó, calça, chapéu e camisa azul violeta no lixeiro próximo entrada do vestiário.  Guardei a fotografia no bolso do avental e abandonei a mochila e o restante da muda de roupa em cima da prateleira. Saí pela porta da cozinha enquanto os garçons estavam quase todos no jardim e os chefes de costas para a mesma. Corri desesperadamente em direção ao portão dos fundos, por onde viria o carregamento de bebidas. A respiração ofegante, um fôlego quase asmático, sopravam meu peito. O portão estava aberto, os seguranças e os garçons levando as últimas caixas pra cozinha. A oportunidade certa de passar pelo portão. Quando dou de cara com o motorista da van.

– Ei, o que você tá fazendo aqui?

– J-Já foram levadas todas as bebidas pra dentro? Estou quase sem ar de tanto carregar peso.

– É por isso que não se deve aceitar mulheres pra esse tipo de serviço. É você que vai prestar contas no depósito?

– É… sim, sou eu mesma. Uma hora as coisas tem que mudar não é verdade? – Um grito soa rasgando o silêncio no jardim, e contagiando cada vez mais convidados. Uma movimentação em direção ao casarão surge.

– O que é aquilo? – pergunta o motorista.

– Aquilo? Não é nada, deve ser só mais um bêbado que caiu na piscina. Vamos?!

– Tá bom, ué. Vamos. Essa gente não tem limites.

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