De Grão em Grão

Para Dona Neném.

Eles chegaram num domingo azucrinando a cachorra, atazanando as galinhas e perguntando se tinha café. João estava na roça, mas eu disse que fazia. Pedi que se achegassem no alpendre, já sabendo que não tinha espreguiçadeiras nem tamboretes para todos. Pelas minhas contas davam duas dúzias, cada qual com olhos de acerola madura e pele de urucu. Coisinhas pequenas, daquelas que a afeição brota sem nem se ver caroço, feito criança miúda que avó mima de olhos fechados.

Tomaram dois garrafões, depois pediram leite de vaca com olhos de menino melindroso. Nossa fazenda vendia para metade das bodegas do distrito, então achei que tínhamos de sobra. Pus na mesa de madeira: dois baldes, um caçuá de cajuína trazido da comadre e potes de barro com mel que encontrei na geladeira. Endemoninhados como eram, secaram tudo num piscar de olhos. Me contentava muito ver aqueles bacorinhos se lambuzando, uma dessas fofuras que se vão com o tempo.

Quem dera eles também se fossem com os meses, mas não, as visitas só aumentaram.

No outro mês, na véspera das novenas da capela, eles apareceram de manhãzinha enquanto João pescava no açude. Invadiram a cozinha e bolinaram em tudo, se apoiaram até em mim para ver o que fazia no fogaréu. E eu sempre contente, já que suas pisadas e mordidas mimadas não doíam, pelo contrário, faziam meu riso brotar feito água barrenta em sangria de riacho. Nessa brincadeira, comeram todas as macaxeiras que meu marido tinha colhido no baixio e deixado na mesa. Quis brigar com eles, mas não fiz.

Mas toda paciência tem limite!

A minha se esvaiu quando devoraram minhas alpercatas de couro. Fiquei meio abilobada na hora e dei um cocorote no que estava mais perto. Todos me encararam na hora, uns olhos de fogo, outros de jabuticaba. Então veio o arrependimento e mandei que fossem para o quintal. Eles obedecerem, formiguinhas em sequência.

Lá, joguei espigas de milho, umas batatas e alguns sacos de bolachas fogosas para eles. Tentei esconder as rapaduras e alfenins, mas acabei dando também. Arengavam feito moleques desunidos, subindo uns nos outros, espantando capotes, patos e outros bichos que arrodeavam as comidas. No fim, seus olhos brilhavam. O sol escaldante assolando as cucas, fazendo seus buchos ofegarem. Ali, espalhados pelo quintal, eu já não conseguia contar quantos eram.

Assim ficaram fazendo. Eles chegavam sempre no dia santo, nunca na semana, me cumprimentavam e, feito morta-fomes, comiam o que eu já tinha separado do armazém até ficarem empanzinados. Depois, cochilavam debaixo do pé de cajarana enquanto a barriga diminuía para seguirem caminhando sabe-se lá para onde. Mas a ida nunca era longa, sempre voltavam no mês seguinte feito gato gaiato, com crias até as orelhas e algumas polegadas a menos. Óbvio, com as mesmas antenas que mais pareciam pernas de caranguejeira na cabeça e os lábios roxos de sempre, mas menores.

Na estiagem as coisas mudaram um pouco, vinham duas vezes por mês. Sem falar que não cabiam mais todos eles no quintal da fazenda, o que me fez soltar as ovelhas e bichos do curral para que pudessem se aconchegar. Também não eram mais cagados e cuspidos como antes, uns não passavam dum palmo de cumprimento e outros eram gordos como uma gabirua prenha. Fora os que tinham dentes de gato-do-mato e a pele, antes laranja feito urucu, agora pálida como pó de fubá. O jeito mimoso que chegavam e acariciavam meu rosto também tinha mudado, posso dizer que da água para o vinho. Eram eles, mas não eram eles. Pareciam mais enxeridos do que antes.

E foi aí que a gastura veio a galope que nem notícia ruim.

Só queriam milho se fosse cozinhado, só tomavam leite se fosse de cabra, até cuspiam no chão quando não gostavam da comida, e não tinha saco de melancia, camburão de fava ou inverno que desse vencimento àquela comilança. Daquele dia em diante, soube que nossa fazenda quebraria. E fiquei com medo, com medo que eles não viessem mais.

Ainda me recuperava da última visita, tentando ariar as caçarolas e consertar as prateleiras da dispensa que eles tinham quebrado, quando encarei o cajueiro seco no quintal, sem fruto algum. Já matutava também que calote ir dar em João quando percebesse que tinham devorado as verduras do canteiro e até o estrume das vacas no curral. Ficava cada vez mais difícil escondê-los, era a preocupação que me corroía.

E suas vontades, no mesmo ritmo da seca, só aumentavam. Quer dizer, eles diminuíam de tamanho e aumentavam em quantidade, quem sabe até se multiplicavam, mas não era essa a dor de cabeça da vez. O problema é que nossa fazenda não tinha mais como sustentá-los com carne de porco, panelada e afogado de peru, suas novas comidas preferidas. Foi quando, lembrando do cheiro de mormaço deles quando tinham fome, comecei a remoer o juízo buscando uma solução para que as visitas não parassem, para que eles não me abandonassem.

Na mesma manhãzinha, o sobrinho do João veio trazer um fuxico. Choramingou que uma mulher da cidade esperava por mim no alpendre e que tinha chegado num carro de polícia. Disse também que tinha cara de bicho, a simpatia passando longe. Soltei os peixes que limpava na pia e saí como quem não espera o diabo para fechar as portas e janelas.

– Bom dia, dona Maria, como a senhora tá?

– Bem.

– Eu tou só fazendo a ronda por aqui, aí queria fazer umas perguntas – e continuou, antes mesmo de eu dizer se ia ou não ajudar. – A senhora viu alguma coisa, qualquer coisa, estranha…

– Não vi nada.

– Talvez alguma zoada, alguma luz esquisita no baixio…

– Não. Nada.

– Mas…

– Eu não vi nada – e bati a porta na sua fuça.

Depois continuei na rotina aperreada, na labuta. Sequei todas cabaças d’água e enchi de suco de seriguela, fiz duas bacias de feijoada com o que tinha sobrado do armazém e um pouco de paçoca que, se desse sorte, encheria a pança de vinte deles. Se São Francisco permitisse, até trinta. Ainda pelejava com outras comidas quando percebi que João não tinha voltado da roça, coisa que se resolveu com outro recado do mesmo sobrinho dizendo que ele jantaria e dormiria na casa da irmã. O moleque também disse que seu tio estava cansado de trabalhar feito um condenado e passar fome, depois saiu correndo todo emburrado.

Fiz ouvido de mercador, prestar atenção em João era miolo de pote. Logo ele, que nos últimos tempos não empurrava nem prego em mamão maduro. Ora mais, um cabra que não fazia por merecer minha afeição exigindo as coisas.

Eles chegaram na noite seguinte, uma madrugada de terça-feira, não de domingo como de costume. Teve um pipoco e depois bateram na porta feito mundiça. Acordei atarentada pedindo um pouco de calma, mas a coisa correu frouxa. De tantos que eram, empurraram as janelas de madeira com a força duma marrada de touro, destelharam o casarão como tempestade que sertão nenhum tinha visto e, na força da sua quantidade, aqueles batorés encapetados levaram tudo ao chão com seus dentes de raposa.

No fim, nem pó nem nada.

2 comentários sobre “De Grão em Grão

  1. Esse conto me remete muito ao teatro do absurdo, uma expectativa pelo desconhecido e um crescente desejo de ir mais fundo naquilo que seria descartado pelas mentes sãs. Um retrato de um alguém que continuou seguindo mesmo após esgotamento. Começou com um café e pouco espaço no alpendre para acomodar e desde então se foi construindo o caminho que culminou no momento em que levaram tudo ao chão.

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