O fim dos dias ou quando os dias se acabam

O ônibus parava no meu ponto por volta das nove da noite. Lembro da rua vazia, da falta de gente e do silêncio nem sempre muito convidativo que se estendia até minha casa. Era o fim do dia. Olhava para os lados sempre, mesmo com o baixíssimo movimento, então atravessava a avenida e entrava numa ruazinha lateral, dessas de bairro. A rua da minha casa. Apesar do cansaço ou às vezes apesar do medo (mas sempre apesar de alguma coisa), morava nesse pequeno trecho solitário algum conforto. Mesmo que eu ainda estivesse com a cabeça cheia com o que viria amanha, ou tivesse algo ainda por fazer depois de chegar, tirar os sapatos, a roupa da rua etc. Não importava, eu sabia que aquele momento era o fim do dia.

O caminhar distraído no meio do silêncio urbano, permitia que minha mente revisitasse e misturasse as memórias do dia com as memórias da vida, lembrava da universidade, do futebol de rua que eu jogava quando mais novo, resgatava algumas memórias de Sobral e outras do interior. Se permitir a essa nostalgia já era por si só um prazer, mas tinha mais: A lua.

Ao virar a esquina, com frequência esbarrava na sua imponência, com sua aura de mistério ela se apresentava no alto da minha rua. Alinhada ao meu caminho, parecia indicar pra qual lado devia ir e de qual lado eu vim. Quando criança, lembro de em uma noite de lua, no terreiro de uma casinha a 1km da BR mais próxima, longe da poluição luminosa da cidade, minha avó me confidenciar um dos mistérios do astro. Disse pra mim que em algum lugar lá, naquela bola de luz, havia um cavaleiro, que montado em um cavalo e armado de uma lança caçava um grande dragão indomável. Aquilo me encantava quando criança e mesmo anos depois, após dias intensos, rápidos e instáveis, durante o ritual que era caminhar até em casa, especialmente quando as memórias me pegavam distraído, eu quase podia ver São Jorge e o Dragão correndo a superfície que refletia a luz do dia…

Hoje, não faço mais aquele trajeto, não tenho mais motivos para fazê-lo. Não pego mais aquele ônibus, nem poderia. E ontem à noite, logo antes de dormir, quando os pensamentos voavam alto, percebi que não recordava da última vez que vi a lua. Percorri meus olhos cansados pelas paredes do quarto procurando a janela e quando achei vi uma luz que iluminava meu quintal. Mas já não sei se era a luz dela ou só uma luz de um poste de uma grande avenida a qual minha casa vira as costas.

4 comentários sobre “O fim dos dias ou quando os dias se acabam

  1. Eita, man! Que escrita viva! Essa coisa do caminho de casa e as ruas estreitas somadas aos apesares e seus confortos me lembrou muito minha vida em meu antigo bairro. Coisas tão distantes, ruas pelas quais nunca mais andei e principalmente um jeito de olhar a lua tão simbiótico do lugar. Muito obrigado por esse texto. É lindo.

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