Madalena

Madalena tem horário. Horário de acordar, levantar, fingir que existe. A noite busca  escapar dos infortúnios que a realidade produz, alimentada por anseios que vão de  vontades a desistências, caminha pela casa e balança o corpo, corpo que tanto negligenciou. Aquele que a abraçou mesmo quando o feriu, mesmo quando o torturou  com tentativas absurdas de corresponder às expectativas de um mundo que não lhe cabe. Isso. Um mundo que não lhe cabe, feito de plástico, dividido em bolhas de conformismos, habitado por marionetes. 

As cordas que manipulam e limitam seus movimentos afrouxam-se, quando ela fecha os olhos. A dormência de seus braços e pernas são como um tipo de carinho, que se intensificam à medida que o sono se aprofunda. Madalena ainda não acostumada com a apresentação de suas narrativas na voz de terceiros, choraminga ao alertar pela manhã, com o barulho das obrigações a serem seguidas no palco da vida. Interpretando o papel que o sistema impõe, tem como primeiro ato do dia a jornada da busca pelo emprego, a primeira de trezentas entrevistas.  

Com a cabeça escorada na janela do primeiro ônibus, seleciona memórias de uma vida que deseja para si. Viagens. Rotina de trabalho prazeroso. Aconchego. Respirando fundo ao preparar-se para seguir com o próximo trajeto, apressa-se para  pegar o veículo que sinaliza para sair da estação. Frustrada com a possibilidade de atraso logo no início da manhã, Madalena tropeça e cai na porta de desembarque. Com o pé machucado e com um total zero de ajuda, recompõe a postura, que em momento algum pode deixar cair.  

Segurando em uma barra de ferro para sustentar o corpo ainda em choque, confere a roupa e a bolsa. Tudo em ordem, hora de seguir. Tendo que recorrer a um carro de aplicativo para compensar o tempo que passara, Madalena aguarda e segue a viagem. Cumprimenta o motorista e expira tentando absorver os acontecimentos de um dia que mal começara. Passando os olhos pela cidade em movimento, baixa a cabeça e confere o relógio, ao direcionar seu olhar para o banco da frente se assusta, Madalena apenas grita: 

– Por favor, me deixe sair daqui!

8 comentários sobre “Madalena

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s