Rogái por nós, São José

Passando por aqui eu lembro da minha infância, quando eu vinha pra praça na festa de março – é assim que a gente chama o período da novena de São José, padroeiro do distrito –, todo mundo via a lotação de gente vindo de todas as comunidades das localidades próximas, vindo de tudo que era jeito, de pé, de carro, pau-de-arara fretado, mas vinham. Anterior a isso se via as pessoas que faziam parte das pastorais da igreja subindo nos carros e indo pedir as prendas pra festa nas casas, da cidade sendo tomada por essa energia, única, nesse período do ano, que se inaugurava muito antes do levantamento da bandeira, com a chegada das bancas e do parque, cheio de crianças, se divertindo nos brinquedos por dois reais o ingresso. Uma felicidade impagável, embora na época fosse cara.

Fotografia tirada com drone do alto da praça matriz de Canaan em Trairi, pegando as casas, as árvores, a igreja, os brinquedos do parque de diversões, e um grande número de pessoas na praça. No alto, fogos de artifício.
Última novena Festa de São José, padroeiro de Canaan (Trairi) – 18 de março de 2019 | Foto de Célio Alves

Hoje eu vejo a porta da paróquia entreaberta, um símbolo cultural da cidade independente de religião, com poucas pessoas dentro, afastadas uma das outras, sem comunhão nenhuma, sem paz de cristo, sem mãos dadas e abraços bem apertados, daí a nostalgia faz-se escape. A máscara toma lugar do rosto, impede a boca professar a reza, a oração, o cântico, os louvores tão bonitos que soavam sempre nessas horas pelos alto-falantes das caixas de som e da radiadora nas laterais da torre do templo. Nesse momento eu poderia ouvir bem o som de gargalhadas e gritos das crianças, adolescente e até adultos indo no gavião, de um lado pro outro subindo no alto, com uma emoção misturada ao medo de tirar os pés do chão do brinquedo, achando que fosse ser jogado longe. O gosto do sorvete simples de casquinha feita com uma espécie de quisuque, no qual a gente acreditava ser feito com água do córrego que passava na estrada que dava acesso Alagadiço ao centro do distrito, Canaan – uma conspiração infantil da época. O barulho de tiros das espingardas com bala de chumbinho batendo nos fundos de metal da barraca pra derrubar pacote de chilito, barra de chocolate das mais vagabundas, as cédulas de cinquentas reais penduradas por uma corda fina, que ninguém nunca acertava. Tudo isso faz parte de uma infância que não volta mais, e se ausenta num presente tão incerto.

Passando por aqui, na garupa da moto da minha irmã, num dia como hoje, onze de março, em outros tempos se via um enorme número de pessoas, parte na novena, parte no parque, parte nas barracas se aventurando nos jogos de azar ou comendo, outras bebendo; cada uma no seu espaço, com o objetivo de comemorar, ou até mesmo de ver gente diferente, paquerar, mostrar a roupa nova. Então saco o celular do bolso, e registro uma foto, que se traduz nos sentimentos e nas falas de tantas pessoas que moram aqui, que é tão estranho ver isso, de que nem parece março, de que até as chuvas não vieram. Se vê o vazio dominando, como se a cidade tivesse sido arrebatada, só que para as casas, dizendo “Rogái por nós, São José” na frente de uma tela, sem o calor humano da praça.

7 comentários sobre “Rogái por nós, São José

    1. Essa é uma das lindas façanhas da leitura, possibilitar esse sentimento mesmo ser tê-lo vivido de fato. obrigado pelo comentário de apoio, o autor e o blog agradece de coração ❤

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  1. Gosto de infância. De saudade. Obrigado pela narrativa, compartilho demais dessas sensações para com minha comunidade e os festejos de Nossa Senhora Aparecida aqui em Pindoretama.

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  2. Que texto lindo, sonoro, cheiroso, cheio de afeto e memória. Deu até saudade do meu país Campestre, zona roral de Chorozinho, minha cidade natal. Flaviano, migo, obg pela partilha que toca memória.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ficamos felizes por ter gostado. Em especial o Flaviano, ele mandou dizer que é muito bom falar das nossas memórias e por nossos lugarzinhos tão especiais, porém tão esquecidos, no centro dessas produções. Obrigado pela leitura 💙

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