Aquele que é Digno de ser Odiado

A cena é um homem na janela de um apartamento observando os carros pararem no semáforo. Fuma um cigarro eletrônico enquanto segue os passos de um casal de velhinhos (um homem e uma mulher) atravessando a avenida. O cinza da fumaça turva o verde dos olhos.

Recebe uma mensagem no celular: chego em 5 minutos. Benzinho é o nome do contato.

Rogério sorri sozinho. Depois disso, às pressas, esconde o cigarro eletrônico na última gaveta da cozinha, corre para o banheiro e bate palmas. O chuveiro liga. No espelho, a imagem de um homem alto, peludo, forte e com cabelo cacheado. Se o take e ângulos fossem possíveis, por dentro o contrário.

Creme dental cai na escova, a água da chuca desce pelo ralo e gotículas de perfume tocam sua pele marrom. Rogério encara o relógio na parede, nota que está sem bateria (talvez há meses) e checa o horário no celular. 10:43 am. Suspira.

“Peru preparado”, a voz eletrônica do fogão avisa.

Já arrumado, Rogério desbloqueia a tela do celular e liga os pisca-piscas na sala. A televisão é a próxima para que o som inunde o vazio do apartamento. Escolhe um filme (ruim) de ficção científica. A tarjeta informa ter 1:46 horas de duração, 0:58 já assistidos.

Corta para a tela que ocupa quase toda a parede da sala. O protagonista sobe no palanque, testa o microfone e começa o discurso:

— Eu poderia falar muitas coisas, mas eu sei que dor mais aflige hoje. Eles não podem chegar no nosso planeta, invadir nossas florestas, se abastecerem com as águas e peixes dos nossos mares e acharem que têm esse direito. Esta terra é nossa, nossa vida, nossa história. Falam de crescimento conjunto, de união, de solidariedade, mas não param de apontar suas armas biônicas contra nossas cabeças. Sem falar que estão saqueando nossas artes, linguagens e o que mais for conveniente. Não são nossos donos. Nem nunca serão.

A multidão ouve confusa. Close nos olhos grandes e brilhantes de uma criança.

— Acredito que esta eleição é o momento, digo até mais, a grande oportunidade. O exato instante que escolheremos entre nos submetermos à corruptos, bandidos e inimigos da tradição planetária e alguém que está realmente disposto a lutar contra quem quer que seja. Lutar contra o medo, contra esses opressores que invadem nossas casas e nos obrigam ao silêncio. Meu povo, minha gente, é o momento de provarmos da coragem e trilharmos nosso próprio futuro.

Corte de novo: a campainha do apartamento toca. Din-don na guitarra. Rogério dá o comando no celular, a porta abre, depois sorri para o homem a sua frente. Paul tem cabelos loiros, dentes brancos e segura um vinho.

“Oi Bem, como cê tá?”

Beijo na boca. De língua.

“Você fumou?”

A testa de Paul enrugada, os olhos de Rogério esquivos. O segundo não responde.

“Não precisa mentir. Eu sinto o gosto. E eu já disse que não quero que você…”

“Deixa de besteira, Paul. Bora.”

Ambos entram no apartamento. Rogério deixa a garrafa na cozinha e confere com um garfo o peru pela última vez. Em uma tela paralela, dividindo a cena em dois retângulos, Paul esfrega a palma da mão direita na calça jeans e seca o bigode suado com a outra. De volta, os dois homens se encaram no sofá.

“Achei que ia chegar mais cedo. O peru atrasou, mas acabou que cê previu isso.”

Risada simultânea. Rogério com os olhos brilhantes e Paul encarando o tapete.

“O que foi, Bem?”

Silêncio. Os pisca-piscas frenéticos no ritmo do pé esquerdo do homem loiro.

“Cê tá me deixando nervoso. Fala logo, Paul.”

“É que o trabalho atrasou… Devia ter chegado 9 e pouco, mas já são quase meio-dia… E eu também acabei esquecendo do almoço na casa de mamãe…”

A cena fica muda, o som da conversa diminuindo e o barulho do filme aumentando. Rogério se levanta com os lábios nervosos, os braços abertos esperando algo do parceiro. Paul balança a cabeça de um lado para o outro, depois sua boca se move com a mesma agressividade. A resolução dos homens cai e a imagem fica embaçada (turva, aliás).

Em um flash, surge uma tela escura.

— Obrigado pelos votos, pela confiança. Eu posso garantir que vocês não se arrependerão de terem me elegido. E digo mais, agora, comigo no comando do Planeta, é a hora de colocarmos um ponto final nisso, darmos um basta. É a deixa para honrarmos nossas famílias, tradições e lutarmos por um futuro feito por nós mesmos, sem palpites de alienígenas. É chegada a hora de ensinarmos a eles as consequências dos seus atos. Comigo! Humano bom é humano morto! Humano bom é humano morto!

A multidão repete em coro com braços erguidos, mãos fechadas e os gritos melados de saliva. A euforia dura até os créditos terminarem de subir no fundo preto. O símbolo do serviço de streaming surge.

“Paul, eu não tou acreditando nisso. A gente combinou de passar o Natal juntos.”

“Eu sei, meu lindo…”

“Não me chama assim, Paul. Para com isso.”

Rogério cruza os braços, mas o homem loiro não dá atenção. O segundo se levanta, repete o gesto com a calça jeans e suspira. Tem postura altiva, confiante, ombros levantados também.

“Eu preciso ir agora”, Paul avisa. Rogério vira o rosto e os olhos enchem d’água. O homem de pé aproveita a deixa. “Quando você quiser conversar como adulto, me manda mensagem. Mensagem. Não precisa mandar áudio ou ligar. Mensagem é melhor. Eu ia beber o vinho, mas assim não dá”, completa dando as costas.

O som da batida da porta ecoa. Rogério desliga a televisão e os pisca-piscas. Vai ao banheiro. Estala os dedos: a torneia liga. Lava o rosto. Anda pelo apartamento (em círculos) com as mãos na cabeça e morde o lábio trêmulo.

Corte para o sofá, corte para o peru morno, para Rogério de novo.

Encara o relógio da parede. Lembra. Liga a tela do celular: 0:54 pm.

A cena é a mesma do princípio, porém com o semáforo aberto. Rogério avista um casal (um rapaz e uma moça) caminhando ao lado das Gordinhas (3 estátuas no espaço para pedestres entre as vias da avenida). O céu está nublado. Se o take e ângulos fossem possíveis, Rogério também sentiria a ausência tátil da aliança no dedo anelar e a mágoa no fundo do verde. Verde do olho, verde de dentro.

Recebe uma mensagem no celular: desculpa, meu lindo, é que você sabe como eu sempre faço o que minha mãe pede. Rogério suspira, mas segue lendo: desculpa pelas coisas que eu disse. Ignora.

Quatro segundos se passam. Abre as redes sociais de Paul (com um perfil fake) e encara a tela com os olhos agora secos, quem sabe ressecados. Rogério vê a foto do seu amante junto de algumas pessoas ao redor de uma mesa posta em um jardim e desafia aqueles rostos petrificados enquanto, abaixo deles, imagina legendas: o filho mais velho, o caçula e a esposa. Nos olhos dela, azul ciano. Já nas entrelinhas, nada de mãe.

Roteiro manjado: cena clichê com olhos lagrimosos.

Que filme era aquele que passava mesmo? A nova mensagem de Paul surge na forma de notificação.

No sutil do que não se pode ver, puxa assunto.

Rogério infla os pulmões, os flashes em cinza se vão e dão lugar as transas violentas, aos presentes (chocolates e bebidas) e as tardes assistindo filmes. Tudo com Paul. O sofá sujo de pipoca, esperma seco e suor. A comédia barata fazendo a boca mastigar aberta. Dentro, nada. Já fora, quase alguma coisa.

O calor do momento, o suor pingando. O casal de velhinhos, o casal de adolescentes…

Por fim, Rogério digita: é um filme que conta a história de um político de outro planeta que é bancado por magnatas terráqueos. Depois complementa: um filme até bom. Paul curte sua mensagem. Não uma, as duas. As reticências de digitação aparecem na tela e os olhos do homem de cabelo cacheado sorriem antes da boca. No visto, a sutileza daquela dança.

O celular vibra.

A janela segue aberta.

Outro corte e a câmera foca na íris do olho. O silêncio impera. O som, desligado, não inunda mais nada, muito embora a letra da canção siga na memória. O apartamento vazio (mas não só ele), o questionamento se o filme é realmente bom (mas não só ele) e o desfoque no outro que, na falta de mais personagens, só pode vir (novamente) dele.

Que nome dar ao que se passa? Na avenida, na tela, no íntimo de um homem como Rogério, que anseia bem menos que um mar, e que encheria com 3 ou 4 gotas o que tem de fundo. Não há cena para isso.

Replay: o verde dos olhos turva o cinza da fumaça na janela.

7 comentários sobre “Aquele que é Digno de ser Odiado

  1. Nossa, sensacional! Durante toda a leitura pude viajar visualizando com minha imaginação, que seguia ao passo da leitura, cada corte de cena e cada expressão de Rogério. Um conto muito bem escrito, a leitura foi para mim encantadora. Muito obrigado, Chico MIlla!

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  2. Chico, parabéns, meu amigo! É uma delicia descobrir seus textos, a estrutura de roteiro deu um ritmo excelente para a leitura. Impossível não ir lendo e imaginando as cenas de um curta passando na sua frente. Sucesso, sempre camarada!

    Curtido por 1 pessoa

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